Sobre um dos mais tristes versos

Neruda escreveu, no meio de um poema de amor, um exemplo de frase tristíssima: «La noche está estrellada, / y tiritan, azules, los astros, a lo lejos». Trata-se de um jogo entre potência e ato, entre o que pode a poesia e o poeta e aquilo que ele de fato faz. O poema, muito famoso, começa justamente com “posso escrever…”. E nisso que dará movimento ao poema, aquele eu abre-se num paradigma do que seria um verso triste. Primeiro, interessa compreender como ele instala os afetos. Quem pode escrever? Por que os mais tristes? O que há nesta noite? O verso exemplar não diz de modo direto, o que dirá depois o poema — é a noite em que a parceira já não está mais, a marca de sua ausência, o último verso que poderá escrever nessa direção. Mas percebam, a noite é reiterada e temos então duas noites: de um lado, a noite das possibilidades, aquela em que vive o poeta efetivamente, aquela em que ele pode escrever porque há um saber sobre a tristeza; de outro, temos a noite do verso dentro dos demais versos, de um “hiperverso”, se posso dizer assim, essa noite que é um evento e que não significa apenas uma observação do céu, mas um ato poético. Se tomamos o verso que ele diz ser o mais triste, o que temos? Ora, uma descrição quase que direta de uma noite estrelada. Nada demais, não é? Poderíamos nos apressar, como quase todos os leitores, e dizer que ele está melancólico porque olha o céu, perdeu alguém, mas isso é tolo dizer. Há algo na frase que serve de exemplo do verso mais triste. Percebam como a noite vai se desfazendo diante de nós. A primeira oração afirma o caráter estrelado da noite, dizendo-a de modo completo e direto. O verso seguinte, no entanto, quebra essa afirmação num jogo belíssimo de vírgula e conjunção. O segundo verbo (“tiritan”) faz justamente tremer a estrutura. Ele está alçado e topicalizado e dista de seu sujeito duas posições. Não se trata de estrelas azuis que tremem à distância. Mas de um tremor da cor, dos astros, da distância. O segundo verso faz tremer e brilhar portanto o primeiro. A noite passa então de meramente estrelada para uma noite desesperada pela distância. Poderia dizer que o que ocorre seria então um desastre. Não apenas a sintaxe é estranha aqui, mas também essa imagem de “astros azuis” ou de “tremer azul”. No fundo entre astros e tremer há uma analogia justamente construída por esse azul. Eles se aproximam a tal ponto que não podemos ver os astros senão tremendo à distância. Dito de outro modo, Neruda só pode ver a pessoa a quem escreveu esses versos à distância e num tremor. A duríssima constatação dessa distância está na natureza triste dessa noite e desses versos. Como em “Dans le noir du temps”, de Godard, o que vemos já está há muito morto? Não é que o azul seja uma cor triste, como apressados diriam, mas que o azul pode operar a ponte entre “está” > “estrellada” > “azules” > “astros” > “lejos”. Essa transformação de /e/ e /a/ num buraco (inclusive iconizado pelo /o/ final) de distância onde nem mesmo uma afirmação, uma constatação possa estar garantida. Então, sim, o verso de Neruda é dos mais tristes e talvez mais triste que a própria noite, que o próprio abandono, que a própria melancolia. Ele suporta em seu des-astroso efeito algo que está há muito morrendo.

Por certo, vocês já ouviram o poema de Dylan Thomas: “Do not go gentle into that good night, / Old age should burn and rave at close of day; / Rage, rage against the dying of the light.” A despeito da beleza estonteante desse poema, ele é uma autoevidência teórica da noite e da luz do dia se comparado ao poema de Neruda. Claro que ele opera de modo diferente, e sua força está justamente nesse outro lugar que ele nos oferece, mas não podemos dizer que há nele uma tristeza. A ira contra a morte da luz reconfigura a ideia de velhice, de lutar contra a perda da juventude, tudo o que ainda queima. Por mais que o poema force um imperativo “não entre gentilmente na boa noite”, como se devêssemos sempre ser possuídos por essa Mênis contrária ao apagar-se, ele se mantém no ponto cego (aliás, referido no próprio poema) do que pode uma vida, uma noite. Sua noite gentil difere daquela estrelada e esfacelada. Neruda nos esfacela enquanto Thomas nos é gentilíssimo. Este quer a ira contra sua própria gentileza? Contra o poema, por certo. Já Neruda quer que nos quebremos todos por ter “amado seus grandes olhos fixos”. Neruda nos diz: nada é fixo, veja, tudo se move e se desfaz. Mais no meio do poema aparece o verso “La noche está estrellada y ella no está conmigo”. Percebem a construção. Agora, duas constatações e nenhum performativo. Mas isso é um poema então “ela não está comigo” equivale a “tremem, azuis, os astros, à distância”. Quatro elementos que se misturam e reordenam a realidade num movimento caótico. Esse corpo que treme, essa cor que precede o objeto (astro), essa distância que a tudo mutila. Não se trata simplesmente de saber o que é triste, mas de vivê-lo numa frase. E a tristeza vem dessas coisas que vamos perdendo diante de nossos olhos, dos brilhos mais luminosos que já explodiram e que nos fazem tremer.

Então, sim, podemos aprender até a tristeza com um verso. Ela não é apenas um dado elementar da natureza. Ela faz um furo quando podemos dizê-la. A tristeza é uma experiência, logo, um movimento de partilha em que solidão e palavra formam um paradoxo. Só aí a lágrima, a angústia, a fraqueza do corpo, passa a dar suporte ao que seria despedaçar-se pela distância do outro, pela noite incansavelmente não gentil. Se aprendo a viver melancolicamente desde a idade mais jovem (e por isso Thomas é tão pueril), isso só pôde fazer sentido no meu corpo, sem que eu o destruísse, com esse tremor, azul, dos astros, à distância. Nesse sentido, o poema nos faz sobreviver.


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