Eu queria saber cantar
como Michelle Gurevich.
A dois palmos, eu ainda
enxergo bem. Antes disso,
os óculos não fazem seu
trabalho. Então tenho que
tomar uma decisão. O que
implica em colocar ou não
os óculos. Eu queria poder
cantar como Michelle Gurevich
e assim eu guardaria no bolso
minha brevíssima rouquidão,
meus pequenos fracassos.
Passo a semana acordado.
Seis dias sem dormir, é possível
que seja por medo de
interromper a vida no meio.
Randy Gardner ficou 264 horas
acordado. No meu caso,
hospital, com a evidência
de que estava morrendo.
Não dormir não está nos planos.
Eu só queria mesmo é cantar
como a Michelle Gurevich.
Então eu conheceria os dilúvios,
que ninguém testemunha,
como naquele sonho
em que formigas gigantes
tomavam o bairro e eu já não sabia
se era setembro ou se as contas
batiam. Se eu cantasse feito
Michelle Gurevich essa dor no peito
talvez nunca tivesse dado as caras.
Eu teria ar nos pulmões e não
um nódulo — 0,9 cm que parece
estar calcificado — no átrio superior,
ou as válvulas frouxas do coração
que expulsam de mim sangue
e vida. Então tudo retorna,
como um eco a sete metros,
como Narciso impedindo
quebrar o espelho.
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