Derrida ainda

Não há senão uma imagem fantasma no meio da biblioteca. O olho de ciclope, sempre aberto à esquerda. As formigas dos sonhos. Um sono até a próxima vigília, ali onde surgirá a democracia, talvez um dia. Não há senão aquele que teve de aprender quem era pelo insulto, o dizer do outro que o dizia muito árabe para ser europeu, demasiadamente judeu para ter a nacionalidade francesa, produto colonial, logo, incômodo aos olhos do norte. Uma vida que só pode se escrever numa aliança diante do outro. “Sim, sim”, diz a primeira fala. Anterior até mesmo ao “eis-me aqui”, ao “você primeiro”. Quando ele diz “eu”, apenas em sua língua, que ele nos ensinou a dizê-la sem língua, ele o diz de forma oblíqua, idiomática, e já não há ele senão nesse trato, pacto de não saber onde começa a origem. Algo como uma borda desaparece, permanece desaparecendo. Resto, resíduo. Os textos do passado parecem sempre ter chegado (a eles mesmos) muito tarde. Algo atrasa sua vinda. Às vezes a polícia de fronteira bloqueia o caminho, o acusa de tráfico internacional de drogas, e desse ato, a hospitalidade. Nada senão um eu vivente autoimune. Defesa contra o outro em si, dentro de si. Acolher significa também isso: saber da destruição, da impossível dádiva. A quem dirigir esse texto, hoje? A quem vinte anos depois? A quem senão a ti?

Derrida morreu nesse dia 9 de outubro, há vinte anos. E eu dirigiria a ele a mesma pergunta de Sócrates – a quem senão a ti? – para colocar em questão a justiça. À diferença de forças que compõe o vivente, Derrida sabia montar a cena para não a fazer soar “em cena”. Ele não parecia apenas acreditar nas palavras, mas em sua difração. Diante do obstáculo – a língua, a cultura, a religião, a história – a palavra a contorna, e se espalha entre tornos, turnos, torres, voltas, rodeios, até encontrar sua abertura. Essa, sempre espectral, porque algo resta nesses obstáculos, e retorna, se repete, iteração de vozes, de semi-presenças elidindo-se. Qual contorno esse de sustentar uma pergunta acerca do quem da fala, da escrita? O que ele acabou por chamar desconstrução não senão justamente isso: nunca tratar como natural o construído, ou seja, nunca a presença do um como ordenamento do mundo. E muitas coisas no mundo existem, mesmo em sua aparente presença, apenas como memória. E duplamente. Memória de um esquecimento, daquilo que passamos a lembrar por ter sido lançado no apagamento, no olvido da passividade histórica. E esquecimento de uma memória, ou seja, de também fazer da edição produzida por todo esquecimento um modo de imprimir uma memória, que não seja a posta, mas a que sempre já insiste em ressurgir como condição de existência.

Se a filosofia sempre foi um aprender a morrer, Derrida convocou em cada gesto, mesmo os mais extremos, a necessidade de aprender e ensinar a viver, lá no fim, como consequência última da experiência com a morte. Pensar uma desaparição, um anulamento é colocar em questão justamente o assombro de um possível testamento, de um arquivo que fundamenta, mas talvez e também ultrapassará seu corpo. A transmissão e a sobrevida assombram tanto quanto a morte a própria filosofia. Herdar e ter de herdar opera como uma escolha apenas em seu ato ativo de reinterpretação, manutenção da vida e, no entanto, essa reafirmação nunca pode ser escolhida, porque dada, oferta para além de qualquer decisão diante do signatário de qualquer que seja o texto. E não é isso mesmo um texto, algo que já, por ser escrito, se cortou de quem o assina, o assinaria? Herdar tem a ver com isso: fazer que o texto volte a sua posição de acontecimento, numa nova enunciação que o fará se reaver com suas cegueiras, resistências e temporalidades. O que sobrevive à provação da história? Como um texto pode se reconverter em acontecer senão pela amizade a ele dispensada?

Há um modo de compreender o que Derrida construiu de modo bastante simples. Em sua casa da infância, há um ladrilho mal colocado. Os ângulos diferem da ordem do todo. É um ladrilho por onde ele passa todos os dias, até os dezenove anos. Ele afirma claramente que o ladrilho não produz nada de absolutamente extraordinário, ao contrário, trata-se do mais comum elemento de seu cotidiano. Em 1999, Safaa Fathy foi até essa casa, que já não pertencia à família Derrida há muitos anos. E ela filma esse ladrilho, que permanece lá, sobrevivendo a ele, impassivelmente. A história dessa peça cerâmica fala de toda história e toda estória daquele que é ainda Derrida: alguém que sabe manter a vida além da morte. Guardar-se não da morte, não da vida, mas guardar-se para que o mundo possa ser sustentado quando ele estiver caindo. O pequeno ladrilho é o detalhe a ser lido, o cotidiano que não embota o Dasein, a angústia que parece silenciosa, mas que faz seu trabalho contra qualquer narcisismo.

Outro dos dados a abrir um friso na compreensão seria seu nome. Não apenas o nome que ele acabou por galicizar, trocando o Jackie (marca de classe, sem dúvida, marca do cinema, sem dúvida) pelo Jacques. Mas o nome não escrito ali onde deveria constar. Seu segundo nome, marcadamente hebraico, Elias. E se, como ele o dizia, o que permanece no instante da morte é justamente o nome, o nome próprio, o que fazer desse nome que lhe foi tão propriamente impróprio? Fazer remontar ao messianismo sem inscrição, essa marca rasurada do que deveria estar ali. Há nisso uma espécie de reconciliação diante da genealogia não originária, diante de uma genealogia que fala de apagamentos, saturações, heranças tradutórias sobre o que pode querer dizer viver a estrutura reiterada das diferenças. Assim, nomear, como escrever, implica sempre ter um nome oculto que, no entanto, nos sobreviverá e marcará esse ponto, dos mais impossíveis, em que a morte se consolida. Assim, todo nome é memória, e memória é um nome, como diz Derrida, que “mantém uma relação essencial e necessária com a possibilidade do nome, e do que no nome assegura a manutenção. Não a manutenção enquanto ela conserva ou mantém a coisa nomeada: acabamos de lembrar ao contrário que a morte revela toda a força do nome na medida mesma em que este continua a nomear, ou ainda, chamar o que se chama o portador do nome e que não pode mais responder a seu nome ou responder por seu nome”.

Derrida, esse nome se diz, desde muito, desde sempre, em memória de. Espécie de pressentimento longínquo do outro, seu nome retorna a esse ponto mesmo: todo nome, sendo em memória de, é um nome de um morto. Garantia da mortalidade, o nome é também a marca de uma intraduzibilidade. O que Derrida viu foi sem dúvida as alianças entre a vida, a morte. Essas formam as condições econômicas do que fazemos aqui, hoje, agora. Essas alianças produzem códigos e escrevem o que chamamos, por exemplo, mundo. Se a desconstrução pretendeu alguma coisa, foi justamente de poder fazer algo que sobrevivesse a essa dimensão demasiadamente econômica da aliança. Não basta, no gesto desconstrutor, o arco-íris de YHWH para garantir a Noé a aliança renovada. Não basta a mão do anjo, que impede o ato de Abraão. Não basta garantir pela constituição direitos. A desconstrução existe como justiça, como algo que não pode ser simplesmente mensurado pela economia das condicionantes. Por isso sua luta é na sobrevida, naquilo que é incalculável e prenhe de interrupções, irrupções, circunvoluções. 

O impossível entra em cena aqui, não apenas como conceito difícil de ser apropriado. O impossível é o que pode fazer parar a lógica sacrificial da antropologia econômica. Há sempre um possível que segue nosso espectro de vida. Saber ser possível, por exemplo, garantir direitos. No entanto, lutar pelo impossível é deixar ao outro sua alteridade, sair da compreensão totalitária, recusando-a, refutando um si absoluto pelo respeito ao infinito do outro, a sua distância irremediável.

Se me lembro dele hoje, 20 anos depois, é também porque devo me lembrar de mim. De alguma forma a desconstrução é um modo de viver. Não há ladrilho na minha infância, mas uma parede mofada, esverdeada. Os microrganismos se proliferando ali, nas minhas costas. Como Derrida, os pisos de taco, o fato de pisar num chão de madeira, também significaram para mim, num primeiro momento, o contato com a Europa. Para ele, quando parte rumo à metrópole (como ele insiste em chamar o país colonizador). Para mim, o apartamento da minha avó. O piso que não podia arranhar com a areia da praia. Aprendi muito cedo o que significa herdar um nome daquelas bandas. Há muitas outras consonâncias, que aqui ou ali já me referi. Mas o que realmente ressurge nesses momentos de comemoração, de lembrarmos juntos, é saber que não há um ponto limítrofe onde a graça não toque pela existência desses textos.


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