Acontecer, essa alegria precária

Há uns dias vi pela primeira vez Le rayon vert, de Éric Rohmer — às vezes é assim, um filme, um texto, um bilhete pode levar quase trinta anos pra chegar. A lentidão das não-decisões de Delphine, personagem central do filme, vão em par com sua melancolia desesperada, com sua solidão irremexida. Ela procura, como se tudo fosse cair em seu colo, pelo momento especial, por um momento que seja marcante o suficiente para dar valor ao que sente. Sua verdade está, portanto, nesse ponto erigido por um saber espetacular. Daí a metáfora do brilho verde. Esse fenômeno atmosférico do pôr-do-sol precisa que o céu esteja inteiramente limpo, sem obstáculos, e com isso um raio esverdeado surge justamente no momento em que há a saída de cena do sol. Rohmer trabalha, no entanto, por ironia. No primeiro momento em que aparece a expressão durante o filme, ele precisa desviar a câmera de seu foco constante sobre Delphine, de sua insistência nessa figura do desespero, para um grupo de idosos diante da praia que conversam, sem grandes propósitos, justamente sobre esse fenômeno ótico. Ficamos então esperando que o diretor vá conseguir filmar esse breve momento que comporia a vida da personagem e daria assim uma realização a seus anseios para fora da solidão. 

Há mais ou menos dois meses, o Alberto Pucheu lançou o seu novo documentário da série Autobiografias poético-políticas, um conjunto de filmes que rearranjam poetas da poesia brasileira contemporânea em seus espaços, em sua força de diferença, ali onde eles suplantam o habitus que uma certa crítica literária poderia enquadrá-los, reapropriá-los. O projeto, em si, tem essa outra dimensão: partindo de um trabalho que pode ser feito na universidade, ele vai muito além dela; isto é, Pucheu, como sempre o fez mesmo quando publica textos no sentido mais tradicional do termo (palavras impressas numa folha ou dispostas numa tela para ler), escreve esse outro lugar da fronteira, vale-se de todas as potencialidades da escrita para dizer com a poesia e não sobre ela. Então, não há que se esperar apenas um documentário em que os/as poetas deem seus testemunhos, ou que, a partir dessas falas alguma verdade crítica surja sobre essas obras. Pucheu oferece uma abertura à poesia, essa coisa que nunca está acabada, nunca é, precisamente, uma “obra”, mas algo em que se trabalha, incessantemente. Assim, ele nos empurra, gentilmente como é de seu modo sempre, horas de poesia e em que a poesia fala para além de todo ego inflado das críticas ou mesmo das autorias. 

Desta vez ele escreve com Moises Alves e seu Mangue. A poesia do Moises já tinha chegado à minha vida anos antes. Ele mesmo me enviou alguns de seus livros, que chegaram pelos correios e eu fui lendo e lendo com alunos/as, e montando uma visão do que viria a ser seu impacto sobre meus afetos. Já devo ter dito algumas vezes, mas nunca é demais repetir, não leio senão para ser remanejado, ter a vida tocada por textos e personagens e realidades; minha vida é um amontoado de frases roubadas que ressoam no meu corpo — e, por isso, há sempre muito risco numa leitura, há sempre o risco de que a incorporação exceda minha própria economia, já hiper-inflacionada, hiper-endividada. Eu lia, até Mangue, o Moises como o poeta que ficava ali pra mim na minha caixinha de pasolinianos, mas com um quê que só se encontra no Roberto Corrêa dos Santos. Isso queria dizer pra mim que sua poesia ia em direção a essa vida violenta não pela violência dos outros, mas justamente por isso que chega, que vem, que arrebata de vitalidade desesperada. O Mangue deu um outro contorno. Lá em 2022, fui dar um curso de pós-graduação sobre poesia e acontecimento e coloquei o livro do Moises, junto com o Midwinter, de Bernadette Mayer, para falar do corte. Daí hoje vejo o filme do Pucheu com ele. E vem justamente essa teoria do Moises sobre o acontecimento como aquilo que vem para mostrar a força que a vida tem. Ele está falando de como a materialidade dos seus poemas chegam a partir da morte da mãe e constrói essa afirmação sobre o acontecer das coisas no inesperado de seus efeitos e afetos. Daí a importância do agradecimento sobre uma vida, de poder ter vivido sendo filho daquela mãe, dessa instância que se faz numa frase intraduzível como “minha mãe”. Na forma que o filme é construído esse pronome possessivo torna-se um pronome adjetivo. Dito de outro modo, da posse da mãe, Pucheu/Moises faz(em) um atributo aos textos que são ditos para fazer surgir essa impossibilidade de clausura. Diante da casa em que Moises nasceu, numa encruzilhada, surge a vida dedicada a Exu, que permite todas as movências, que faz da vida uma abertura. Diante da perda da mãe, as existências, sempre plurais, ganham essa fragilidade que nunca é triste. Diante da mão do pai, dessa que lhe dá um tapa na cara, a poesia que nasce desde esse gesto. Algo que aqui ultrapassa, que é um ultrapássaro do acontecimento.

O filme capta, assim, aquele “outro lance”, de que Moises fala no finalzinho, referindo-se aos ventos vindos de todas as Áfricas. Outro lance, porque se dá a mais um lance. Sempre outro. O que diz esse filme é justamente que vivemos numa “alegria precária” e que disso depende a “poesia solar” que pode salvar e saudar um corpo. Ao final, Pucheu filma o pôr-do-sol, como Rohmer. É o céu da Bahia e há muitas nuvens produzindo todos os obstáculos, como é a própria vida. Não há possibilidade de que surja talvez um brilho verde. E, no entanto, eu espero. Talvez porque estava muito recente minha experiência com Rohmer, talvez porque sempre espere acontecer algo impossível. De todo modo, esse filme faz acontecer essa alegria precária e ela salva a rua que se abre aqui. 


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