SONHO, CONTINUIDADE E CONCRETO

Essa semana foi meu aniversário. Juntos, a Bahia e Szymborska. Ganhei de presente, além dum cartão de aniversário feito à mão pelo Heitor, muitos livros logo na primeira hora, com um bolo de banana e um isqueiro para que pudesse soprar um fogo que anunciasse a nova idade. Comecei a ler dois deles quase imediatamente: o seminário de Derrida sobre psicanálise e crítica literária, de 1969-70, e o Notes to John, de Joan Didion. A semana foi completamente ocupada de trabalho, planos para o futuro, dimensão rastreada do passado e um tanto de raiva contida. Me dei conta desse detalhe de quando vou dormir. Pouco antes de cair no sonho, tenho uma espécie de pré-sonho, devaneio em vigília, em que estou numa casa de estilo modernista, grandes janelas, vidro e concreto. Nela, a cada noite, coloco personagens diferentes. Eles nomeiam certo desejo que procuro observar atentamente. Nessa noite, sonhei com o escritório de Joan Didion que estampa a sobrecapa de Notes to John. Tenho dificuldades atuais em escrever que estão muito ligadas a meu espaço de escrita. Minha mesa de trabalho está cheia de livros que povoam os inúmeros projetos que toco ao mesmo tempo. O resultado? Sem tempo para me dar tempo à escrita. Como não consigo terminar a pilha um, a segunda fica ali chamando atenção, a terceira, a quarta, a quinta e a quase sexta… O espaço de escrita de quem se vê às voltas com esse ofício é sempre revelador do que se mantém secreto em cada escrita. É como se aquele fragmento do discurso de Szymborska se fizesse sempre presente: “os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar — em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos — a folha de papel ainda em branco”. 

Tenho um pequeno fetiche por fotografias de escritórios, bibliotecas etc. Típico de quem vive mais nesses lugares que em outros? Não sei se a resposta é tão simples. Penso no imenso barulho que acontece nesses lugares, em quantas vozes passam por ali. Não é o silêncio que me fascina; esse silêncio quase de monastério. É o rumor. Na fotografia com Didion, o que me chama atenção, além da grande janela, é o arquivo manejável logo atrás dela. O livro se compõe da matéria mais sensível: notas que ela tomava após as sessões com seu psiquiatra entre 1999 e 2000. Foram poucas sessões. E feitas sobretudo para entender sua vida com a filha, que também era seguida por um psiquiatra, que, por sua vez, conversava com aquele de Didion. Ela escreve as notas a seu marido, John Gregory Dunne. Nesse sentido, o livro é quase pornográfico, já que revela a maior das intimidades: a vida psíquica de alguém que, em poucos anos, terá apenas a ruína para escrever. O que me pega então na fotografia, a cada vez que retorno ao livro? No começo da semana, tinha selecionado umas fotografias da mesa de Freud na Bergasse 19, em Viena. Estou terminando um texto para elaborar uma violência institucional justamente vinda da formação psicanalítica e a noção de espaço começou a aparecer. Os espaços que nos colocamos quando exploramos (como deve ser qualquer Bahnung, quando colocada em questão) o inconsciente e suas disposições. Perder espaços, para expor-se a outros, ao outro. Perder desde a expulsão, desde a interdição. Nada disso é muito seguro, mas se abre de um modo que não é banal. A pergunta pra mim continua sendo sempre a mesma: o que fazer dos restos? Em um determinado momento do seminário de Derrida, ele aponta com Freud, que “a sublimação escapa às garras da psicanálise”, já que a arte produz um resto, diz ele. Assim, encher a mesa de pilhas é uma forma de manter-se para fora da sublimação, imerso (quase literalmente) nas obsessões mortíferas do cotidiano.

Mas aí vem esses sonhos repetidos, com sua pequena diferença: o escritório de Joan Didion. Conheço essa história, de escrever notas, as mais precisas possíveis. Endereçar as notas, mesmo que nunca as envie, mesmo que as mantenha comigo. Conheço também o apagamento das notas; ter que, por necessidade imperiosa, apagar tudo o que vinha escrevendo, aniquilar todo projeto, toda a vida inacabada, para acabar com ela. Então, de repente, as notas voltam. Elas reagem, como um corpo que estava com a imunidade comprometida. No rosto de Didion não deixo de ver o que continua. Como num espelho que não me refletisse, imagino o dia do escritório bem organizado, os livros reposicionados, o editor de texto limpo e esperando ser um novo arquivo daquele que poderei ser. E como se houvesse um efeito de divã nessa realidade, no comprometimento de seguir mesmo com a exclusão. Como diz um verso de Carla Demierre: “Escapei de dois eletrochoques, espero o terceiro com serenidade”. Qual língua é preciso perder para ganhar aquela do meu próprio idioma? Um aniversário é tempo demais, ele dura tempo demais para uma demanda, que nunca carrega consigo nenhum objeto. Dentro desses prédios do sonho, o concreto de onde vivo, de onde já poderei ter saltado uma vez. É a partir deles que as janelas se sustentam, enquanto minhas pernas tremem diante da altura. O peso do concreto é também um peso do que carrego — isso que deve parecer leve e esvoaçante, afinal nasci em Brasília, onde as curvas de concreto parecem voar sobre a terra vermelha. Há toda uma engenharia para que o sublime possa se sustentar. Às vezes reconheço aí um sujeito.


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