SETE POEMAS CIENTÍFICOS

1

LIÇÃO DE GRAVITAÇÃO UNIVERSAL

A simulação da gravidade
nas massas que rodeiam
as estrelas é feita com uma
bola de metal lançada
a uma certa altura e velocidade
pelo dedo de uma criança.

Sem que falte nada, a bola
repete os movimentos de
rotação e translação,
dançando pela mesa
lustrada de azul e preto.

No aparato, no entanto, não há
sol ou uma outra grande massa
que exerça sua força de atração.
Um buraco sem luz se impõe
aos olhos dos meninos,
enquanto a bola metálica
converge para o seu fim de bilhar.

2

COMPORTAMENTO POPULACIONAL

Para descrever o movimento
das multidões, usa-se uma
tela de acrílico iluminada,
repartida por fitas pretas,
formando quadrados. Nelas,
dispõe-se a afluência de
corpos plásticos de playmobil,
colados para demarcar
a densidade.

De todas as peças no lugar,
observar o deslocamento
de quem navega por ali:
sempre os mesmos, as colunas
repousam sobre as ancas,
como se fôssemos pássaros
em boid ou a única metade
dos bonecos que se dobram
ao meio.

3

NÃO DITO

Passei a vida toda ensinando
os mistérios das sílabas,
os fonemas em contraste
e atração, a disposição
duma sintaxe inalterável.
Muitos nunca acreditaram,
e nem mesmo naquele
linguista suíço que descreveu
os anagramas. Muitos,
olhando de soslaio,
diziam: tá doido, o prof.

Então, coloca-se uma criança,
diante de uma máquina
que registra quatro frases,
ditas por ela. Frases naturais,
simples, cotidianas. Frases
que qualquer pessoa diria.
A máquina rearranja sílaba
a sílaba
e forma uma nova frase,
irônica, você escuta,
eu posso imitar a sua voz
.
Na hora em que ouço a voz
do meu filho, dizendo o que
não tinha dito, penso
em português diríamos,
“vê”, “veja”, eu posso te imitar
.

A simulação tem um objetivo
prático, diz o instrumento:
pegar poucas frases ditas
por Simone Hérault,
e recombiná-las em todas
as estações de trem, sob
circunstâncias diversas,
para anunciar a partida
e a chegada, os atrasos
e o ritmo de quem, em si,
viaja.

4

CHAOTEUR

É crença generalizada na poesia
que o acaso pode ser controlado;
pelo número sete, por exemplo.
Na linha base da entropia, o verso
exibe sua lei nua por onde
o imprevisto pode circular a cada
dez segundos.
Tomam-se então três ímãs, dispostos
em triângulo sob um pêndulo.
Lança-se o pêndulo e liga-se
em seguida um receptor de
movimentos que desenha,
ao mesmo tempo, numa tela,
o traçado pendular. Nenhuma
figura previsível sai dali.
Antes, um captador de caos.

5

FORÇA DE CORIOLIS

Duas crianças dentro de um carrossel
seguram uma bola cada.
Linhas traçadas no chão indicam
que movimentos elas devem
realizar enquanto a máquina
gira a uma velocidade constante.
A cada vez, tudo pende à direita.
Estamos no hemisfério norte.
Do lado de fora, braços e pernas
movem-se em linha reta, tudo
ocorre como se nenhuma inércia
estivesse se produzindo.

Quando conto uma história, dá-se
o mesmo.

6

TORO

Dispostas sobre a mesa,
figuras topológicas semelhantes
devem ser diferidas ao toque
das crianças.

Diante duma esfera, qual
a figura é a intrusa? Toco
no toro e a maquinaria
responde à intrusão.

Passar o dedo sobre o vazio,
ali onde a palavra faz um
corte e a volta repetitiva,
demanda.

7

A PICTURE OF GOOD HEALTH

Ao fim, mãos dadas com o menino,
vejo um cartaz que retrata, sem
medo do erro, por grupos e cores
as zonas cerebrais responsáveis
por cada ação e afetos humanos.
Duas delas me chamam a atenção.
Uma parte denominada “animal”,
rodeando a orelha, guarda aspectos
como nutrição, combate, capacidade
de manter algo em segredo e
o poder destrutivo, colado à hélice
da orelha. A outra, indistinta, fora
das cores e próxima às “perspectivas”,
está a linguagem, quase entre
ordem e cálculo, abaixo dos olhos.
Peguei uma cópia do cartaz
para levar para casa. O papel em
tecido italiano me fascinou tanto
quanto a ironia da imagem.
Ao fim, mãos dadas com o menino,
ele quis uma cápsula plástica
imitando uma estação espacial.
Julguei que a imitação, pertencendo
à “moral” segundo o cartaz, fosse
mais importante que o deleite
do pai. Abandonei o cartaz e passei
no caixa para que ele saísse
pulando com a ideia de que habitará
uma lua de Júpiter durante algumas
noites de primavera.


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