Perturbação na tradução e no pensamento

Quando em 2003 resolveram traduzir para o português Gender trouble, a solução proposta para a palavra que ligava o gênero a seu fundo não substancial foi a de “problema”. A escolha de Renato Aguiar (ou da editora Civilização Brasileira) parece responder às primeiras incursões do prefácio de 1990 de Butler quando liga “trouble” a um uso referencial, bem introduzido por “criar problema”, “ficar fora de problemas”. Mas essa expressão vai se desdobrando no texto até ganhar a força conceitual e, com isso, assume a ambiguidade das soluções mais “problemáticas”, que forçam outra leitura, uma outra tradução que force a única palavra da língua de partida por uma rede de outras palavras em português, ou ainda numa variedade latina da questão. Não sei para vocês, mas “criar problema” pra mim soa muito anglófono. Eu usaria, “no vocabulário da minha infância”, algo como “se meter em encrenca”. Aí, para mim, a primeira tradução modificada do título de Butler deveria ser: As encrencas do gênero. Como quem dissesse que pensar em gênero e falar dele nos colocasse em maus lençóis, nos apontasse um dedo para a criança encrenqueira que ousaria pensar nisso. E essa não é a única encrenca desse título. É preciso olhar pra posição de modificador que a própria palavra “gender” assume aqui. Ela é um atributo da encrenca. Seriam “encrencas genrificadas”, os problemas que são os problemas da generalidade e do gênero. Vem do gênero estar encrencada, encrencado.

A história das traduções nos reposiciona nesse lugar em que nada pode ser tomado por uma generalidade e que, antes, deve ser traduzido no sentido forte da palavra, ou seja, deve ser pensado filosoficamente enquanto se modula a língua que vai em relação com a outra. Assim, quando o título foi traduzido para o francês por Cynthia Kraus, dois anos após a tradução brasileira, e 15 anos depois da versão em inglês, foi mantido “Trouble dans le genre”. A palavra “trouble” funciona em inglês e em francês, mesmo que a forma substantivada do verbo “troubler” seja quase que demasiado específica. A língua francesa, no entanto, criou uma outra disposição, dessa vez preposicional para o lugar do “gênero”. A encrenca agora estava “no gênero” e não vinda dele. Nesse sentido, não consigo não pensar que a a expressão equivaleria a “distúrbio”, com uma função um tanto patológica no discurso, algo como “disforia”. Se há um jogo aqui, ele levanta e releva essas questões e, talvez, suas ironias. Kathrina Menke traduziu o título para o alemão por “Das Unbehagen der Geschlechter”. A ideia aqui talvez seja a de construir um elo com o ensaio de 1930, de Freud, “Das Unbehagen in der Kultur”. Algo como o Mal-estar, como ficou a clássica proposição, mas também o desconforto, o desassossego. Se o gênero, seu aspecto Geschlecht, que hoje devemos ler com Derrida, é algo como um pulsão atravessada por formações sintomáticas, talvez apenas uma outra resposta pulsional resolveria a questão, colocando-a nessa posição de desconforto estruturante. Já Maria Antonia Muñoz escolheu, em espanhol, “El género en disputa”. Ao produzir um desdobramento analítico para o “trouble”, ela escolhe manter um dispositivo de pólemos mas com a centralidade do gênero ainda como substantivo, como matéria da metafísica da substância e não como o que sobrevem como atributo, como o que seria produzir pela disputa e não pelo gênero em si. Em italiano, Sergia Adamo decide por “Questione di genere”. Não muito distante da solução brasileira: questionar, problematizar. Essa dimensão quase fora do que é o pensamento como um idioma próprio, como uma ruptura necessária. Se nos deslizamos entre as línguas, vemos de modo muito cru que a conceitualidade proposta aqui não está pacificada. E talvez essa seja justamente a inquietação mais produtiva do conceito. 

Reconheço que traduzir por “encrenca” seria pedir demais, embora goste muito dessa hipótese, e pense que ela mobilizaria a esfera política da palavra. Mas há outra solução, com uma língua mais filosofante e, ao mesmo tempo mais precisa do que simplesmente “problema”. Palavra que não é senão precisamente uma generalidade do que poderia ser uma filosofia. (Aliás, não haveria aí uma explicação do porquê Butler ter demorado a entrar nas esferas filosóficas e muito rapidamente ter sido incorporada aos estudos de ciências sociais e literários? Não há aí uma nichização dum pensamento que reclama outro lugar?). De todo modo, é preciso dizer claramente: Butler não “problematiza” o gênero. Essa leitura é fraca. O que ela faz é compreender algo que vem do gênero. Ela vê uma turvação, um agito turvo que inquieta. Uma água que já não é tão límpida para um conceito que nunca o foi. Trata-se de um transtornar-se diante da ideia de gênero. O transtorno não como distúrbio medicalização, embora essa seja uma das questões apontadas na genealogia do gênero, mas como um expor-se à essa impropriedade, à essa sujidade que precisamos para um verdadeiro e revolucionário mal-estar. 

Minha proposta, e é o que defenderei conceitualmente no próximo semestre para pensar outros conceitos que precisam de um olhar turvo, é que façamos a tradução por PERTURBAÇÃO. Inicialmente, sem o plural, com o objetivo de ler sua singularidade conceitual. Depois ver se há pluralidade no transtorno e no entorno dum conceito. A perturbação de algo implica tomar esse “algo” como para fora de sua propriedade, de que haja algo como a essência do algo. Perturbar-se o conceito é colocá-lo numa situação não de desvelamento da operação da verdade, mas saber duvidar de sua nitidez, encontrando suas falhas e fendas por onde se pode ver e agir de outro modo. Talvez Butler tenha encontrado em seu idioma algo que traduzisse o “sollicitare” latino que está, como Derrida o apontou nos seus primeiros cursos na École normale supérieure, justamente na palavra “desconstrução”. Desconstruir implica essa solicitação que turva, que pode olhar para o turvo que se coloca como nítido e mais próprio. Talvez esse caminho tenha deixado suas marcas. 

A partir de agosto, vou propor essa leitura, desde o conceito de vivente, diante de alguns outros, num seminário em que me introduzirei institucionalmente no ensino da filosofia. Espero vocês por lá.


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