Autorretrato, Tarkovski e ética de si

Buscando o autorretrato que Tarkovski realizou com sua Polaroid para juntar às imagens iniciais para o semestre, o Google me fornece como informação sobre ele o impessoal e nada comprometedor “personalidade pública”. É certo, mesmo que estúpido e desinformado. Poderia ter atribuído a ele a alcunha de “cineasta”, ou ainda como é comum, “cineasta russo”.

Daí me vieram dois deslizes. Primeiro, a própria ideia de personalidade. Seria possível definir a máscara de Tarkovski publicamente? Claro que o motor de busca me oferece um sentido banal de “personalidade”, quase no sentido de “celebridade”, de que se trata da fama. Mas então por que colocar que ela é pública? Posso ficar com “o Google não contratou um bom revisor de texto”, mas é suficiente? Lembro que a ideia que constrói a internet é a do hipertexto, dos elos que se podem construir quando se salta de página a página. E isso não representa nenhuma revolução na leitura, nada mais é do que a mesma ideia da enciclopédia. Claro, uma imensa enciclopédia que parece não ocupar espaço físico nas casas individualmente, embora ocupe o mundo. Se o hipertexto permite, se copio e colo “personalidade pública” em outra busca, o primeiro ponto é de retradução. Em português, trata-se de “pessoa pública” e o primeiro ponto trataria da relação entre vida íntima, privada e publicização, notoriedade, direitos à privacidade. Vê-se a pessoa saindo duma máscara para entrar noutra: aquela da lei, dos direitos, duma certa concepção de mundo, na individualidade. Mas volto à questão da personalidade. Há algo nela que implica o caráter da pessoa, o modo de agir, o homem enquanto agente na sociedade. A personalidade é a máscara teatral (a persona propriamente) com que a ética é construída. Um fazer do caráter é um fazer-se em caracter, ou seja, fazer seu personagem porque somente ele age, nenhum sujeito existe puro e destituído de suas ficções.

O segundo deslize apontaria para a ideia de “público”. Além da relação público-privado, o personagem expõe-se ao público. É como o Édipo de Sófocles que já deixou de ser apenas a criança expiada (exposta à morte no monte para que a profecia não se cumpra). Ele não é apenas essa criança marcada pelo miasma, mas o homem político que se apresenta aos tebanos como quem pode resolver mais um problema da cidade. Aliás, não à toa ele se apresenta com essa introdução “eu apareço”, ele é o próprio fenômeno, eu me entrego a vocês, diante de vocês, eu sou a solução dos problemas (sendo ele mesmo o problema). O que isso quer dizer? Para além do complexo edípico, todos nós estamos confrontados com uma moral que é essa: somos personalidades públicas. Ao assumir esse lugar, não assumimos uma identidade, mas algo muito mais aporético: assume-se a relação ao outro. A chegada do outro é o que faz com que diga “eu”, “eu apareço”, “eu me entrego a você” e mesmo as fórmulas em que o eu está colado a sua performance, como em “eu-te-amo”. Um “eu” está sempre em relação a seu surgimento diante de.

A fotografia de Tarkovski é um instantâneo. Não é apenas a captação do instante, como pode ser qualquer fotografia. É uma foto de revelação instantânea, em que as partículas de prata assumem as diferentes cores a partir da exposição à luz. Isso em alguns segundos. Claro que hoje temos os instantâneos digitais, que podem ser vistos e fixados pelo olhar de modo até mais rápido, no entanto, a dimensão estática da foto impressa é a de fazer da luz esse instante que se grava num papel. Essa escrita faz durar o outro: um Tarkovski que só existe naquele espelho invertido e pouco claro, azulado, em que ele segura um aparelho fotográfico na altura do peito e que mesmo assim seu rosto não aparece, porque está fulminado pela luz que vem da janela do lado direito. Tarkovski é essa máscara que apenas a técnica da Polaroid foi capaz de imprimir. Suas memórias não são mais suas, se há uma privacidade nessa vida. Suas memórias são, quando públicas, uma espécie de ruptura, elas se tornam contra o si mesmo, contra qualquer certeza de conversão a si que possa o sujeito para se salvar. Não há certeza ou verdade que sustente um sujeito sem o cuidado, não de si, do outro. Esse cuidado está nessa fotografia justamente na leitura pública de qualquer máscara, de quando eu possa colocar um enunciado a mais diante de seu apagamento. 

Ao me expor ao cuidado, o que entra em jogo? Quais os riscos assumidos? Quem parará a mão assassina que pode advir desse ato? Feito o narrador do “The facts of M. Valdemar’s case”, de Poe, quem poderia regendo o instante da morte, aliviá-la de qualquer saber?  Um desejo que o público não exceda no incrédulo desígnio de quem sou eu.


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