hoje sentado pra fora do meu sonho
sonhei com minha analista com minha
primeira analista que foi aquela a quem
nada pedi e nem sequer a análise que ela
feroz correu até mim e me estirar num canto
alongando a marca sobre o que tinha
pra ser dito e o material de que são feitos
os sofás os colchões essa teia de molas
couro ou algodão caxemira e espuma
o sonho era claro em narração e muito
moldado em cinza e negro e um tanto
de marrom onde os sempre corredores
apareciam com placas muito bem feitas
numa exposição dedicada ao trabalho
do analista
entre as muitas línguas falávamos português
como nem sempre foi o hábito como se ela
não pudesse senão falar inglês com seus
pequenos muitos olhos estalando o rímel
que cobria algo a mais que o som de uma
música muito mal tocada ao fundo no fundo
duma sala talvez a voz daquele pequeno
grupo em volta de freud ou da questão
que os fazia ficar ali fumando charutos
sem se masturbar
no sonho o espaço da exposição era o mesmo
do museu de budapeste da casa do terror
e lá estava ela falando comigo como se
nada tivesse acontecido como se ela
não tivesse quebrado o contrato sem análise
por hoje meu bebê sem que eu diga uma palavra
mas ela estava ali com seus cabelos
imensamente curtos
colados à cabeça com uma espécie de goma
ou daquelas pomadas para penteados
masculinos seus olhos maquiados como se
um soco a tivesse trespassado a boca de um
vermelho pantone e o cigarro mil vezes
caído à esquerda da fenda entre os dentes
ela me mostrava tudo por essa parte onde
se escrevia numa placa transparente
psychoanalytische couch dr. sigm
assim como se o signo dum prenome pudesse
atravessar o que se fez título ou antes
um método para chegar a isso ele ali a ela ali
e da sua voz não saíam senão sons em alemão
de fort dürfen straße unbewußten ou na rua
pode estar o inconsciente ele é permitido
die worte sind wie die haut auf einem tiefen
wasser a pele da palavra que hoje
já significa pra mim o que não significava
há treze anos hoje espelhos de espíritos
sobrecolocam-se nas águas profundas
da palavra pele da palavra que é também
uma pele ou daquilo que expele
e ainda verschiebbare und indifferente energie
dem narzißtischen libidovorrat entstammt
also desexualisierter eros ist veio assim essa sentença
como se eu a ouvisse na minha pronúncia do alemão
eu tive um professor de munique e ele tinha um
sotaque diferente daquele de berlim ele não conhecia
também um feliz aniversário um happy birthday to you
eros dessexualizado na energia narcísica
nenhum eu me é ideal nada que não me chegue
senão por aquela falha na música que foi
trocada de lugar para caber do outro lado
do vinil e como se falasse de um outro garoto
vem no sonho a melodia e the man who taught me
to swim he couldn’t quite say my first name
a frase alemã silabicamente dita enquanto ela
caminhava pelo corredor coberto de veludo
como também era seu próprio vestido
em carrés de linha preta sobre o gris
o eu touche au réel a frase não estava correta
e ela mudava de analista a frase perecia
da verdade la vérité toca no real ao real
então que ela perece porque precisa
ela diz essas coisas e nos olhamos sem cumplicidade
o chão coberto de sapatos sem par todos
novos todos sapatos masculinos para uso
em mulheres ela dizia e ela arrancava um pedaço
do revestimento em veludo da parede para
dizer que a universidade não tinha orçamento
pra uma exposição como essa não tinha como
sobreviver com aquela coisa ela amassa o couro
do sapato os cadarços ali elas os contorce
para dizer que são bons ou que são próprios
para a chuva mas eles estão apenas cobrindo
o chão por onde devemos andar por onde
se é preciso andar quando a água faz litoral
na praia e tudo ainda é muito raso mas há onda
há espuma e pequenos crustáceos pequenas
conchas ordinary music they also mourn
e é claro que eu estive na cidade amarela onde
parte do danúbio estava congelado
onde caberia o fogo do poema já antigo?
me lembro da opressão e do goulasch ou da galuska
servidos na praça vazia a poucos metros do rio
onde os pés congelavam ao contrário da sua
fala que suava ao grande calor da próxima
sala do próximo piso um boudoir onde muitas vozes
diziam uma só frase em muitas línguas
eu não tenho vocabulário pra lê-lo para ler
o que foi obsceno nessa língua parecia-me
ao gato asmático que também vive ao meu lado
tentando ronronar e se desculpando por existir
ela vai se desfazendo na medida que diz
vamos tomar um café na esquina com a quinta
ela se desfaz e sobra o museu vou seguindo até
encontrar uma porta que dá no apartamento
da infância a escada a carranca o cimento
desço desço desço desço desço não há térreo
a cidade bufa uma turba de calor e ar seco
– hoje eu acordei mais cedo mesmo antes
de tocar o despertador no som irritado
da manhã
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