Na maior parte do tempo, os olhos de certos poetas permanecem no escuro. São sombras do tempo presente. Nada pode dar sentido a eles. Muitas vezes esse olhar é marcado no senso comum por uma melancolia. Outros, como cegos (Homero, Borges, Cabral, Creeley, Harrison, Glauco e tantos outros). De certo modo, poetas estão categorizados por um sinal que transportaria sua marca “especial” a um modo de dizer o impossível. Mas isso não passa de uma facilitação do que de fato há nos olhos de certos poetas. Não falo todos os poetas. Passei essa manhã olhando fotografias de poetas suicidas. Esses olhos não são em si cegos ou melancólicos, eles pré-veem um lugar mutilado de seus sentidos. É como se os olhos também escrevessem até o limite de seus órgãos silenciados.
Muitos/as desses/as poetas tiveram seus livros e textos lidos em vida, foram apreciados/as, foram considerados/as faróis de uma geração. Suas palavras circulavam e, com isso, poderíamos supor falsamente que havia uma comunicação entre esses textos e o conjunto de leitores. Psiquicamente, então, eles teriam tido um sucesso de sua simbolização, no entanto, não é isso que ocorre. No mais das vezes, a gente esquece que a pulsão de morte é uma mestra sobre o corpo e que, mesmo com a descrença e o descrédito que muitos atribuem a ela, é ela quem conduz a vida do ser falante. A pulsão exige até o fim; sem fim, ela quer tudo, a tudo demanda. A fantasia é um caminho — muitas vezes essa fantasia está ao lado da morte, evidentemente. No entanto, esse caminho não pode ser um imperativo contra a pulsão de morte. A gente sai perdendo se dependermos disso. Aprender a lidar com ela, mesmo com olhos perdidos, é não esquecer o que nos rodeia, não apagar o que nos excede. Fingir que essa pulsão não está aí não faz com que ela desapareça, não impede que o silêncio se propague e diga a sua lei imperativa. No fundo, e talvez isso também esteja nos olhos, calar o ser falante até o ponto de ele ser apagado é a forma das mais efetivas de suicidar o outro — isso está em cada tratado sobre o suicídio, dito de maneira desajeitada e que estou tentando desenrolar no livro que escrevo há tanto tempo! Ninguém morre sozinho, ao menos não numa morte autoinflingida. Isso parece paradoxal, mas não é o si que se mata, quem se mata é o eu solidificado por uma imagem desse si, dessa terceira pessoa, conhecida por consciência.
Certa vez analisei, num dos meus seminários, o vídeo de Anne Sexton lendo “Wanting to die”. A análise era sobre justamente seu olhar, sua performance que infectava de ironia a cena. “Como carpinteiros”, ela dizia sobre os suicidas; e ela ali dizendo: vocês não estão vendo? Sobrepus então o olhar da Bruna Mitrano, lendo no documentário que fez o Alberto Pucheu sobre ela, em que ela performa da mesma forma um poema dela que é dos meus favoritos, das peças redentoras da violência contra um corpo. A sobreposição era minha contradição, que dizia, ao mesmo tempo: quantas vezes essa poeta se matou, escrevendo, para sobreviver. Tinha uma esperança nisso. Eu já não sei se ela existe ainda. Toda a questão então reside no fato de que um olhar pode destruir e construir uma significação, sobretudo quando ele nos olha. Esses olhos das fotografias estão permanentemente nos olhos depois de uma passagem ao ato — e, por isso, seu sentido é póstumo — e isso reescreve a história de cada palavra, cada desejo, cada interrupção. No poema de Anne Sexton, ela espera uma pergunta, ela sabe da linguagem do suicídio — “special language” que sabe qual ferramenta usar por ter sido tomada pelo inimigo. Não há por quês, não há porquês.
Derrida, em “Memórias de cego”, se demora um pouco sobre a ideia do autorretrato em que ele percebe sempre um olho apagado, “cego” ao pintor que decide pintar a si mesmo. É um efeito da arte, claro. Temos que ver o olho ali, mesmo que seja apenas um borrão. Essa mancha conota o espaço entre o olhar do pintor e sua tela quando esse se coloca diante de si mesmo para pintar. É uma sombra para o que ele vê, mas que deve tornar invisível. No entanto, o invisível dali constrói o seu argumento, e me parece interessante para pensar os olhos de certos poetas, daqueles que se mataram. Há um esvaecimento no cansaço dessas fotografias. Com isso não quero dizer de estados de saúde, de patologias do suicídio. Não, é uma foto que consegue captar um sem sentido. Uma longuíssima exposição desses olhares torna aparente o que virá: um poema por um corpo. O que está cego nessa equação? Ora, a própria sombra. Sombra posta ali — e nesse sentido os fotógrafos são suicidários também — por todo um conjunto de efeitos que operam do trauma à linguagem, ou melhor, do trauma que interrompe a linguagem. Esses poetas, que olham assim para o futuro, tentaram uma linguagem, ali onde ela não poderia dar-lhes mais do que um buraco real. Eles, os indivíduos que eles são antes de serem poetas, teriam se matado se não escrevessem? Essa é uma pergunta tola, mas tem a validade de se questionar sobre os reais efeitos “curativos” da comunicação, da publicação, da remissão e do endereçamento aos outros. Por que colocaria isso em discussão? Porque há sempre uma violência do outro que vem da linguagem, dos gestos, da história; e talvez corpos suicidas não queiram senão responder a essa violência. Fazer elo, manter-se ocupado, manter-se produtivo, ter em mente outros sentidos, duvidar, tornar a vida mais ambígua. Todas essas são tentativas de dizer que você pode não se matar. Para mim, só um é efetivo, e que não garante nada: cuidado e acolhimento. Um só porque sem que estejam em conjunto não valem de nada. Cuidar do outro, acolhê-lo — “acolhido na anarquia”, diria Derrida — para além da capacidade do eu. Talvez seja sobre-humana essa capacidade, mas é dela que precisamos. A isso, uma só possibilidade se apresenta: tornar-se íntimo, formar o que há de intimidade para além dos narcisismos, das preservações, das seguranças, dos imperativos da “resiliência”.
Num texto publicado na revista/blog enfermaria6, Victor Heringer escreve um método alegre sobre a escrita: “quando eu morrer, se alguém perguntar, diga que eu era alegre escrevendo. Sou feliz escrevendo, assim como só sou feliz em viagem, em trânsito. Deslocável.” Isso depois de dizer suas “influências” com Machado de Assis (que lhe dá, justamente, os olhos!) e Manuel Bandeira (a ternura). O que significa essa alegria que antecede o salto? Eu levo a sério o que está escrito aqui. Não há que patologizar a situação. O deslocamento faz dele um ser feliz. Deslocar-se pela escrita, em viagem. Mesmo que muitas metáforas tenham sido colocadas entre escrever e viajar, é uma impossibilidade fazer os dois ao mesmo tempo. Estar em trânsito metaforicamente é uma coisa, estar de fato em trânsito (num metrô, num trem, num avião, num ônibus) impede pegar o lápis, o computador. Não podemos esquecer que carregamos malas, que devemos estar no horário diante da porte de embarque, do trem que vai partir. Muitas metáforas são construídas com o apagamento do outro. Não foi assim sempre? Quando um escritor descreve seu lugar de trabalho, o que ele esquece em geral? Que entre uma palavra e outra, ele sentiu uma dor muscular, que hoje o sol está menos quente e a brisa sopra o outono, que teve de tomar água, que alguém limpou a casa, que o seu filho precisa ir ao parque, que é preciso cuidar dos que você ama, que o programa que você usa para escrever no computador marca todas as palavras desconhecidas ou com erros ortográficos. Essa é a ternura, o acolhimento, o cuidado: fazer com que essas metáforas não se reproduzam, interromper o massacre por uma vida “literária”. Victor Heringer percebeu isso, olhou para isso de muito perto. Então o que isso implica é dizer que o direito à morte deve ser restituído a quem ele pertence, e não à soberania da consciência de si. Um direito à morte é o ponto em que, numa só guinada, ganhamos o direito à vida.
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Palavras lancinantes, escrita sublime!
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