Mekas, a questão e o mundo sem silêncio

Essa noite abri o volume da poesia completa de Jonas Mekas, que ganhei da Camille, traduzido do lituano ao francês e publicado sob o título Debout parmi les choses [De pé entre as coisas]. Belo título e, sem dúvida, muito mekasiano. A edição foi tocada por oito tradutores, o que dá o tamanho do trabalho. Mas abri esse volume, enquanto releio uns textos de Caetano Veloso, preparando um curso sobre sua poesia. Fico abismado sempre em como esse homem forjou minha experiência de leitura. Essa coisa toda antropofágica (que segue em todos os sentidos e não apenas naquele mais estritamente oswaldiano que chamava tanta atenção do momento histórico da Tropicália). Uma referência é uma ilha de afetos, um fio de perceptos que sempre, inevitavelmente, tiro. Não nasci pra Ariadne, muito menos pra Teseu. Estou mais pra uma Aracne que desafia a deusa, porque não pode parar. Há nisso toda uma lógica: não interromper. Caso haja descontinuidade, meu mundo inteiro desaba. Daí eu vou ligando uma coisa na outra, respondendo a todas as inumeráveis situações e questões que uma voz infinita me faz. Demorei muito tempo para perceber que ela vinha de fora, que ela não era uma extensão da minha consciência. Ela está ali, me exigindo que eu continue até o mais além da exaustão. 

Mas eu dizia que abri o grosso volume da poesia completa do Mekas. E queria contar duas coisas. A primeira diz o quanto Mekas se aproxima de Caetano no meu universo de realidade. Ele é daqueles autores que eu não consigo desviar o olhar, o ouvido. Até minha voz se cala pra ouvi-lo. O Mekas é capaz de captar o som constante do mundo, mesmo numa película muda. Sabemos exatamente qual o som existe por trás do seu acordeão, dos registros em off, dos dias que ele salta no diário, dos versos de palavra única. E essa chama a segunda coisa que gostaria de falar. Fui lendo os poemas, até cair num que dizia 

que
toute
ques-
tion
a
pour
réponse
le
silence,
silence —

incrédule
je
marche
en
silence,

touchant
en
vain

Fiquei atônito com esses versos. Que toda questão tem por resposta o silêncio. Que ando incrédulo em silêncio. Que ando incrédulo, em silêncio, tocando em vão. E me esfregando nas coisas. A questão é essa cisão entre o silêncio e a resposta que, justamente, não pode ser silenciosa. Talvez ela peça silêncio, como o segundo silêncio do poema. Mas para alguém que nunca viveu o silêncio, ou que tenha acreditado durante anos que o silêncio era justamente povoado por uma voz insistente, esses versos me parecem desafiar a lógica. E então recolho num outro momento o princípio-segredo do silêncio: “CE QUE LES LÈVRES ont caché / par leur silence / les mains l’ont trahi / par le toucher / la parole des fleurs”. [O QUE OS LÁBIOS esconderam / por seu silêncio/ as mãos o traíram / pelo toque / a fala das flores”]. Existe, assim, uma armadilha ao silêncio, uma rasteira dos sentidos para que uma fala (quase como a religião hegeliana das flores) se torne possível pelo tato. De que toque se aproximam as palavras? Dizer do tato das palavras não é apenas colocá-las numa espécie de ambivalência simbólica, mas assumir sua parte de real, de letra, de uma afetação no corpo que excede o puro reconhecimento, o que existe antes do traço. 

Outro dia, passei horas passeando com meu filho sob o sol quente. Ele de bicicleta nunca tinha visto uma miragem. Ele então me dizia: “pai, vou até lá, onde estão aquelas poças d’água”. Eu olhei para ele, incrédulo, de que um menino de oito anos agora não tivesse visto ainda uma ilusão de ótica dada pelo calor que toca o solo. Então expliquei a ele que o calor produzia aquela imagem e que não havia poça nenhuma. Ele não acreditou e pedalou muito rápida e fortemente até o lugar onde pretensamente estariam as águas. Quando chegava, elas estavam mais longe. Ele volta e me perguntam: “as águas se movem, é isso uma miragem?” Então o disse: “elas não existem, meu filho. É apenas um efeito de visão, seu olho vê, mas ela não está lá”. “Tipo fantasma, pai?” Águas fantasmas. Eu gostei da ideia para isso que é tão marcadamente a simplicidade da cena na simplicidade da linguagem. Ele tinha chegado a uma irredutibilidade do fantasma sem sabê-lo. Essa dimensão fantasística da vida é aquilo que os lábios escondem, isto é, a palavra é um colocar-se no limite entre aquilo que existe e algo que nunca estará ou esteve lá. É disso que fala a linguagem dos loucos, dessa liberdade de poder ouvir e estar em uma outra sociabilidade. Muitas vezes somos levados a crer que o limite da palavra parece ser o silêncio, mas eis que estamos diante de mais uma miragem. Quando Bataille resolveu escrever, com inúmeras dificuldades, sobre Blanchot, ele acabou dizendo: “ao falar daquele que fala do silêncio, só posso sentir, por minha vez, a atuação de uma dificuldade crescente”. Esse ato crescente, esse desdobramento infinito diante do impossível do silêncio é deparar-se com o que vai na direção de sua miragem.

(Minutos depois, ele pede para acelerar a bicicleta em direção da leve descida da Asa Norte. Ele pedala rápido e o perco de vista. Ele está há duas quadras de distância, quase dois quilômetros. Sigo a linha reta do Eixão fechado. Ele volta 5 minutos depois, com os olhos cheios de lágrima. “Eu me perdi de você, não conseguia mais te ver”. Eu virei uma miragem para ele em alguns segundos). 

Então, a questão de Mekas, o que ela retém? Ela se parte, nesse lugar em que o silêncio encontra todos os espectros. A emergência de uma voz depende da entrada na linguagem, ali onde ela se coloca como objeto da angústia. Mas ainda assim, alguns têm vozes intermináveis que dizem quase nada. Vozes deliradas que dizem outra coisa, como se fossem apenas constatações de que a poeira está sobre todas as coisas, como diz um dos letreiros de Walden. Essa poeira acumulando-se em cada parte da memória, das minhas ações, do mundo circundante, exige um trabalho louco para que a loucura não seja todo o resto. Esse trabalho nasce quando deixo de ouvir minhas dores, deixo que as respostas ganhem em silêncio, ou quando mesmo ainda é inverno, mas o vento está cheio de primavera. Nem sempre funciona. Tenho que manter minha atenção redobrada para não me deixar, como meu filho, me levar pela miragem. 

Muitas vezes, leio para escutar essa voz de modo mais concentrado, como narradora. Muitas outras, escrevo e ela segue o ritmo. Mas a maior parte das vezes, ela só me interrompe mesmo. Para escrever esse texto, por exemplo, fiquei ouvindo Cindy Lee, Diamond Jubilee (álbum que exigiria um texto só pra ele). A música é a única solução eficaz para que, paradoxalmente, eu tenha um mínimo de silêncio dentro de mim. 


Descubra mais sobre pierœyben

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário