Seminário: Mal de escrita – ruínas do suicídio e da poesia
Como uma disciplina em dupla oferta, graduação (Literatura Estrangeira em Língua Vernácula) e pós-graduação (Linguagem Literária e Questões de Responsabilidade), na Universidade de Brasília, o seminário Mal de escrita – ruínas do suicídio e da poesia, ocorrerá todas as segundas-feiras, das 14h às 17h40, no período equivalente ao 1º/2020, quando resolvidas as questões de retomada pós-pandêmica.
Ementa e Argumento
Para dar conta de uma dupla injunção que relacione suicídio e poesia o primeiro passo que posso propor é estancar uma possibilidade fenomenológica do suicídio. Dito de outro modo, não é possível, ou somente é possível compreendê-lo dentro de um conjunto de condições que o torna potencialmente executável. O modo de existência do suicídio, assim, e essa será talvez a tese maior que pretendo sustentar durante essas sessões, não se dá estancado de uma certa compreensão da escrita, ou melhor, do mal de escrita. O presente seminário, inscrito sob o projeto de pesquisa Dever escrever, propõe discutir as relações entre escrita, corpo e suicídio a partir da leitura de poetas que chegaram ao ato. A dimensão hipotética a ser tomada em consideração durante o semestre será a de rediscutir o suicídio não de um ponto de vista patológico, mas de uma dicção que se apresenta na inseparabilidade entre escrita e corpo, discutindo as formas de responsabilidade assumidas na linguagem poética diante da própria vida-morte. Nesse sentido, partiremos de uma desconstrução das especulações acerca do suicídio (desde Durkheim a Camus) até as dimensões apresentadas como afetos negativos da saúde, higiene e decisão. Assim sendo, faremos dialogar tanto poetas quanto filósofos que apresentam suas obras a partir de suas mortes autoinflingidas. E, desse modo, tentaremos propor a leitura diversa, dentro das mais diversas literaturas, num total de 49 poetas, com a finalidade de compreender como a escrita se faz, define e atua tendo em vista essa forma de heterobiotanatografia.
Em « Épreuves d’écriture », esse pequeno texto em homenagem a Lyotard, Jacques Derrida se pergunta: “Qual escrita inventar para que tu reconheças meu desejo (meu corpo, meu gesto, minha voz, meu fôlego) através da matriz e do código do outro?”. Verdadeiramente, trata-se de uma invenção reconhecedora do desejo, do desejo próprio ou apropriado por um sujeito que se deixa atravessar pela matriz e pelo código de uma linguagem, de um outro que o fala. Há uma espécie de buraco entre a dimensão do corpo como tal e sua imagem retomada pelo imaginário poético e, ao mesmo tempo, algo que se abre ao pensamento e que ensaia uma sobrevida pela própria escrita. É por essa via que proponho esse seminário, que coloca em relação a tensão entre a política e a poética dos corpos em uma situação específica: a do mal de escrita, da escrita a partir da experiência suicida na poesia. Assim, falar de um corpo suicidado como afeto negativo pode unir um corpus de sobrevivência a partir da perda do sentido do mundo, na qual a escrita inventa sua propriedade mais imprópria. Gérard de Nerval dizia « l’oracle invoqué pour jamais dut se taire ». É nessa constatação de não mais haver oráculos possíveis ao mundo, de pensar na linguagem um buraco no qual todo real passa e insiste em sua fragilidade e restância, que a escolha de poetas suicidas pode dar as palavras aos corpos de uma escrita que não fala senão do inevitável, da aporia última do trespasse, do falecer, do morrer.
Nesse sentido, procurarei tratar de uma espécie de “ruína do tempo por vir”. A dicção da impossível apreensão da morte, que não pode simplesmente ser antecipada por um saber prévio, demanda uma exposição do corpo a sua falência, à insuficiência mantida pela escritura como o ato e afeto de uma composição da saúde, do cuidado de si e de sua doença. Assim, não me comprometo em pensar as formas as quais os autores tentaram representar ou ainda simbolizar suas próprias mortes autoinflingidas, mas antes em compreender como esse ultrapassamento dos limites ao desconhecido pode estar sempre já ali quando se decide pela escrita. Desse modo, desenvolverei teoricamente o conceito de mal de escrita, tomando as reflexões sobre o cuidado de si e o mal de si, a saúde e um corpus extenso de poetas suicidas (Safo, Sêneca, Lucano, Empédocles, Sophie Podolski, Unica Zürn, Victor Heringer, Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath, Torquato Neto, Francisca Júlia, Hilda Machado, Antonia Pozzi, Alejandra Pizarnik, Danielle Collobert, Rafał Wojaczek, Paul Celan, Hart Crane, Alfonsina Storni, Ghérasim Luca, Qu Yuan, Hai Zi, Gu Cheng, Ian Curtis, Nick Drake, Marina Tsvietáieva, Vladímir Maiakovski, Siérguei Iessiênin, Georg Trakl, Cesare Pavese, Raymond Roussel, Antero de Quental, Mário de Sá-Carneiro, José Agustín Goytisolo, Salvatore Toma, Anne Sexton, Florbela Espanca, Gérard de Nerval, John Berryman, Elise Cowen, Primo Levi, Anderson Bigode Herzer, Sarah Kane, Galaktion Tabidze, Branko Miljković, Thierry Metz, Misuzu Kaneko, Jean-Joseph Rabearivelo e Yi Yŏn-ju).
Desde a Antiguidade, repete-se: « Non omnis moriar multaque pars mei / vitabit Libitinam »[Não morrerei inteiramente e uma grande parte de mim / evitará Libitina], tal como escreveu Horácio em uma de suas Odes (III, 30). A crença no escape da deusa romana da morte está inicialmente ligada à conservação do poeta vivo a partir da pura composição de obras, guardando uma parte de si mesmo na escrita que possuiria sua sobrevida. A poesia e a filosofia pensaram e, igualmente, representaram a morte desde suas origens. Sempre tomando os limites entre a vida e o fim, a maior parte dos textos se propõem a pensar o si diante da morte, do luto, da finitude, enquanto matéria pulsional do próprio escritor. A dimensão da angústia diante da morte passa pela potencialidade da defesa daquele que encara suas repressões (ou recalcamentos) e, ao mesmo tempo, aproxima-se da pulsão de morte por meio da atividade estética. Nesse caso, o tema da morte tratada pelos poetas ou filósofos que não viveram a experiência do suicídio parece sempre unir as ideias de nulidade a partir da inibição ou como sintoma diante do transitório (como propunha Freud). Mesmo em autores contemporâneos que foram obrigados a vivenciar doenças terminais, isso se torna claro. A título de exemplo, Chistophe Tarkos escreve, em Caisses (1998): « Tue-moi tue-moi ne me laisse pas crever de rien ne me laisse pas mourir sans que personne ne me touche par simple flocalisation ne me laisse pas finir à cause de rien je ne suis pas rien ». Trata-se da angústia diante do nada, mas também de um sujeito que se serve de um apelo a si, que não termina como se fosse um nada. A crença de uma morte que não será inteira ainda permanece aqui, mesmo se a demanda por dar a morte se explicite logo em seguida no texto. Ou ainda, se tomarmos Manuel Bandeira, que ensaiou seu “Último poema”, convocando as “coisas mais simples e menos intencionais”, uma espécie de “pureza”, mas que o termina com o desejo de escrever como “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. É antes desse lado que escapa às explicações que gostaríamos de compreender as disjunções do corpo com o suicida e a escrita.
Conteúdo Programático
A questão do impossível no suicídio ou o que se oferece à desconstrução: a precariedade de si
Introdução: responsabilidade e suicídio
Tentar dar conta de uma máscara – o suicídio na literatura e no episódico
Ruína do suicídio e da escrita
Sentido e contra-representação do suicidado
A morte do suicídio
O corpo do suicidado: afetos negativos
Mal e o mal de escrita
Escrita como mal de soberania
Demoras suicidárias ou a doença de ter um sujeito
Transitoriedade e pulsão de poesia
Saúde no abismo
Imagens das cinzas
Experiência suicidária, como se silenciasse
Escrita como ensaio do mal
É hora de concluir