pensando em Carlito Azevedo
(vida: efeito-v)
Em 1934, Benjamin e Brecht foram
fotografados na Dinamarca.
Eles jogam xadrez. Brecht fuma.
Ele perdeu seu cavalo e protege
o rei com uma linha vertical
de bispos. Sua rainha imóvel,
ao lado do rei branco. O jogo
de Benjamin toma todo tabuleiro.
Ele avança com cavalos, a rainha
em pleno combate, um bispo
já caiu no campo aberto.
Na segunda foto da sequência,
os dois homens conversam.
Benjamin dirige um rosto acolhedor
à fala de Brecht, enquanto parece
mover uma peça com a mão direita.
Ele se matará seis anos depois
dessa cena, na fronteira, em Portbou.
Mas ainda estamos em Skovsbostrand.
Exilados, Bertolt e Walter podem
se concentrar na batalha estranha
que é viver dentro de si em um tabuleiro.
A primeira e a terceira fotos são teatro.
Na primeira, Brecht se concentra,
Benjamin se volta para a câmera.
Na terceira, eles mudam a posição.
Verfremdungseffekt evidente.
Como num sono, meu corpo reencontra
o ponto em que pouca coisa dói.
Noite passada descobri essa história
de o intestino funcionar sem ordem
do cérebro, tamanha sua irrigação
neural. A autonomia de suas funções
implica também que ele sinta
de outra forma, muito além do coração.
Tenho que dormir mais tempo que gosto.
Sem sono, vozes e órgãos gritam
numa noite que não passa, de pesadelos.
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