O coração do pai: considerações sobre a angústia

O corpo é mesmo uma matéria crua, e, entretecido dum fogo, torna-se o que se vive como o corpo escrito. Foi Freud o primeiro a apontar a pulsão como um conceito-limite entre a alma e o corpo, entre o psíquico e o somático. E, a partir dos mitos Bororo, Lévi-Strauss apontou a passagem do animal ao ser culturado como uma dinâmica de apropriação do fogo. A questão toda reside nessa palavra: passagem, ou mais especificamente numa ação dessa palavra, estar de passagem. Ora, por mais que a ideia mesma de natureza tenha sido pensada como fonte da continuidade, não é possível compreendê-la ou mesmo vivenciá-la sem a descontinuidade do cozimento. Assim, o corpo cru somente se acede queimando-se numa cisão que nos amarra e desata. O corpo como matéria crua se inscreve negativamente. E, portanto, não se pode saber quando o ponto passou sem que já se tenha passado. É pagar com o passado o que será o porvir. 

Essa manhã fui tomado dessa crueza. Por mais que me dedique há anos ao cuidado de si, ao trabalho sobre minha escrita, ao processo analítico como mundo em que se decide o que sofrer, nenhuma garantia fica estável sob todas as pressões existentes. Pressões que vêm de fora e de dentro, se considerarmos nossos corpos como um certo limite; pressões de todo lado se pudermos compreender o corpo como um diferimento da esfera política, da nossa sobrevida na sociedade, de tudo o que em nós faz elo e devir. Saber disso parece aliviar nossa carga pré-consciente, mas não impede a fome pulsional. O fato é que tive uma crise de ansiedade saindo de uma consulta médica. Bom, crise de ansiedade é justamente o jargão médico para algo que me é constitutivo: a angústia produtora, causa do desejo. Não é que me sinta paralisado, aliás como bem disse Lacan, não se trata disso. A “angústia aparece antes do desejo”, é uma das máximas mais fundamentais de seu ensino. Algo falta, constitui-se o sujeito, e a angústia é justo a falta dessa falta, a invasão do desejo. 

Ao sair de um cardiologista, exames aparentemente normais, sou tomado por uma insistência pulsional, que é contrária ao princípio de prazer, e que me exige o algo a mais. A angústia é justamente essa exigência do campo das pulsões, que não para de se acumular, expandir, e que coloca em aflição sofrente o eu. Freud a havia definido como uma perturbação econômica da energia libidinal que não foi utilizada. Trata-se de um excedente (der Überschuss) que coloca em perigo o lugar do desejo no campo simbólico. Dito de um modo talvez mais enigmático, mas sem dúvida mais preciso e condensado: a angústia surge quando a falta falta, quando ela não é suficiente, quando ela chega a falta, isto é, quando há objetos e excesso de objetos. Para dizer o fato: fui ao médico, como sempre vou em meu gozo sintomático em saber a Verdade da medicina orgânica, e nesse excesso algo faltou de faltar. Mas ainda isso não é todo o fato, já que nada chega assim “do nada”, antes vai ao nada dum desejo numa cadeia que se infinitiza para manter ativa a angústia. Lacan inventou um modo de ler a angústia a partir dessa interrelação entre o nada metonímico, uma cadeia que não significa, mas que segue se escrevendo para nada escrever, e o arranjo do objeto, essa dimensão simbólica da fantasia. Quando ele consegue delimitar o desejo não como necessidade, nem demanda, mas que se constrói a partir dessa passagem pela angústia, nos torna possível compreender o desejo como desejo de nada, que difere da esfera imaginária do desejo fascinado do objeto. 

Mas o que isso quer dizer, para fora do lacanismo (mas também dentro dele)? Nossos objetos de desejo estão em relações de diferença que se constituem tanto de um ponto de vista aparente, simbólico, cheio de significações, quanto dum ponto real, destituído de sentido. Assim, há, de um lado, o objeto visado, considerado precioso por nós, convocado, por exemplo, na figura do apaixonado, do amor; e, de outro, o objeto que é a causa do desejo, que é ele mesmo um dejeto, resto, irrepresentável à ideia. Isso resiste à superfície de objeto — e é, em linhas gerais, o objeto por excelência, o objeto a, que Lacan inventou. A angústia o coloca então numa dupla hélice: o objeto a aparece como real ao mesmo tempo em que se faz numa elaboração significante. Não há separação disso, que roda entre a fascinação e o nada na angústia.

Desde o ano passado, tenho tido dores no peito, do lado esquerdo, com uma irradiação para o braço. Fui a uma médica generalista quando estava morando na França. Ela me examinou muito cuidadosamente. Ouviu meu coração. E começou a me fazer perguntas pessoais. Perguntas que queriam saber de algo que ela não poderia ver no meu corpo, mesmo estando seminu diante dela. Disse o normal da minha vida, que não é fácil etc. Ela não ficou contente, começou uma anamnese médica até o nascimento do meu filho/morte do meu pai. Aí ela faz um gesto, com uma pequena almofada que cabe justamente entre o meu peito e meu braço esquerdo, como se eu estivesse ninando o meu filho bebê. A almofada tinha, no meu imaginário dessa consulta, o peso exato do corpinho dele sobre mim há sete anos. O peso da alegria estava oprimido pelo peso da morte. Eu tinha que carregar o recém-nascido e o recém-morto do mesmo lado esquerdo do corpo. Então ela pegou meu tronco, pediu para que eu estendesse o braço esquerdo na parede do seu consultório, e pressionou minhas costas contra a porta. Disse que eu falasse com meu filho sobre isso. Me prescreveu um cardiologista, fisioterapia e um ansiolítico de emergência. Essa tinha sido a última vez que fui a um consultório médico até hoje, já que não procurei de imediato os auxílios outros que ela havia me prescrito. 

Hoje, acordo cedo e vou finalmente ao cardiologista. Ele foi o médico que cuidou do meu pai até sua morte. Seu nome aparece frequentemente nas conversas de família. Trata-se de uma clínica do coração, grande, cheia de espaços de exames. Entro no consultório, vejo que ele tem uma vista muito bonita da cidade, direto para o lago. Noto também que, à parte o bigode, ele é quase como eu o tinha imaginado. Esse pensamento me invade porque nunca antes o tinha visto. Meu pai era um desses cardíacos que cedo começam a falhar. Esse homem existe na minha família há décadas e, mesmo acompanhando meu pai no hospital, eu nunca tinha visto esse senhor. Ele começa pela anamnese, evidentemente. Ele já não lembra que meu pai foi seu paciente. Ele pergunta quando ele morreu. Eu respondo. Ele diz muito baixo: “ah… por isso… faz muito tempo”. Então me pergunta doenças, condições, família paterna. Eu não posso responder pela família. Era ele e sua mãe apenas. Quando o médico diz minha idade, eu respondo quase sem pensar que eu estava ali porque o primeiro infarto do meu pai foi nessa idade. Ele completa, depois de diversas descontinuidades, que ele foi embora cedo demais (se comparado à sua mãe). Ele me pede para me deitar na cama de exames e começam os mesmos gestos habituais de tantos médicos. Ele diz que o coração está com batimentos normais, com uma breve oscilação entre 12/8 e 13/9. Eu não digo nada, mas me assusto, já que sempre tive na vida pressão muito baixa; o que faz com que a normal seja alta. Ele insiste em saber de outras doenças além das que listei. Digo: “ah… esqueci a depressão”. Ele não ouve. Acho que falei muito baixo, como ele tinha falado sobre o tempo da morte do meu pai. Repito: “tive uma depressão muito severa entre os anos de 2016-2017”. Ele anota no prontuário. O seu olhar muda. Ele passa a tentar olhar algo que ele não tinha lido antes. Me prescreve exames, nos cumprimentamos e saio. 

No corredor, esperando para marcar os pedidos médicos, escrevo para Camille. Digo que devo fazer mil exames, mas está tudo aparentemente normal. Então, ela pergunta o porquê desses exames. Eu respondo “porque ainda estou com dor no peito, estou com tonturas, meu pai tinha doença cardíaca, minha vista mudou de grau, tenho a síndrome de vasoconstrição, tenho ansiedade generalizada etc.”. Marco os exames. O celular não tem sinal de internet até que saia do prédio. Desço nove andares. Quando chego no carro, releio a mensagem quase sem querer. E a frase “mon père était malade du cœur” não se traduziu para mim como “doença cardíaca”, mas como “ele era doente do coração”. Eu saía do meu objeto visado, o discurso médico, que poderia ter me feito dizer até mesmo “coronopatia”, com o atravessamento desse discurso que escapou na tradução entre a língua do amor e também a língua da paternidade (meu pai tinha por língua materna justamente o francês), que desmantelava o lugar desse objeto, reduzindo-o a uma aparição falsificada do que realmente estava em jogo. Essa frase é também a única em que o sujeito não é a primeira pessoa. Isso aponta não apenas para sua diferença, mas para como eu havia deixado o eu excluído do que fui buscar, ou seja, compreender uma possível cardiopatia minha e não do meu pai. 

Mas isso não se deu assim, explicado, interpretado, com um efeito de só-depois. O que me ocorreu foi que comecei a chorar. Sem palavras. Sem frase. O sol forte, queima tudo. Só uma coisa passa na minha cabeça: “você não pode voltar pra casa”. Estaciono o carro. Ligo para Camille. Durante alguns minutos, até essa ligação, só existe o horror de estar diante dessa angústia. Tento respirar, o coração não dói mais. 

Quando finalmente consigo chegar em casa, me deito e durmo por quase três horas. Acordo com uma ligação. Mas também, ao lado, está o texto de Freud que estava relendo para preparar meu próximo curso. A ideia de que um Eu possa ser cindido e conter algo inconsciente. Uma página está marcada com um lápis que deixei dentro do livro. Abro e leio “conflito entre um Eu coeso e um recalcado que dele se cindiu”. Não tenho tempo de recomeçar a leitura. Será mais tarde. Percebo como esse texto me ajudou hoje a compreender a cadeia dessa angústia. Na sexta-feira passada, meu filho se machucou bem perto do olho esquerdo, brincando com o primo. Vamos ao hospital. Horas e horas de espera. Começo a passar mal por lá. A ala pediátrica foi alterada, o corredor que nos leva até lá era o antigo corredor que levava à UTI. Meu pai morreu nesse hospital. E a última vez que tinha estado nesse corredor foi saindo do reconhecimento do seu corpo e sendo assediado pela funerária que me esperava fora da sala, já sabendo que, meu pai sendo funcionário público poderia ter um enterro “digno” (leia-se caro). Tentei me concentrar na sexta sobre a ferida do meu filho. A gentileza por fim do médico. A alegria do Heitor ao sair sem pontos. Compramos batatas fritas e voltamos para casa assistir o último episódio da Ahsoka. Ele, depois de comer, deitou-se sobre meu peito com uma alegria indescritível. 

Ontem eu tinha lido quase inteiro e de uma só vez “O segredo de Joe Gould”, do Joseph Mitchell. Esse homem meio mítico das ruas de Nova York. Mitchell nunca mais publicou nada depois disso. E o manuscrito da História oral do nosso tempo me dá ânsias de me lançar numa busca impossível. Não há reconstrução possível desse objeto. Ele está para sempre perdido. Só vou dormir quando já não consigo mais manter os olhos abertos, mas sem nenhuma vontade de abandonar o livro. 

Sábado passado, durante um cartel que participo sobre dor e adoecimento, estávamos justamente falando com o texto sobre a questão das cronologias, das datas de fatos que se elaboram psiquicamente. Resolvo intervir com um exemplo da biografia de Derrida. E digo que ele morreu aos 67 anos, como seu pai e da mesma doença. Cinco segundos depois reconheço meu lapso. Derrida morreu aos 74 anos, como seu pai. Não preciso nem dizer quem morreu aos 67, não é mesmo?

O Outro é um lugar de aparições. Como algo me aparece tem a ver com esse discurso do Outro. Na lógica da fantasia lacaniana, ao lado do Outro está o objeto a. Essa posição se inverte na perversão (na versão do pai, na “père-version”) e o objeto a fica do lado do sujeito, invisibilizado para ele. Essa é a posição da angústia de certo modo. 

Quando olhamos um eletrocardiograma, estamos diante de uma possibilidade que um médico diga: “veja, não há nenhuma alteração”. Isso implica dizer que há uma certa frequência compassada, que a “normalidade” é um conjunto de ondas inscritas no papel para dizer de certo ritmo, disso que é parte mesmo do coração. Tudo o que flui, que se movimenta de modo regular, o ῥυθμός grego é também, aqui, aquilo que, por impulsos elétricos, consegue se escrever. Para o médico, os exames serão por certo conclusivos de uma história que começou quando entrei nos seu consultório hoje de manhã. Não aparecerá nos exames que farei nos próximos dias essa angústia que senti saindo de lá. Nada será escrito sobre isso nos aparelhos, nos códigos e nos registros. Ora, o que não se inscreve vem como “sinal do real”, a angústia, ela, está antes de qualquer exame. A minha pergunta fica aqui sobre a carga intersubjetiva de um órgão. Como um órgão se subjetiva? Algo se separa de mim, e assume no exterior função de causa. E dessa só a angústia dá conta, faz sinal. Sendo causa não está na representação, não chegará a simbolizar nada, nenhuma das minhas “intermitências do coração” estarão ali, ou seja, meu amor por Proust faria de meu coração um órgão que pode falhar?

O coração é o lugar de certa condensação da memória, ele é um músculo que registra. Derrida escreveu aquele poema-filosófico sobre a poesia tentando colocar o coração numa expressão idiomática: “apprendre par cœur”, aprender de cor. Para isso, convoca a condensação da memória, mas também a anatomia actancial dum ouriço, que se protege do mundo exterior com seus espinhos para fora. O ouriço se eriça e faz de sua fragilidade sua forma de sobreviver na autoestrada. Como o poema, o coração tem apenas duas palavras, é breve, elíptico. Não por aquilo que está nas ondas dum exame de cinco minutos que meça meus impulsos elétricos, mas por esse limite em que meu corpo é tanto o receptáculo biológico de cargas genéticas e epigenéticas, mas também e sobretudo da duração infinita de Marcel Proust, do amontoado de palavras que formam tudo o que leio e releio, da possibilidade de que eu faça um nó mesmo ali onde há uma clara holófrase do nome do pai. Nessa indistinção excluída do sujeito, tenho que lidar com o cru de ao menos duas maneiras. Por um lado, meu corpo envelhece, ganha temporalidade e, portanto, se oxida, começa a se cansar, se rende um pouco à genética, ou seja, ele é sua natureza biológica esquentada pelo fogo consumidor das pulsões. Por outro, meu corpo toma o cru como o que flui, corre e pulsa como forma de uma distinção entre eu e outro, ali onde cabe em mim minha voz e uma outra, meu eu e meus personagens, a escrita e a escrita. Exposto à morte, à mortalidade, esse corpo cru é cruelmente uma instância de si, ele tenta sobreviver para além dele. O tempo chega e ele não é nada cronológico.

Então se o músculo cardíaco registra, ele registra algo para além do impulso. Ele fala de uma herança que ninguém pede para ter. O coração faz pulsar algo assim como a escrita pulsa e é tomada de pulsão. Assim, ir ao cardiologista não é apenas buscar compreender uma possível patologia, é escrever o coração do pai, falar de herança. Talvez seja uma abertura ao impasse de reconhecer dificilmente — tenho na raiz da minha vida Joyce dizendo que é preciso inventar um outro pai — que o papel do pai é o papel do mito. Se ele se assume nessa posição até que ponto ele não está na causa e, portanto, até que ponto ele não poderia ser representado. A ideia de que um pai seja um “representante legal” coloca em questão seu lugar mesmo de causa. Ele pode assumir esse lugar simbólico, sem dúvida. Mas é sua foraclusão que indica, ao mesmo tempo, uma causa no real. Se tento infinitamente inventar esse pai morto, é porque, no meu coração não está inscrita a memória de uma família que não se conta, que não se demonstra, que não aparece. Tenho que inventar uma família porque a minha não tem memória e, logo, ela não se inscreveu ali em cada pulsação. 

Meu coração falha não em seus impulsos elétricos, mas nessa obrigatoriedade de invenção. Sou obrigado a escrever, o que complica meu desejo de escrever. Devo escrever e não quero escrever. É como se estivesse de passagem, foi o que disse antes. Mas não apenas de passagem mas estou “de passagem comprada”. Em cada lugar que estou, estou de passagem comprada. Nunca estável. Esse deslizamento entre o que atravessa, se passa, produz passagem, e a própria ideia de ter de partir faz da angústia o único lugar do coração do pai, que tenho, em dobro, do meu pai e do pai que me tornei. É aqui que a palavra acaba. E quero acreditar em Barthes que me diz ao pé do ouvido, de memória: “A escrita chega muito exatamente no momento em que a palavra cessa”. Paga-se o bilhete, paga-se o passado disso que chega. Então continuo, apesar de.


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