Tieta, Tom e toques

Em 1989, eu tinha a idade que meu filho tem agora. A Rede Globo transmitia no horário nobre a telenovela Tieta. Lembro de assistir aquilo. A Claudia Ohana nas dunas, os olhares, o espancamento de seu pai, a sensualidade que eu já entendia. Eu achava que Tieta estava sempre certa. Ela podia ser quem ela era, e quem ela era simplesmente era o que meu espírito já queria: não se deixar julgar pela diferença, pelo afeto que se espalhava nessa minha entrada nos hormônios instáveis da juventude. Alguns anos depois, em algumas semanas, surge Betty Faria e o mundo toma o sentido de quem pode retornar aos 40, e executar uma espécie de vingança fina para sua própria sobrevida. Tieta foi talvez meu primeiro embate moral sério, o que se misturava ao desejo de ser bandido, perto dos rapazes da rua onde morava. Havia um embate que, no entanto, eu não acreditava ser um real conflito em mim. Como a moça “fogosa” poderia ter razão? Como a violência entra na vida de alguém e não sai mais? De todo modo, foi a moral de Betty Faria, vestida de Tieta, que me parecia um modo de ter coragem diante do mundo.

Alguns anos depois, quando fiz treze anos, na casa da minha avó paterna, li o romance do Jorge Amado. Com aquele incipt absolutamente maravilhoso, mas extremamente violento, narrando a primeira experiência sexual como querer e pavor:

SILÊNCIO E SOLIDÃO, O RIO PENETRA MAR ADENTRO NO OCEANO SEM limites sob o céu despejado, o fim e o começo. Dunas imensas, límpidas montanhas de areia, a menina correndo igual a uma cabrita para o alto, no rosto a claridade do sol e o zunido do vento, os pés leves e descalços pondo distância entre ela e o homem forte, na pujança dos quarenta anos, a persegui-la.

   Arfando, o homem sobe, o chapéu na mão para que não voe e se perca. Os sapatos enterram-se na areia; o reflexo do sol cega-lhe os olhos; agudo fio de navalha, o vento corta-lhe a pele; o suor escorre pelo corpo inteiro; o desejo e a raiva — quando te pegar, peste!, te arrombo e mato.

   A menina volta-se e olha, mede a distância a separá-la do mascate, o medo e o desejo: se ele me pegar vai meter em mim, estremece apavorada; mas, se eu não esperar, ele desiste, ah!, isso não, não pode permitir mesmo que queira pois o tempo é chegado.

Lembro de pensar aturdido sobre a sexualidade da minha avó. Se ela lia aquilo, o que ela devia imaginar morando sozinha naquele apartamento carioca? Eu pensei na sexualidade dela para não pensar na minha, é claro. Já que eu também lia “aquilo” e que aquilo já habitava meu mundo; teria alguma razão por que julgá-la? Depois entendi que havia uma distância entre ela e Tieta, entre ela e eu. Algo que responde à classe, à impossibilidade de nomear os heróis, como diz tão bem Jorge Amado. De todo modo, me apareceu a questão mais central da existência: a sexualidade e sua descarga.

Alenka Zupančič escreve algo que me parece interessante para pensar a bagunça do sexual: “sua bagunça [do sexo] é o resultado da tentativa de criação de uma lógica no ponto exato do impasse dessa lógica. Sua ‘irracionalidade’ é o ápice de seus esforços para estabelecer uma ‘racionalidade’ sexual”. O campo do sexual esbarra assim nesse impasse que é o real, esse lugar em que a lógica não oferece a exata medida da vivência psíquica. Não tem lógica o aprendizado do Y, dessa incógnita em que se condensa a sexualidade. Jorge Amado reorganiza a penetração – do rio no mar, do mascate em Tieta – como marca dessa desmesura, do sem limite que habita a paisagem inicial, a violência de seu discurso, a proximidade com a morte. E tudo acaba se resolvendo nessa expressão estranha: “o tempo é chegado”, para definir a necessária perda da virgindade, a resoluta decisão de não mais esperar. Tieta é uma marca de quem pôde escolher ser. Então o tempo é chegado de tomar o rumo dessa irracional solução do real: lançar-se no impasse infinito; assumir-se um ser sexual.

(Aos 13, eu já podia melhor saber dessa violência. Em 1989, aconteceram coisas que não convém a texto curto, mas que o longo texto escrito em análise me foi descobrindo. Num ano conturbado, Collor eleito apesar de todos saberem o que isso significava, a criança que eu era, deixava de existir. Não mais risos frouxos, não mais piadas, não mais extrovertido.)

Na telenovela, em 89, estavam alguns dos índices do Brasil pós-ditadura: as falas libertárias de Tieta, o adesivo colado na marinete para Santana do Agreste com o dito militaresco “Brasil, ame-o ou deixe-o”, as piadas anti-comunistas. Na minha memória ficou mesmo foi a voz do Caetano cantando “Meia lua inteira”, do Carlinhos Brown. Eu sou hipermnésico. E isso me perturba muito. Tenho quase sempre tudo, todas as cenas, falas, gravadas indelevelmente. Posso ver algo, não me lembrar exatamente, mas a sensação fica e em alguns segundos tudo retorna. E nesse retorno está o golpe de capoeira na reviravolta da história. E pra mim, vinha o nome do Figueiredo, mil vezes repetido em casa, a catástrofe Sarney, os carimbos nas cédulas.

Li o romance de Jorge Amado quando Tom Jobim morreu. Esse é um dado importante – aliás, outra canção que poderia ser a trilha desse texto é justamente “Saudade do Brasil”, do Tom Jobim. Ele fez parte da trilha da minha infância não como hoje é mal lida a Bossa Nova. Há algo de muito familiar e afetivo na minha história com a bossa que a liga a essa família que não se comunicava em palavras, mas muitas vezes se podia ler pelas músicas que eram ouvidas em casa. A voz do Tom Jobim era sinônimo de que as férias estavam chegando, de que subiríamos a serra de Petrópolis e, lá, o Alto da Serra. Na noite de 8 de dezembro de 1994, aprendemos a morte de Tom Jobim. Fez-se um silêncio enorme em casa. O que era vivo parava de modo inesperado. Sua presença não tem data na minha memória. Ele parece ter sempre existido. Meu pai cantando Samba do avião para chegar a sua cidade natal e, a isso sempre se repetiam em decrescente os segundos que precedem a decolagem, sempre exato, enquanto nos acalmava com um chiclete ou movimentos dos maxilares antes do choro da dor de ouvido. O Rio visto do alto, a emoção dele, que bobamente chorava por tudo, entre picos que o avião quase toca na entrada para o Santos Dumont. Anos depois fui entender que a decolagem e aterrissagem são os momentos mais críticos de qualquer viagem aérea. Meu pai sempre as marcava com esses momentos apaixonados e calmos. Quando Tom Jobim morreu meu pai chorou muito, a casa chorou. Era difícil não o ver mais na distância segura daqueles que admiramos. Na viagem seguinte, meu pai não cantarolou. Ele apenas se referiu ao fato controverso de que seria preciso alterar a letra da música, retirar o Galeão, mesmo que tenha sido o próprio Tom que tivesse dado importância a esse nome. De modo estranho isso ressoava com o que já acontecia em casa, já que meu pai cantava aquele samba mesmo que aterrissássemos no Santos Dumont. Isso para dizer que a Bossa Nova que soprava, sempre, ali fez mais sentido. E talvez por isso que ela retorne a cada vez desde a sua morte. Morrer inesperadamente, esse foi durante anos meu medo. Não que viesse a minha própria morte, mas com a morte de Tom Jobim, eu passei a saber que ele poderia morrer também. Fiquei com medo de que meu pai morresse que nem ele porque eles eram muito parecidos, na glutoneria embriagada pelo álcool, na vida desregrada por uma boemia ancestral.

Naquele ano, eu peguei o livro da minha avó que cheirava a maresia, poeira e estava com a lombada muito dobrada por sua forma compulsiva de ler, e coloquei na mala. Não conseguia ler tantas páginas nos mínimos dias que passávamos em seu apartamento. O livro estava comigo e agora já não sei onde está. Serei obrigado a comprar outro, mas não terei os rastros que guardo nos livros que toquei. Sei seus cheiros, seus vincos, o lugar onde está um fragmento na página. Fico procurando horas, só pelo prazer de me perder. Peguei o livro enquanto entrava naquela fase – já tardiamente para minha geração – de saber que devemos (sim, naquela altura era um dever) nos relacionar de outra forma com as pessoas, que não era mais brincadeira, que seria da “salada de fruta” para frente. Eu com Tieta da cabeça, não conseguia tirar da cabeça a Betty Faria, eu achando que aquilo tudo só aconteceria muito mais tarde. Mas, como já apontava a televisão, é chegado o tempo aos cabritos, numa evidente alusão da permissividade incestuosa dos anos 80/90.

Nossos corpos não eram apenas corpos infantis. Havia neles uma sensualidade que já deveria responder a anseios adultos. E aqui não estou desprezando a sexualidade da criança, não estou esquecendo Freud. Estou apenas dizendo que o modo de representar essa sexualidade não respondia à infância, mas ao mundo adulto; que essa não era a perversão polimorfa que antecede o binarismo de gênero, mas uma bem delimitada forma de escolha de pares sexuais pela juventude, pela efebia tornada mancebia, o que dava direitos infinitos aos adultos.

Depois do belo painel à maneira de prólogo de Jorge Amado, o narrador diz: “Começo por avisar: não assumo qualquer responsabilidade pela exatidão dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria”. Como toda literatura, a responsabilidade nasce dessa irresponsabilidade fundamental, irredutível. Começo por avisar apresenta já esse fora do texto, dentro do texto. Como se dissesse que não iniciei ainda, mas já aviso o que se dará, o narrador se coloca dentro e fora da cena, para montar uma história das mais tórridas. Ele não põe a mão no fogo, ele não é louco. E, no entanto, tudo o que se vive ali provém justamente dessa loucura: um vilarejo em polvorosa por conta de uma menina. Toda a questão passa então por se há ou não moral. É a fina pergunta que propõe o narrador. Nasce quando a moral, era minha pergunta ao fim da adolescência… Eu já estava fisgado pela literatura e as coisas todas das letras, então meu problema não era nunca com a ficção. Mentir ou dizer a verdade não faz caso em quem vive a ficção, quem tem amigos reais no imaginário, quem vive meio que nem Elisa “a pedir detalhes, tão necessários no entanto a construção do imaginado mundo em que se trancara para subsistir”. Interessava-me como dilema mesmo a moral… E não sei como a resolvi para mim, sei que o problema se desfez com o tempo.

Essa manhã, quase como Tieta retornando, marca 30 anos da morte de Tom Jobim e estava ouvindo “Janelas abertas”, na voz da Gal, tocada pelo Tom. Estou com febre desde quinta-feira – algum vírus disse a médica de pronto-socorro ontem ao não querer fazer mais exames; algum vírus que todo pai pega. Ela disse precisamente: “nenhum pai está imune com criança em casa”. Achei a frase incoerente. Não há pai sem criança, não é? Entendo o que ela quis dizer, mas ela não disse apenas isso. Pareceu-me algo mais como “se você não quisesse ficar doente, o melhor seria não ter tido filho”. A moral age estranhamente.  Mas hoje, 8 de dezembro, fui fazer um teste de Covid, e a responsável pela coleta disse, ao ver meus olhos cheios de lágrimas: “Nesse exame é que eu faço os homens chorarem; é o único jeito, né?”. Eu disse: “Não sei os outros, mas eu sou bem chorão”. Ela se surpreendeu e disse, lendo minha data de nascimento: “você é canceriano, né?”. Achei inusitadíssimo. Respondi sou sim. Ela riu, me entregando um lenço de papel. Mas li na frase dela essa espécie de mágoa – “é o único jeito, né?” – que demanda uma confirmação de que ela estava certa na sua suposição. Pensei que ela não assistiu Tieta, e ainda assim a violência está em sua vida. Essa violência inevitável. Qual seria o mínimo gesto? Eu era muito pequeno há 30 anos, menor ainda há 35 anos. Mas parece que tudo estava ali, em ebulição.

Tieta diria, como disse a Leonora diante do mar: “Quase tudo no mundo já apodreceu, mas ficou Mangue Seco”. A respiração ofegante do Tom Jobim cantando – e aqui estou falando duma performance emblemática de “Soneto da separação” em que ele quase não pode cantar – é ideal a uma recordação de quando alguma coisa se perdeu, que a febre revive, quando você se sabe perdedor. Você pode, contudo, numa lembrança que resume um bocado de história sustentar uma dessas coisas, o seu Mangue Seco. Eu ainda não sei o que é o que ficou, busco. Mas não tem uma vez que o Tom Jobim não me faça chorar, que nem quando nos empurram um cotonete no nariz.


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