Uma rã, uma mulher, a poesia (de Lacan)

Às vezes, valeria ficar horas numa frase que é absolutamente fora-de-campo, como essa dita por Lacan ao analisar uma tela de Bramantino, na Conferência de Caracas:

“a nostalgia por uma mulher não ser uma rã”

A primeira impressão não pode ser uma resposta, ou seja, não se trata de um “o que ele pôde querer dizer com isso?” Trata-se, antes de uma posição, em que se coloca a mulher, a Virgem (já que estamos no Natal), ao se deitar com esse substituto fálico. Em francês, a expressão “être une grenouille de benitier” significa ser extremamente devota. Basta saber devota a quê? A quem? A quem ela suporta sobre seu colo. Em seu colo, do útero. Nostalgia do porvir, portanto. Uma mulher sonha o futuro se ela se mantém uma Virgem. E essa não é a mulher lacaniana, a Virgem. Ela “não é uma rã”, não existe enquanto devota. Essa é sua nostalgia. 

Caetano escreveu uma canção justamente em que aparece a rã. Uma construção das mais engendradas da música. O poema vai se montando de pequenos estratos que convocam as novas partes por aproximação fonêmica. Essa proximidade executa um conjunto inteiramente novo de significantes e, logo, agem na produção do sentido inventado duma metáfora, que vai, sem dúvida na direção dessa rã saltada pelo corpo da irmã, da voz de Gal Costa, da mulher. 

Durante anos eu ouvia a música de forma completamente enviesada. Num Verhören [lapso de audição] nítido eu era incapaz de ouvir:

A grama a lama tudo 

é minha irmã

A rama o sapo o salto

De uma rã.

E sempre ouvi “a grama lambe o cu da minha irmã”. Questão de quantidade de sílabas? Eu estava enodado na cilada silábica que Caetano tinha montado. Esse buraco (o cu) que bordeja o tudo, num conjunto de elisões despropositadas. Tudo segue então o tempo desse salto: primeiras vegetações depois da seca, a lama é o mundo todo, o vocativo daquela que lhe é próxima. 

Essa ainda não vai sem o Salto do tanque Bashô: 

furu ike ya/ kawazu tobikomu/ mizu no oto.

古池 蛙飛び込む 水の音

Ao que Haroldo de Campos traduziu por / t / plurais fazendo tombar a água sob o corpo da rã:

o velho tanque

rã salt’

tomba

rumor de água

Há uma imensidade de traduções desse poema. Cada qual tentando produzir esse barulho aguado do salto da rã. Como se houvesse um conflito funcional entre a imagem e o som, como está no poema de Caetano também, em que se dá uma espécie de conluio, cópula entre sapo e rã, música e palavra, sílaba e cilada. Do velho tanque, que monta a imagem, ao rumor de água, salT’-e-Tomba a rã, sua nostalgia. 

Não por nada, a história da literatura atribuiu, durante séculos, a Homero a Batrachomyomachia. Se o desentendimento do perigo acaba produzindo a guerra entre ratos e sapos, ela é também a marca de uma controvérsia que permanece sob a marca dos batráquios. A calma de Bashô/Caetano não parece ser a de Bramantino/Pseudo-Homero, ou ainda a de Hoji com seu sapo gravurado. 

Voltando ao quadro que Lacan pinta a seus ouvintes, pela frase estranha dada à mulher, aos pés de Miguel Arcanjo, do lado direito da tela, está a imagem justamente dessa rã, dorso ao chão, pernas abertas, como um espelho da Virgem reclinada no trono entre as torres. Essa rã é a representação simbólica do diabo. A que ela nostalgia ? A quem? Poderia, assim, pegar dois outros versos da canção “Perto da claridade / da manhã”. A rã é a manhã, ambas complementos do que chega a todo tempo, num outro tempo. E basta quebrar esses sujeitos para ver onde a verdade se instalaria:

Nostalgia por uma mulher

Claridade da manhã 

Salto de uma rã

Rumor de água

PS: ao fim, na antologia de traduções de Bashô, talvez um único tenha quebrado esse destino da mulher: Augusto de Campos, em que o pulo é a lagoa, a água, o som.


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