Pequena história da leitura das crianças: rastro e afeto na transmissão

Quando começamos a ler? Em qual tempo o rastro da leitura nos entra, nos faz marcha? Eu tenho memórias bem precisas das primeiras leituras, tanto daquelas que fizeram para mim em voz alta quanto das minhas primeiras incursões sozinho, também em voz alta e depois em silêncio, com os olhos fixos sobre as folhas, os rótulos, os outdoors. Minha avó Teresa, tenho até uma fotografia desse momento, me lia uma coleção de livros, com capas verde-água e detalhes florais em branco, e seu suporte em madeira que organizava as histórias num só e mesmo lugar. Nós morávamos há muitos quilômetros de distância. Entre Petrópolis e Brasília há todas as minas, a mudança do cerrado em mata atlântica, o cheiro das férias, a interminável picada de uma abelha bem no começo da viagem. Me lembro bem do cheiro do seu feijão, do pano de prato, da cama em que nos sentávamos para prosseguir na história que para mim não acabaria nunca. Na fotografia, estou queimado de sol, com os cabelos muito loiros, uma camisa regata amarela toda desconjuntada. Estamos assentados sobre uma coberta dobrada e um travesseiro que se vê mal. Sobre a cama, o suporte da coleção de livros, um caderno, um lápis. Seguro o calcanhar com dois dedos e levanto o mindinho, como ainda faço nos dias de hoje — é como se eu tomasse meu pulso, mas ali onde Aquiles sabe de sua condição mortal. A outra mão apoia a cabeça, enquanto olho o livro que ela lê para mim. Seu rosto tem um ar circunscrito, sob seus óculos de leitura, e a foto capta um instante exato, um segundo, em que ela abrirá a boca para pronunciar uma e outra sílaba da história. Eu tenho uma cara compenetrada, como quem tenta se concentrar na página de um livro, e como o que parece ser uma fúria.

Esse rosto o reconheço hoje no meu filho. Ele o imita exatamente quando se concentra para ler ou fazer seus deveres de casa. Os olhos inclinados para baixo, como se estivesse com raiva, mas no fundo está apenas dentro de um mundo que parece não existir e, no entanto, é mais presente que qualquer outro. Qualquer voz que saia nesse momento será sempre muito frágil, mas tenebrosa, como se saísse do fundo de uma caverna onde estão perdidos todos os meninos. Dentro das minhas lembranças mais incalculáveis estão esses livros que, hoje, sequer sei o título, mas que foram formadores de um rastro mnêmico entre o afeto e o sabor da língua que me chegava. Sei das sensações, das aventuras que via sem ver, dos carinhos vindos da avó, do contorno, enfim. Acreditar na ficção sempre foi para mim meu mundo. Aliás, a palavra “acreditar” talvez nem seja a boa palavra. Não era um ato de fé contra a razão da realidade implacável. Antes, era o mundo a tal ponto de eu poder me vestir de super-herói com capa e literalmente saltar duma escada com a certeza que voaria. De fato voei, por alguns segundos, antes de despencar dez degraus mais abaixo. Depois, vieram os livros da coleção “No País das Maravilhas”, da editora Record, com aquelas ilustrações em bonecos fotografados e a capa em “holograma” tridimensional, e os contos todos, que também vinham sonorizados em pequenos compactos em vinil. E O Mágico de Oz, Stevenson, Twain, Verne, Barrie, Dumas, de quem, óbvio, os nomes não me diziam nada, mas as histórias, as muitas histórias, que faziam de mim uma criança que sempre pôde viver fora de si. Depois, Monteiro Lobato, durante anos e anos; aliás, talvez tenha sido ele o primeiro contato real com a ideia de autoria; com um saber sobre o que era o estilo, no qual eu reconheceria o uso de toda uma cultura que o antecede, as frases, os volteios, os modos de encadeamento do enredo e suas peripécias. E há muito mais que esses capítulos, evidentemente, mas talvez tenha sido isso que tenha construído em mim uma solidão rigorosa e ao mesmo tempo povoada. A existência que só existe a partir desse rosto compenetrado, em ira com o mundo, mas respirando cada possível movimento das imagens.

Mas hoje acompanho o crescimento de uma criança, e estou do outro lado da foto. É uma chance reler tudo, reler o que só li depois, ver as escolhas. Com meu filho, as coisas foram um tanto diferentes. Eu não lembro exatamente a primeira história lida para mim, mas lembro a primeira que li para ele, quando ele tinha apenas alguns dias de vida. Eu tinha a clara noção de que minha voz se modulava para cada ocasião: falar com alguém por perto, falar com ele, cantar para ele, chorar com ele (ainda escreverei sobre esses meses infinitos em que apesar de sua existência, eu estava devastado e tomado pela maior de todas as depressões que já vivi), dizer algo como um imperativo. Logo, ler para ele foi evidentemente um modo de compreender que algo do meu corpo seria transmitido a ele para além de qualquer genética; algo como o tom da voz, a sílaba da língua que cairia em seu corpinho mínimo, a prosódia da poesia, o caminho em que a língua ainda é puro afeto e corporeidade. Então, enquanto ele estava no berço, eu lia os contos dos irmãos Grimm em voz alta, não fazendo voz dos maus, editando a história na medida dos assombros. O primeiro que o fiz descobrir, sem que ele ainda saiba disso foi precisamente “O rei sapo ou o Henrique de ferro”. Toda a literatura está nesse conto. Talvez tudo o que eu possa deixar a ele. Talvez um certo mundo que, mesmo horrendo, pode soar como uma noite em que se pode dormir. Na sequência, lia também Ângela-Lago, muitas e muitas vezes João Felizardo, o rei dos negócios; Le Mange-doudous, de Julien Béziat; muito muito muito, O Ursinho Pooh, de Milne; talvez umas mil vezes, Onde vivem os monstros, de Sendak; e, outras milhares, Leo e a baleia, do Benji Davies (mas também os livros que seguem esse personagem). Depois, quando ele já tinha certa apreensão pelas imagens estáticas, muitos álbuns, mas sobretudo Oswald de Andrade (sim, o Primeiro caderno do alumno de poesia e Pau-Brasil) e muita poesia concreta, numa antologia do Grupo Noigandres publicada pela Cosac & Naify e pela EdUSP. Essas eu lia, mostrando com o dedo, e também colocava as vocalizações de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari…  o que ia com Caetano Veloso (o cantor que ele chama hoje de “o que eu ouvia quando era bebê”), tanto nos poemas propriamente concretos quanto em Araçá Azul. Nesse mesmo momento, livros de imagens, sem texto, sobretudo O Bárbaro, de Renato Moriconi. E ele pedia para que eu contasse a história, mas nunca a queria repetida. Então eu inventava uma diferente para cada hora do dia — ao menos uma para a manhã e outra para a noite. 

Seguiram-se muitos outros livros, duas línguas também. E ele foi selecionando e diferenciando o que ouviria em português e em francês. Essas línguas não se encontraram ainda para ele na leitura. E esse é um ponto muito bonito e surpreendente da sua história. Antes de saber ler autonomamente, meu filho teve de se alfabetizar numa língua que não é sua língua materna. Ele adquiriu essa competência em francês e as escolhas de livros vão nessa direção. Na parte da livraria ou da biblioteca dedicada aos “primeiros romances”, ele olha ainda os álbuns (fruto de alguns que leu antes, quando era bem pequeno), histórias de lobos principalmente. Então vou mostrando a ele o tipo de história que ele poderá ler com a sua independência. A escola passa livros da coleção “J’aime lire”, o que ele acha sempre muito divertido. Induzido por Um barril de risadas, um vale de lágrimas, ele começa Les belles lisses poires du prince de Motordu, que garantem sempre gargalhadas dos chistes e confissões de amores já presentes. Basicamente, o jogo infindável com as palavras trocadas, com o chiste e o trocadilho constituem o que já existe aqui como um sujeito, cheio de desejos e espaços vazios. Depois, as enciclopédias sobre espaço sideral, sobre animais, até encontrar a melhor de todas Un jour dans la vie d’un prout, d’un paresseux et d’une banane. O fascínio pela compreensão das coisas vem no momento em que ele passa a gostar dos quadrinhos, talvez justamente por conta desse livro que faz o duplo gesto entre informar seriamente sobre o funcionamento das coisas e ter uma forma de bande dessinée, de montar uma história e fazer-se documentário de seu fascínio pelos minerais, pela terra, pelo microscópico, mas também pelas grandes batalhas galácticas. O quadrinho tornou-se para ele a leitura silenciosa, entrecortada por risadas, em que os olhos acompanham texto-e-imagem, num movimento próprio à imersão. Isso é tão eficaz que ele consegue dormir sem a presença de alguém (o último dos desafios que ainda não tinha conseguido superar) para poder ler. Então temos um novo acordo: ele lê sozinho uma noite, na outra leio pra ele. Às vezes, leio pra ele e para o cachorro, que houve as histórias de seus ancestrais como se compreendesse tudo. E no dia seguinte, eles vão ao parque, às vezes o parque é permitido apenas às crianças e o cachorro fica do lado de fora, vigiando atentamente o que acontece entre os gritos delas; outras vezes, ele pode entrar ou meu filho entra no espaço canino, e o jogo de bola e de se deixar pegar vira um modo de continuar o que vem de outro lugar. 

Em algum momento, tomei por certo de que todas as leituras que tinha feito seriam esquecidas, em algum momento. Soube, dentro desse esquecimento que algo como um fato não poderia se sustentar mais como garantidor do passado. Vivemos assombrados por todos os espectros e não apenas de nossos mortos ditos reais, ancorados em nosso vivido, mas por todos os mortos que estão nas prateleiras de livros, esperando por uma ressurreição (a única comprovadamente possível). É mais ou menos assim que Hélène Cixous propõe a palavra-valise “oublire”. Num só deslocamento entre o “i” e o “e”, os verbos oublier (esquecer) e lire (ler) se fundem irreparavelmente: “esqueler”. Ler implica sempre um ato de esquecimento necessário, mesmo daquilo que lemos inúmeras vezes. Ressuscitamos os livros, esquecendo-os e, em seguida, tomando-os sobre nós novamente. A inespecificidade da literatura depende disso também. Ela não é apenas construída por um texto que se autorregula, mas um texto exigente que coloca em questão a própria existência — dele e do mundo; dele e do ser que o lê/escreve. Esquecer-se entra aí na zona turva de onde surgiria a pergunta pelo “o quê” da literatura, ou seja, pelo seu objeto e por seu fim. Como diz Derrida, seus rastros metafísicos e institucionais sempre estão ali resistindo, mas, eu acrescentaria, algo nessa resistência resiste a resistir. Nessa resistência tanto potencial quanto passiva, circundam todas as questões que a literatura não cessa de não responder: a verdade, o ser, o tempo, o sentido. Assim nunca são os fatos que importam ou que constituem a memória, o passado, mas o “o que fazer” com os restos dos fatos quando eles se passaram. Não se trata portanto de negar a existência de fatos, não entramos ainda na discussão aristotélica entre história e filosofia. Antes, os fatos acontecem, e se acontecem eles devem ter um lugar de excepcionalidade imprevista, incalculável, mas deles só nos resta escombros duma escrita arruinada pelo que se inscreveu no corpo. Então esquecemos, e esquecemos até sangrar — dos grandes aprendizados que fiz em análise — para escrever e reler; para que um texto que nos espera (ou nos re-espera) possa se rearticular entre as inscrições e o que ficou impedido, rejeitado, renegado. Isso me fez descobrir que sou como esses autores para quem a literatura é mais interessante do que o mundo, e não por desprezo pelo mundo, mas por fazer dele algo que está nele apenas pela literatura. Marcel, Édouard, Frédéric, Stephen, GH, Riobaldo, e mesmo os nomes próprios mais próximos de uma vida na realidade como Derrida, Proust, Barthes, Lispector, Gide, Ditlevsen, Kafka, Pizarnik, formam minha rede mais constante e poderosa do que jamais chamei de amizade e, por que não, amor?

Assim, o que se passa nessa troca de leituras, que vai de filho a pai? Diria talvez uma pequena história da infância, com uma argamassa rebatida e, no entanto, nova. Diria, com algum receio talvez, que o mundo se refaz dentro disso que fica ausente até o próximo livro, a próxima noite em que seremos habitados de garotos que não crescem, de estradas de ouro, de um rio que é maior que a própria história, da chegada dum velho lobo do mar, do fundo do oceano, dum urso de pelúcia que ganha vida, duma floresta povoada de monstros dentro do quarto de um menino.

Comecei a preparar um seminário sobre interpretação, sobrevivência e desconstrução — assunto dos mais sérios e adulto que só ele — em que toda a questão da leitura vem ligada a uma angústia da delicadeza. Claro, com todos aqueles teóricos que fazem o óbvio não estar garantido. No entanto, não posso dizer que não tenha aprendido tudo dessa proposta senão a partir dessa experiência: ler, ter lido, ter sido lido — por alguém. 


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