No Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, há um poema de duas palavras que se tornou muito conhecido:
Amor
Humor.
Um título, que é um verso, e um verso. Não preciso dizer a quantas Oswald foi lido. Uma das sínteses mais orgânicas da língua, esse poema é a articulação que subverte qualquer ilusão de contiguidade, já que redefine o amor desde outra dicção que não um sentimento. Essa construção, no entanto, não vai sem uma série analógico-combinatória de dois iambos com rimas masculinas, ou seja, oxítonas. A poesia iâmbica, ao menos desde Arquíloco, se desenvolveu como aquela da linguagem mais direta e ao mesmo tempo abusiva, para insultos, vinganças e cenas obscenas. Isso parece soar certa poética de Oswald, sobretudo em outros poemas, no entanto, aqui ele não faz senão dividir um pé iâmbico (sempre composto de dois iambos), não compondo nem mesmo um dímetro arcaico, a forma mais elementar do iambo, e fazer a linguagem mais condensada possível para provar que a rima suplanta a definição. A radicalidade da poesia muitas vezes exige essa supressão, essa condensação, a ida até a raiz.
Fui tomado durante um almoço desses mais cotidianos da vida, desses em que não se espera nada além de se alimentar e voltar ao modo automático, por um minipoema escrito por meu filho que me resolve dizer algo assim:
— Pai, deixa eu te dizer
um minipoema que eu fiz?Arroz integral
sem sal
Quando Heitor veio com seu minipoema, pensei logo nessa formação que ele havia recebido ainda muito bebê: ler Oswald de Andrade fará dele o que ele quiser. Ele terminou de dizer e eu me lembrei de um dia próximo de seu primeiro aniversário, em que estávamos, como muitas e muitas vezes, só ele e eu, sentados no chão da sala e ele com um exemplar do Pau Brasil na mão, brincando de folhear, olhando as palavras, as cores da capa, os grafemas. Ora, seu poema é basicamente Oswald + um anapesto.
◡ – / ◡◡ –
◡ –
Como um dáctilo reverso, o anapesto é o contrário da canção elevada. Antes, há certa suavidade no movimento; uma mobilidade que vem da ordem melódica. Com dois sons breves, com duas sílabas átonas, algo respira no pé do verso. Mas no poema outra coisa ainda acontece: esse anapesto força uma acentuação não típica do português, ele faz cair a sílaba apenas no último respiro do verso, assinando-o na oxítona rimada, já que ali o verso termina. Do ponto de vista morfológico, dois versos com duas palavras (sendo três lexicalizadas e uma circunstância). No entanto justamente a segunda palavra, a que forma o anapesto, é a diferença instalada no poema. Ela amplia o número de sílabas, produzindo mais um pé, o excedente da poética oswaldiana. Enquanto o segundo verso é composto apenas pelo iambo, o primeiro solicita algo mais completo (“integral” como a palavra).
Se salta aos ouvidos primeiramente as rimas, os conjuntos anagrâmicos e assonânticos não são menos formadores da sua plasticidade. Os dígrafos em R no primeiro verso, que ligam a fluidez estranha do conjunto completo de todas as vogais da língua portuguesa (!), são analógicos em sua articulação também alveolar e oralizada, mas passam de vibrante a fricativo, de sonoro a surdo, num processo de desvozeamento. Um silenciamento para terminar o poema, uma perda anapéstica?
Ao terminar de dizer o poema, ele ri e me lança um olhar que pede interpretação, reconhecimento. Faço-o, com mais riso e elogios — e a ele não digo senão a verdade (e a ficção poética, que nada tem de oposta à verdade). Me surpreendo, porque acho magnífica a destreza. No entanto, por que ele, aos 9 anos, se surpreendeu com a própria produção? No poema “3 de maio”, que já li mil vezes desde o fenômeno da paternidade, que um dia escreverei longamente sobre, Oswald escreve:
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.
Essa descoberta da visão invisível é evidente no trato da poesia. Invisível porque audível. O corte da idade na subordinação da poesia à infância é o que diz a sintaxe do poema. O sujeito que aprende é também aquele que se deixa captar pela força do verso e seu enjambement. A descoberta — marcada pela data histórica — é também formadora dessa surpresa de se ter descoberto. O poema abre a seção “rp1”, de “Pau Brasil”. Nesse sentido, o “Rápido Paulista 1”, trem de ligação entre São Paulo e Rio de Janeiro, abre um novo descobrimento, aquele que não é a celebração da colonialidade lusitana, mas a do olhar ao invisível, ao olhar da velocidade, do gesto. Talvez ele tenha (não)visto isso.
A ideia de falar dessa produção textual — e digo mesmo produção por se tratar de um impulso do desejo, da força que une um riso, um prazer e o clique da sagacidade em se colocar em relação com o outro — é a de notar que a infância produz uma educação estética do bicho humano, porque está ali o possível de uma linguagem que se relaciona ainda muito de perto ao que ainda não precisa de linguagem. Como escreve Manoel de Barros sobre ser criança como um exercício “o menino era ligado em despropósitos” ou, para o lugar sentenciado da poesia: “Se o Nada desaparecer a poesia acaba”. Porque desaprendemos esse princípio é que, por exemplo, a poesia de Mallarmé fica inacessível. Em algum lugar, a poesia seria acesso de conjuntos sonoros, de conjuntos significantes, de linhas de força que se espalham e expandem no corpo. No corpo há uma modificação no momento mesmo de dizer: “Arroz integral / sem sal”. Mas desaprendemos e tudo parece acabar num Nada terrível. O que os dois versos do meu filho dizem é justamente que é preciso esse contato com o Nada, ali onde a invenção faz riso, ali onde é possível criar algo como um arroz ainda não lavado, desprovido de suas qualidades, perdido de sua integralidade. Criar com menos, eis a lição que aprendi mais uma vez com ele.
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