“Escrevo um poema como outro opera um tumor cerebral ou como outro ergue uma parede de tijolos”, diz a Elizabeth Hazin. E isso não é apenas uma poética dita, como se ela falasse dum ofício como outro qualquer. É uma poética feita, e se fazendo. A dupla repetição “como outro” é um ato de escrita. Esse outro opera e ergue, faz obra e a erige, mas só o faz desde o outro como outro. Não é a tomada como tal do outro, mas o outro como outro. Ela diz: “escrevo um poema”. Essa é a única operação e ereção que marca a primeira pessoa. A irremediável e irredutível distância entre eu e outro instala-se na escrita, que os separa. É então preciso notar as escolhas desses outros como outro: cirurgião e pedreiro. Não é qualquer escolha. Quem sustenta essa precisão de obra? Duas obras: a operação e o canteiro de obras. Das duas obras, o tumor cerebral que deve ser extirpado e a parede de tijolos que deve ser assentada. Ora, o que o outro ensina aqui é, de um lado, a redução, o corte, a eliminação, e de outro, a consolidação, a construção, o convir, o arranjo, a instalação. Escrever como outro é condensar e erigir, é estar naquele famoso verso de Hölderlin que diz dos poetas que fundam na memória o que escrevem. Não sem ironia, o outro ensina a técnica da ópera, da operação, enquanto tira o tumor, esse “a-mais” que nasce proliferante, desarranjado e múltiplo, indesejado também. Operar o tumor é então extingui-lo, mas também fazer sobre ele, modular utensílios técnicos sobre a existência dessa coisa que toma o corpo por inimigo. Operar um cérebro não é então um modo de deixar algo que exceda o que pode uma técnica cerebral? No máximo de precisão diante do aglomerado proteiforme e devastador, é preciso saber o que se perde, o que será preciso eliminar para que seja possível talvez uma cura. O ato reverso e complementar é aquele que se faz no canteiro de obras do pedreiro. Lidar com a pedra, com o barro, com o cimento é um saber mineral, um saber pernambucano. Desse saber vem o erigir que não é mágico (como aquele criticado por João Cabral na sua “Fábula de Anfíon”), mas posto, colocado, pedra a pedra assentado. Aqui a cura é diferente: curar o barro, curar é dar tempo e certo calor para que a forma seja outra. Então o ato de escrever não é apenas um ofício como outro, mas é que aprender do outro implica esse duplo arranjo complicado de apagamento e espera, ou como ela ainda diz em dois outros versos do “Martu”:
“QUEM TE ESPERA O APAGAR-SE
DESESPERA”
Uma afirmação sobre o que pode ser um “quem”, marcado de duração e apagamento. O desespero de quem espera apagar-se é a condição do povo palestino tornada a condição de todo rosto. Quem espera esse nome? Quem é esse outro da segunda pessoa marcada de apagamento e desespero? De todo modo, aquele/a que espera não mais espera, não tem mais esperança porque foi apagado. Essa é não apenas a poética de Elizabeth Hazin, mas sua ética: não calar o nome da espera.
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