Saudação a Allen Ginsberg

(em seus primeiros cem anos)

Uma foto sua está afixada entre as fotos de família,

a vejo a cada dia que cruzo o corredor da casa, ali,

enquanto há alguns anos me fazia cortar o ralo cabelo.

As mãos delicadas de quem amamos sorriem sob luz

branca para ver a calvície que já não terá volta.

Na fotografia, você está eternamente jovem, cigarro

à mão, camiseta regata e um lustroso cabelo demasiado

preto talvez pelo não colorido, pelo excesso de branco.

Você faz um gesto com os lábios, como se cerrados

antes de dizer a próxima América, aquela de fantasmas,

onde nomes se reúnem entre outras palavras, aquelas

a que todos conhecemos para que se tornem, eles

também, outras palavras que devemos conhecer.

A topografia inclinada de seu corpo acompanha a viga

metálica em que você se ancora, talvez agora um rosto

de marujo, esperando o próximo navio de rapazes viajados,

num porto de muito sol sob a marca incansável do verão,

ou a coluna duma ponte onde o poeta se passa um baseado,

e a história muda como os cravos mudos mudam

no parapeito dum apartamento em Manhatã, onde

uma bolex lituana cantará sua parlenda na celebração

do seu corpo imortal, seu kaddish tão perto daqui,
meu longo peito derramado sobre anjos e fumaças.

E se o olho agora, seu rosto me soa como o daquele pequeno

muísca raptado pelos deuses a dar mais ao norte do Andes.

O menino congelado nesta fotografia é o errante que

também em mim ainda corre a dar com muros chapiscados

numa infância perdida ao ler poemas como corpos,

quando meus príncipes não se distinguiam de poetas,

e eu me vestia de Goethe ou Álvares ou Shakespeare,

segurando um lápis qualquer carcomido para cruzar
a área verde como se o último bosque diante de dragões
e castelos no ar.

Você, Allen, me vestiu da canção mais rente à minha pele,
aquela em que sou mais moço sendo o mais velho,
em que posso carregar um filho, verso, voz, até o outro
lado, na fronteira onde meu dedo não soube tocar;
em que me deito sobre a água e o rumor dos risos vibra
pelos braços que sustentam um sutil equilíbrio
enquanto o mundo explode ali dentro.


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