tem mais de um ano que confundo as línguas — as nossas numa casa ou na cidade de onde você habitasse por mais bela a seus olhos aquele mar colado um museu que se estende ao mesmo mar como uma teia de pedra ou aço sobre um cais uma torre e um farol — na sua língua se diz /mɑːrˈseɪ/ e me engana o português que ao dizer marselha não diz senão em occitano por escrito marselha /maʀˈsejɔ/ que se diga diverso o lh algo que soa gn na sua fonografia isso porque temos falado muito do tempo passado e como ele passa difuso nessas tardes de haver dois outubros nessa terra — em que somos desterrados (disse uma vez um certo brasileiro para dizer do que tem raiz casa de pau a pique cruzando a fronteira do chão) — e ainda agora ça prend trop de temps pour que ça cuisine les haricots — eu não fazia senão ler um poema do cabral sobre habitar uma língua e me lembrei quase de imediato de uma cena estranha — já sonhei com essa cena também dias depois de ela ter ocorrido na vida real naquela que chamamos de real — certa vez falei num colóquio sobre a angústia do contemporâneo analisando o golpe de 2016 e encadeando uma análise de de l’origine du xxième siècle do godard que era projetado no modo mudo enquanto eu falava as ideias precisavam ganhar o ritmo do filme mesmo que eu me impusesse a filosofia junto com um verso que não traduzi es ist so tiefe nacht um mich da ingeborg bachmann — com você por perto lembro sempre da ingeborg bachmann — então quando terminou a fala uma colega francesa veio até mim delicadamente elogiou o que ouviu mas disse também tu ne peux pas faire ça avec l’audience eu perguntei o que queria dizer ça ela disse apenas on reparlera pendant le repas não falamos quer dizer falamos de outras coisas — às vezes também aparece a marianne moore hands that can grasp eyes that can dilate hair that can rise if it must e me espanto porque o inglês não é uma língua que conversamos mas é aquela em que você canta e que logo soube mais de você do que você de mim ouvindo o seu repertório sua voz modulando meu sotaque e aí hoje esse poema do cabral me colocou diante de você e da luz de marseille que vimos nos corpos que passavam à frente seu rosé minha cerveja e a língua tornando-se íntima o j que eu digo jota o j que você diz gi e isso era um nome e logo pele passo apelo enquanto esperávamos a subida da maré do tempo onde morar
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