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Breve nota sobre infância e poesia
No Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, há um poema de duas palavras que se tornou muito conhecido: AmorHumor. Um título, que é um verso, e um verso. Não preciso dizer a quantas Oswald foi lido. Uma das sínteses mais orgânicas da língua, esse poema é a articulação que subverte qualquer ilusão…
O que resta da psicanálise
AVISO A QUEM LÊ Antes de começar, coloque para tocar a cançãode Charles Trenet, Que reste-t-il de nos amours? A voz de Charles Trenet colada às primeiras notas da canção Que reste-t-il de nos amours? sempre me pareceu forjar, para qualquer vivente, a experiência do assombro que ronda nossas vidas. Ele diz de uma noite,…
SONHO, CONTINUIDADE E CONCRETO
Essa semana foi meu aniversário. Juntos, a Bahia e Szymborska. Ganhei de presente, além dum cartão de aniversário feito à mão pelo Heitor, muitos livros logo na primeira hora, com um bolo de banana e um isqueiro para que pudesse soprar um fogo que anunciasse a nova idade. Comecei a ler dois deles quase imediatamente:…
A infância termina em Clarice Lispector
Lembro do estremecimento de quando me mostraram pela primeira vez a existência de Clarice Lispector. Foi ali na escola católica, eu com 14 anos, 8ª série do 1º grau. Todos os meninos e meninas já sabiam que aos 14 não se brinca mais. Era uma espécie de regra que esqueceram de me avisar. Eu alheio…
Sarah Kofman, um título
Passei o dia relendo o texto de Derrida em homenagem a Sarah Kofman. Li a versão completa, publicada na revista Les Cahiers du Grif. Versão completa leia-se ali onde ele nunca conseguiu dar um título, ao menos um título fixo, para a despedida da amiga. Me lembrava apenas da sensação. O que ficou guardado em…
Uma rã, uma mulher, a poesia (de Lacan)
Às vezes, valeria ficar horas numa frase que é absolutamente fora-de-campo, como essa dita por Lacan ao analisar uma tela de Bramantino, na Conferência de Caracas: “a nostalgia por uma mulher não ser uma rã” A primeira impressão não pode ser uma resposta, ou seja, não se trata de um “o que ele pôde querer…
Tieta, Tom e toques
Em 1989, eu tinha a idade que meu filho tem agora. A Rede Globo transmitia no horário nobre a telenovela Tieta. Lembro de assistir aquilo. A Claudia Ohana nas dunas, os olhares, o espancamento de seu pai, a sensualidade que eu já entendia. Eu achava que Tieta estava sempre certa. Ela podia ser quem ela…
“Hollywood quer dizer Azevedo”
pensando em Carlito Azevedo (vida: efeito-v) Em 1934, Benjamin e Brecht foramfotografados na Dinamarca.Eles jogam xadrez. Brecht fuma.Ele perdeu seu cavalo e protegeo rei com uma linha verticalde bispos. Sua rainha imóvel,ao lado do rei branco. O jogode Benjamin toma todo tabuleiro.Ele avança com cavalos, a rainhaem pleno combate, um bispojá caiu no campo aberto.Na…
Mekas, a questão e o mundo sem silêncio
Essa noite abri o volume da poesia completa de Jonas Mekas, que ganhei da Camille, traduzido do lituano ao francês e publicado sob o título Debout parmi les choses [De pé entre as coisas]. Belo título e, sem dúvida, muito mekasiano. A edição foi tocada por oito tradutores, o que dá o tamanho do trabalho.…
Michelle Gurevich em Leningrado ou o tempo que eu cantasse
Eu queria saber cantarcomo Michelle Gurevich.A dois palmos, eu aindaenxergo bem. Antes disso,os óculos não fazem seutrabalho. Então tenho quetomar uma decisão. O queimplica em colocar ou nãoos óculos. Eu queria podercantar como Michelle Gureviche assim eu guardaria no bolsominha brevíssima rouquidão,meus pequenos fracassos.Passo a semana acordado.Seis dias sem dormir, é possívelque seja por medo…
Derrida ainda
Não há senão uma imagem fantasma no meio da biblioteca. O olho de ciclope, sempre aberto à esquerda. As formigas dos sonhos. Um sono até a próxima vigília, ali onde surgirá a democracia, talvez um dia. Não há senão aquele que teve de aprender quem era pelo insulto, o dizer do outro que o dizia…
O coração do pai: considerações sobre a angústia
O corpo é mesmo uma matéria crua, e, entretecido dum fogo, torna-se o que se vive como o corpo escrito. Foi Freud o primeiro a apontar a pulsão como um conceito-limite entre a alma e o corpo, entre o psíquico e o somático. E, a partir dos mitos Bororo, Lévi-Strauss apontou a passagem do animal…
Autorretrato, Tarkovski e ética de si
Buscando o autorretrato que Tarkovski realizou com sua Polaroid para juntar às imagens iniciais para o semestre, o Google me fornece como informação sobre ele o impessoal e nada comprometedor “personalidade pública”. É certo, mesmo que estúpido e desinformado. Poderia ter atribuído a ele a alcunha de “cineasta”, ou ainda como é comum, “cineasta russo”.…
Breve ética da escrita
“Escrevo um poema como outro opera um tumor cerebral ou como outro ergue uma parede de tijolos”, diz a Elizabeth Hazin. E isso não é apenas uma poética dita, como se ela falasse dum ofício como outro qualquer. É uma poética feita, e se fazendo. A dupla repetição “como outro” é um ato de escrita.…
Pequena história da leitura das crianças: rastro e afeto na transmissão
Quando começamos a ler? Em qual tempo o rastro da leitura nos entra, nos faz marcha? Eu tenho memórias bem precisas das primeiras leituras, tanto daquelas que fizeram para mim em voz alta quanto das minhas primeiras incursões sozinho, também em voz alta e depois em silêncio, com os olhos fixos sobre as folhas, os…
Acontecer, essa alegria precária
Há uns dias vi pela primeira vez Le rayon vert, de Éric Rohmer — às vezes é assim, um filme, um texto, um bilhete pode levar quase trinta anos pra chegar. A lentidão das não-decisões de Delphine, personagem central do filme, vão em par com sua melancolia desesperada, com sua solidão irremexida. Ela procura, como…
Sobre um dos mais tristes versos
Neruda escreveu, no meio de um poema de amor, um exemplo de frase tristíssima: «La noche está estrellada, / y tiritan, azules, los astros, a lo lejos». Trata-se de um jogo entre potência e ato, entre o que pode a poesia e o poeta e aquilo que ele de fato faz. O poema, muito famoso,…
SETE POEMAS CIENTÍFICOS
1 LIÇÃO DE GRAVITAÇÃO UNIVERSAL A simulação da gravidadenas massas que rodeiamas estrelas é feita com umabola de metal lançadaa uma certa altura e velocidadepelo dedo de uma criança. Sem que falte nada, a bolarepete os movimentos derotação e translação,dançando pela mesalustrada de azul e preto. No aparato, no entanto, não hásol ou uma outra…
SOBRE VIVER DEPOIS
Penso esse título antes de escrever o texto. Penso-o porque todo texto é o que vem depois de algo — do título, sem dúvida, mas sobretudo de que tenha acontecido algo. Ele é sempre objeto de uma ação. Nesse sentido, um texto é sempre ter vivido e não apenas que ele encene ou represente uma…
A amizade do que sobrevive
Um dia aprendi que não acreditava em deus. E esse dia foi dos mais duros e graves da minha pequena existência. Aprendi, antes disso, com cada religião que tentei antes de não acreditar em nada, que não havia nada ali sorrindo para mim, dizendo que o mundo tinha uma ordem além do acaso. Eu tinha…
Nos olhos de certos poetas
Na maior parte do tempo, os olhos de certos poetas permanecem no escuro. São sombras do tempo presente. Nada pode dar sentido a eles. Muitas vezes esse olhar é marcado no senso comum por uma melancolia. Outros, como cegos (Homero, Borges, Cabral, Creeley, Harrison, Glauco e tantos outros). De certo modo, poetas estão categorizados por…
Os tênis de Derrida
Quando alguém do Sul global que escreve vai em direção ao norte, há sempre algo de incômodo, desarranjado, fora do lugar. Não sem motivos, a colonialidade está sempre ali, e não latente, mas formalmente efetiva, inscrita na realidade. Não preciso aqui desenvolver isso teoricamente, rendendo-me a essa atividade que parece ser das mais “ocidentais”. São…
ALICE CAYMMI COM LACAN: O DESEJO, O POP, O DIVÃ CONTINGENTE
Ano passado, Alice Caymmi lançou um álbum ao vivo que celebra seus 10 anos de carreira. Trata-se de um disco e de uma performance ativam a potência de um mundo que estavam em degeneração por conta dos anos tenebrosos que vivemos e que nomearíamos facilmente como as consequências mais últimas da necroeconomia, da ascensão do…
A verdade e Gal
Há muito tempo, fui jovem. Desde a morte de Gal Costa tenho pensado nisso com uma força mais aterradora. Embora essa afirmação do tempo possa parecer ter uma dimensão de lamúria, lamento e quase elegia, sua morte parece ter me apresentado um outro caminho para essa impressão não só de transitoriedade, mas, sobretudo de vida.…
POESIA, SALA DE AULA E AUTO-AFECÇÃO
Quando se trabalha como professor e com poesia, um detalhe sempre sobrevém no curso de tempo e no espaço da sala de aula: a experiência heterogênea enquanto originalidade. A afirmação é paradoxal e o trabalho está no limite de suas próprias condições. Uma experiência se constrói sempre como a marca de um sujeito (e por…
UM CURSO DE POESIA
Quando proponho um curso, um seminário novo, sempre tenho em mira certo contexto. Não acredito em escrita que seja desvinculada de uma demanda, de um endereçamento claro, de uma inquietação que nasça na tensão do lugar e do tempo em que nos dirigimos aos outros. A escrita que é apresentada durante um curso necessariamente se…
Negando a morte do outro
Luce Irigaray publicou esse breve texto em 1967, na revista “Langages”, que tinha por tema de dossiê “Patologia da linguagem”. Ela mostra por uma análise gramatical, bem fundamentada no sentido de cuidado com cada termo e função discursiva, as diferenças entre a enunciação histérica e a obsessiva. Cada vez mais frequentemente a leio com cuidado,…
LA FIN DU MONSTRE
Acabei de ler o ”relatório” de Preciado diante da Escola da Causa Freudiana, diante de 3500 psicanalistas no Grand Palais. Não tem como questionar a importância dessa intervenção diante da sociedade psicanalítica, sobretudo a parisiense. A base do seu argumento é não haver espaço para uma psicanálise sem a noção de diferença sexual, que Preciado…
MEIO SAL GROSSO MEIA ÁGUA
pego um carro dobro cinco vezes em retornos brasília não tem esquinas é o que dizem e dizem isso porque esquina é uma concepção sulista e depende de um c r u z a m e n t o no entanto brasília tem retornos muitos retornos às vezes é preciso dobrar quatro vezes numa tesourinha…
não ver – lei do homem
youtube.com/watch
Ich bin nicht überzeugt dass es die Demokratie ist!
Ich bin nicht überzeugt dass es die Demokratie ist! (No aniversário de São Paulo) No finzinho do texto “A razão do mais forte (há Estados párias?)”, Derrida se concentra na análise que gira, faz entorno, torna, volta, arruína sobre a relação democracia/salvação, democracia/saudação e, em última instância, democracia e saúde (pública), a partir da noção…
Maiakóvski
uma tradução do poema “Maiakóvski”, de Frank O’Hara
Toda a memória do mundo – 1956: que ano!
Certa vez, a Elizabeth Hazin, enquanto ainda era seu aluno, propunha a possibilidade de se fazer um curso só sobre romances publicados em 1956 e seus arredores. Acabei não sabendo se ela o ofertou um dia, mas tudo vinha das pesquisas que ela levava sobre o “Grande sertão: veredas”. Como minha onda sempre foi a…
Quem tem medo da Universidade?
Disponibilizo aqui um texto que reflete sobre o espaço da universidade, sobre o momento da pandemia, sobre as possibilidades de reimaginar as ações no ambiente acadêmico. Partindo da história e fundação da Universidade de Brasília, e na leitura dos documentos fundacionais de Darcy Ribeiro, esse texto pretende refletir sobre outros espaços políticos para a comunidade…
Nome Próprio
Trailer do livro “nome próprio” pra vocês… está bem bonito, com música da Camille Ruiz… clica aqui e assiste clica aqui para comprar o livro
a língua passa rápido por aqui
tem mais de um ano que confundo as línguas — as nossas numa casa ou na cidade de onde você habitasse por mais bela a seus olhos aquele mar colado um museu que se estende ao mesmo mar como uma teia de pedra ou aço sobre um cais uma torre e um farol — …
Os últimos dias em Czernowitz
Essa história termina entre maio e junho de 1970. Na Avenue Émile Zola, um esboço de carta dirigida a Martin Heidegger é encontrado. Quatro linhas, não mais. Quer dizer, cinco se contarmos com o nome do destinatário, que sem dúvida não é qualquer nome para ele. O escrito comporta como sempre a demanda por responsabilidade,…
enquanto te escrevo
enquanto te escrevo algo que talvez fique guardado ou é isso aqui mesmo que te escrevo sobre a minha mesa há uma pilha de livros folhas soltas listas de presença papéis que sem dúvida vou perder de vista os rascunhos de algo que penso com vivo com e ensaio escrever como se fosse postar isso…
Lugar de fala em lugar de falo
I did not come to play with you hoes I came to slay, bitch I like cornbreads and collard greens, bitch Oh, yes, you besta believe it Beyoncé Durante muito tempo me mantive alinhado ao pressuposto básico da ideia de uma “lugar de fala”. Digo assim, numa frase estranha, inquietante minimamente, porque, diferentemente de uma…
Nalgum lado
em algum lugar em mim quer dizer no mais fora disso que alguém algum dia disse que era eu passa pela cabeça ela está dispersa noutras tantas outras que tá liso que tá bem não vem com essa então do lado esquerdo da minha cabeça uma artéria se move estranha irrigando o que talvez nem…
Quando o Brasil vai se reencontrar com seu Torquato?
Torquato Neto foi daqueles autores que entraram na vida sem se anunciar, sem impor autoria pra ninguém. Digo, ele entrou na minha vida ou na vida de muita gente que não estava interessada nessa conversinha pra boi dormir de falsa educação, de processo intelectual (saber os nomes de todas as coisas, listá-las numa biblioteca de…
avó uma edição de baudelaire
muito antes de ler a língua de baudelaire tive de conviver com aquela edição já bilíngue a capa branca com retângulo róseo uma senhora esboçada com traços a cada linha mais fortes e pendendo à esquerda como decaída traduzida por um quase poeta preocupado com rima e forma acima da renúncia em traduzir e isso…
Era pra ser um poema de amor
o que eu poderia te dizer ainda e você sabe que que já não digo pra evitar o erro a repetição os filósofos parece pouco têm tido a calma do seu silêncio aquele que anda pela casa guarda um olhar recluso sob o músculo relaxado quem guardou a senha do fim do mundo? para sempre…
Análise terminável e interminável
hoje sentado pra fora do meu sonho sonhei com minha analista com minha primeira analista que foi aquela a quem nada pedi e nem sequer a análise que ela feroz correu até mim e me estirar num canto alongando a marca sobre o que tinha pra ser dito e o material de que são feitos…
ELES BEBEM LEITE E QUEREM SANGUE
diz-se que o leite quando sai da mama tem a mesma constituição do sangue na maior parte das vezes a criança toca com os lábios o seio tomando de vez sua sobrevivência um ato tornando o sol da aurora um tempo em que se inscreve separado do corpo que o gestava e mais adentro dum…
Nada de papo
pelo seu filho você acaba aceitando fazer parte dum grupo de whatsapp desses que reúnem os pais com aparentemente informações sobre a escola sobre a vida comum e principalmente o aqui agora da vida que eles tiveram de levar sozinhos meu filho anda dizendo que se sente só que dentro de casa está todo mundo…
E quem quer bombar?
você cruza pela rua umas dez pessoas correndo andando de bicicleta na caminhada mascarada do ar dum novo tempo você cruza ou você passa por elas uns dizem que a outra pessoa o atravessa a modifica meio que assim do nada em nada basta uma gota de ar muito antes do espirro ou de um…
taturomem
leio poetas bem mais jovens do que eu nessa manhã depois de ter havido não apenas panelaços mas uma salva de rojões e fogos de artifícios durante a noite que se apressava nas horas no dia que acordado terá do cansaço de ter sido acordado com o pesadelo do meu filho enquanto penso e leio…
os selvagens
não eu não li antes os detetives selvagens de roberto bolaño não mesmo que pareça estranho mesmo que soe bizarro o simples fato de um professor de literatura bastante preocupado com a questão da escrita e de como a escrita pensa a escrita ou como a escrita se faz escrita ou por escrito eu não…
o pangolim e as escamas da política
desde o começo da pandemia atribui-se uma relação direta como foi já o lobo já a raposa já o leão a cobra o leviatã entre o animal e a peste entre ser animal e ser governado pela bestialidade esse supra-humano traço de inscrever-se acima mais acima do perecível e a que desde o velho aristóteles…
Tudo o que eles querem, eles querem
Acabo de ler a entrevista de Judith Butler em que ela afirma ser o neofascismo uma “reação e não uma regressão”. Ao apontar o modo de instabilidade produzido e explorado pelas formas de governança neofascista, ela se depara com um duplo problema: o que ela chama de “precariedade econômica radical” e os “avanços feitos pelos…
elementary astrophysics
o sol dessa manhã domingo 3 de maio queima os pés terei em alguns dias uma marca daquelas que em poucos dias virarão uma pele morta e descascando já não sentirei a ardência desse mesmo sol que parece emitir uma radiação estranha porque já o observo há dias procurando um outro modo de viver o…
sol confinado
enquanto o sol entra pra acabar com a noite fria do outono tropical professores são obrigados a lives à distância a empacotadora das compras on-line se vê ameaçando sua família no mínimo espaço onde habitam as caixas de supermercado detrás do vidro adoecerão para que saiamos de casa pra acordar ainda uma vez a voz…
eu sopro os pássaros
rasga a manhã pela janelaque dorme fechada e parao olhar quando se abreestendendo sobre si um outroar incômodorasga como quem rasga umcontrato e cai a máscarade proteçãodo presidente (sic) o menino corre com um balãovermelho o fundo do arde uma outra décadao café deixado na mesalouças se acumulandoa carne que se misturaao coentro e cominhoa…
ana c pega um voo
passo toda a tarde olhando reproduções de fotos de ana cristina cesar me detenho impaciente naquele adeus que somente ri na luz muito clara percebo as datas e brasília e bariloche surgem em postais que poderiam ter chegado e nunca vieram bater ali na porta em casa tinha uma foto grande horizontal da minha mãe…
being quiet
uma dia de grande sol após a chuva à quarta-feira de cinzas sem bossa alguma diante da piscina as crianças gritam suas brincadeiras compreensíveis a barra divide a água fria e o salto dos micos que se amotinam no roubo fortuito dos objetos sem importância leio uma garota destemperada como qualquer garoto destemperado com cenas…
relembro
quando eu era pequeno olhava distante e passava as mãos sobre os muros salpicados e sempre senti um vento que passava sobre meus ombros e não tinha ainda o nome de angústia só não tinha linguagem e a proibição de me sentir assim quando era pequeno como hoje