Sarah Kofman, um título


Passei o dia relendo o texto de Derrida em homenagem a Sarah Kofman. Li a versão completa, publicada na revista Les Cahiers du Grif. Versão completa leia-se ali onde ele nunca conseguiu dar um título, ao menos um título fixo, para a despedida da amiga. Me lembrava apenas da sensação. O que ficou guardado em mim tinha sido a beleza do imperdoável na medida que pode um amigo não perdoar o ato extremado da amiga. Ele não diz isso, mas sugere, fazendo uma genealogia longa e vasta da amizade entre eles, que começa justamente com uma série de confrontações, protestos, disputas em torno da leitura que Derrida tinha feito de Platão, e Kofman não concordava. É isso a amizade, diz ele: viver o impossível. Viver o impossível exige, ao que se possa imaginar num só lapso da memória, certa passagem ao ato. Não necessariamente a passagem de Kofman e tantos outros, mas uma passagem ao ato da vida. Escrever é dessa ordem: tomar o que restringe e tornar possível o que é impossível. Durante essa releitura, li antes dois textos curtos dela. Um relata um sonho, em que seu nome se transforma e se relaciona àquele de Kafka, formando assim uma espécie de cadáver da diferença sexual (algo que diz também o texto de Derrida); sonho da decomposição do nome. O outro em que ela, falando de sua relação com a psicanálise, diz: “o que se passa por minha boca, em análise, não tem, então, nada a ver nem com a verdade nem com o sentido. Isso vem das minhas entranhas para ser oferecido como presente”. Trata-se sempre de tornar possível dizer a verdade, mesmo que ela venha da escatologia. Essa mulher que sorri — e em quase todas as fotos divulgadas dela pode-se comprovar esse fato — é a que, para Derrida, dá o dom da sobrevida diante da possibilidade da morte. No texto, sem título, que se pergunta sobre o que se dá (e se dá repetidamente), Derrida diz algo como uma sensação de, na suspeita da indecência do título, escorar, roçar alguma violência em reduzir a amiga a um espaço delimitado pela página. O primeiro título que ele sugere é justamente o nome Sarah Kofman. Assim, simples, como se fosse possível falar dum nome, dizer algo como aquilo que vai na lápide de alguém; esquecendo-se (reconciliando-se, então) de que estamos diante dum túmulo? Mas um nome se perde no corpo morto, na “corpa” (corpse) do cadáver, essa é a linha que guia seu necrológio. Fui dormir com a lembrança de que foi a leitura de Le métier impossible que me fez retornar à psicanálise depois de um imenso trauma. Foi entender o “sim” do analisando que ela interpreta que me fez retornar, quando não há retorno algum possível. Então, que devo a essa mulher (sempre às mulheres) um pedaço da minha vida. Essa manhã, acordo depois de ter sonhado com algo que parece ser a cena vivida por ela, que ela conta em Rue Ordener, rue Labat. Não a prisão de seu pai pelo policial conhecido, não apenas a caneta de seu pai (que eu também poderia contar que também ganhei a caneta tinteiro dele depois de sua morte), mas o dia em que ao sair da escola, ela não pode mais ver mémé, a senhora que a escondeu durante a guerra. Durante o sonho, era também eu quem saia da escola, esperando que lá estivesse alguém que não minha mãe. Não sei quem eu esperava. E por não saber, entendo ao acordar que revivi (verbo estranho para quem não tinha vivido uma cena, mas a tomou para si) a cena do livro de Sarah Kofman. Sua mãe está lá e elas devem partir, se mudar e recomeçar a vida. Como quem escreve suas memórias, era preciso recomeçar depois do fim, ou ainda, melhor recomeçar ininterruptamente.


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