Essa história termina entre maio e junho de 1970. Na Avenue Émile Zola, um esboço de carta dirigida a Martin Heidegger é encontrado. Quatro linhas, não mais. Quer dizer, cinco se contarmos com o nome do destinatário, que sem dúvida não é qualquer nome para ele. O escrito comporta como sempre a demanda por responsabilidade, por se responsabilizar por aquilo que o outro fez, conscientemente. Mas o escrito começa sem começar, a frase não inicia. Ela diz:
“… dass Sie durch Ihre Haltung das Dichterische und, so wage ich zu vermuten, das Denkerische, in beider ernstem Verantwortungswillen, entscheidend schwächen.”
“… que com sua atitude você enfraquece de forma decisiva o poético e, atrevo-me a supor, o pensativo, em ambos séria disposição de assumir responsabilidades.”
Essa história se estenderá ainda depois do fim, até 1991, com uma tradução achada após a morte de sua esposa, sobre a escrivaninha dele, com uma frase que atesta a autenticidade da tradução. O que ele faria com a tradução?
Mas se essa história termina entre maio e junho com esse bilhete rascunhado, onde ela começa? Vou supor que sua preparação comece com uma carta não datada pelo signatário, mas que a destinatária sobrepôs um 19 de março de 1970, embora deva-se pensar que a carta é de um dia antes, já que ele se encontrava na Alemanha pela última vez nesse dia. A data celebra o 43° aniversário de Gisèle. E se trata do último texto escrito que ele a enviou. O envelope contém três folhas 21 por 27 dobradas em quatro e escritas apenas num dos lados. Uma pequena nota diz, na língua dela, não na dele:
“O que posso oferecer-lhe, minha querida Gisèle?
Eis um poema escrito pensando em você — ei-lo tal como eu o anotei, nesse instante, em sua primeira versão, inalterado [inalteré], imundado [inchangé].
Bom aniversário!”
Esse pequeno texto está escrito em tinta azul, e a palavra inchangé foi acrescida a posteriori em tinta mais clara – um sinônimo que, como todo sinônimo, não significa exatamente o mesmo, mas mostra seu delicado e dedicado atravessamento dum lado a outro, no transporte de um sentido a outro, de um significante a outro.
A segunda parte da carta é o poema propriamente dito, dessa vez em sua língua e escrito em caneta esferográfica preta, mas seguido de sua tradução palavra a palavra para a língua dela, num ensaio de tradução que tateia a língua do outro a quem ele dirige um último escrito.
Es wird etwas sein, später,
das füllt sich mit dir
und hebt sich
an einen Mund
Aus dem zerscherbten
Wahn
steh ich auf
und seh meiner Hand zu,
wie sie den einen
einzigen
Kreis zieht
13.XII.69
Avenue Emile Zola
Il y aura quelque chose, plus tard,
qui se remplit (se remplira) de toi
et se hisse(ra)
à (la hauteur d’) une bouche
_______
De mon (Du milieu de) délire (ma folie)
volé(e) en éclats
je me dresse (m’érige)
et contemple ma main
qui trace
l’un, l’unique
cercle
Os versos começam essa história do instante: “Es wird etwas sein, später” — haverá algo, mais tarde. Assinado nesta data, mas datado de 13 de dezembro de 1969. A qual tempo ele se dirige? Quando virá o mais tarde? Não tão tarde ou já era tarde. O tempo entre vírgulas, o tempo adiado, como aquele que será o do porvir – ainda escreverei mais sobre essa temporalidade um dia – em que ele se enche dela em direção à loucura, ao delírio, à boca, ao único círculo entre eles. É, como ele diz, um poema “escrito pensando em você”. Alguns meses antes, ele o rascunha e agora o oferece como presente de aniversário e reafirma que é “tout de suite” sua concepção, sua temporalidade inalterada. Um instante só e único, como o círculo que talvez ele veja se fechando nesse último aniversário, nessa última data. Eu proporia traduzir em português por algo assim:
Haverá algo, mais tarde,
que se preenche de você
e se eleva
a uma boca
Da loucura destruída,
eu me levanto
e vejo minha mão
traçar
um único
círculo
Entre 19 e 31 de março, ele vai à Alemanha pela última vez. A Hölderlin-Gesellschaft (Sociedade Hölderlin), organiza em Stuttgart um congresso pelos 200 anos de nascimento do poeta. A Hölderlin-Gesellschaft foi fundada em 1943, sob a gerência de Goebbels. Em 21 de março, ele lê poemas inéditos a uma audiência de velhos senhores, muitos deles nazistas convictos que fazem, “silêncio de morte” diante daquilo que eles consideram “incompreensível”. Ele está totalmente entregue ao espectro de Hölderlin. Compra seu último livro, um exemplar de Francis Bacon. Segue para fazer duas leituras em Freiburg. Numa delas está Heidegger, que lhe dá dois de seus livros (“Zur Sache des Denkens” e “Die Kunst und der Raum”) com dedicatórias que agradecem a sua leitura e saúda o reencontro [zum Wiedersehen]. É 26 de março, e Heidegger diz a Gerhart Baumann: “Celan ist krank – heillos” [Celan está doente – sem esperança]. Nada mais claro do que esse eterno reencontro com nazistas, dizendo adeus cínicos como um modo de pensamento e escrita.
Dia 16 de abril, ele diz a seu filho que não poderá assistir à peça “Esperando Godot”, que será apresentada no dia seguinte. E precisamos voltar um pouco, para uma carta, a antepenúltima, de 14 de janeiro de 1970, escrita a Gisèle, sobre sua razão de ser ele se coloca” “Diante da alternativa, entre meus poemas e nosso filho, eu escolhi: nosso filho”. Depois disso, declarações de amor. André du Bouchet dizia que ele acreditava ter de refazer o sacrifício de Abraão a cada vez para escrever um poema, portar o sacrifício de Isaac como fundação de cada novo poema, ter de decidir pelo único, ter de decidir pelo outro…
Na madrugada de 19 de abril, da ponte Mirabeau ele salta. A ponte fica a poucos metros do seu endereço. Naquele verso, oito anos antes, dizia algo sobre o que se passa nessa madrugada: “er ins Leben hinüber-/prallte” [ele saltou para a vida]. Gisèle anota em sua agenda que ele partiu, mesmo sem saber de nada. No dia seguinte, ela vai até a Avenue Emile Zola, e encontra seu relógio – um signo entre eles de que ele teria partido, se o relógio fosse encontrado. A biografia de Hölderlin aberta sobre sua escrivaninha – com o fragmento sublinhado que dizia que ele se torna obscuro e afunda nos poços amargos de seu coração…
Seu corpo percorrerá muitos quilômetros até ser encontrado em Courbevoie. No dia 01 de maio, numa rede que filtra o Sena, seu corpo é descoberto. A via tortuosa dessa vida.
Na carteira, os dois ingressos com a data para assistir à peça do dia 16 de abril.
No dia 12 de maio partia também a Nelly Sachs para provar que sobreviver é carregar a morte do outro como um modo de testemunho, como não haver nada a testemunhar a não ser a angústia muda.
As linhas sobre Heidegger em sua mesa é talvez tudo o que podemos reter desses últimos dias passados entre tantos lugares que significariam talvez o nunca ter saído de Czernowitz a não ser por deportações, mortes, exílio, fugas. Os últimos dias nessa terra, na terra de estranhos. E tudo parece ter silêncio. O silêncio se instala ali. E não o silêncio necessário para um poema, um pensamento. Mas o silêncio covarde de quem é conivente com a ascensão e manutenção do nazi-fascismo sempre crescente, sempre ali para dizer que somos incompreensíveis, que estamos incuravelmente doentes, a nos dedicar livros com o irônico prazer do reencontro. Colocar, displicentemente, um “Für…”, seguido de seu nome, e agradecer que ele continue preso a leitura desse que é também como os velhos senhores da Sociedade Hölderlin. Eu aqui, prefiro terminar com seu nome e dizer que devemos escrever für Paul Celan.
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