Penso esse título antes de escrever o texto. Penso-o porque todo texto é o que vem depois de algo — do título, sem dúvida, mas sobretudo de que tenha acontecido algo. Ele é sempre objeto de uma ação. Nesse sentido, um texto é sempre ter vivido e não apenas que ele encene ou represente uma experiência. Antes, em sua pobreza de realidade, um texto pode dar sustentação a quem lê ou escreve para uma sobrevivência. Por isso, sempre se escreve depois. Depois do quê? Ora, isso precisa ser imaginado por cada um, a cada vez. A questão é que um texto faz viver depois de… No meu caso, escrever tem a ver com estar vivo e se trata sempre de viver depois de. A vida que defino aqui não é, nem de perto, o mero passar de dias intermináveis diante de uma burocracia, ou tentando fazer com que as pessoas me notem (por algum resto narcísico que consuma ainda minha relação autocentrada). A vida, essa imanência, se dispõe em todas as suas aberrações e aberturas. Ali, onde ela parece se fechar, há um modo de mostrar que ela permanece impensável. Como propôs Canguilhem, certa vez, a vida é impensável cientificamente porque estamos dentro dela, não há retirada objetiva, não há modo de tomá-la à distância, num microscópio e definir: aqui está a vida. Toda vida assim é uma sobrevida. Algo a sobrevive. E se dissesse essa frase de outro modo, teria de recorrer a uma espécie de tautologia: algo sobrevive a vida, à vida; ou algo sobre a vida sobre-vive; ou a vida sobrevive à vida; ou dizer sobre a vida é colocá-la numa sobre-vida. Muitas são as voltas, mas nunca foi simples viver. Viver sempre se coloca numa vida qualquer, mais ou menos assim Deleuze tinha formulado. Qual a singularidade que se colocou numa vida, na minha, por exemplo? Poderia dizer ao menos dois instantes para ensaiar uma resposta, que uso como empreitada empírica. De um lado, houve Marcel Proust; do outro, a depressão. Não sei bem quem veio primeiro. Com diagnóstico, a última me imobilizou por alguns anos e deixou sequelas que ainda não estão claras. Por isso, ela é posterior à entrada de Proust na minha vida. Mas suspeito que tenha sido, ao menos desde os 8 anos de idade, um sujeito que sempre teve de lidar com essa doença. Não existia esse nome para mim, para minha família. O que havia como possibilidade era machucar-se fisicamente, e sentir muito medo, muita angústia (palavra que também não aparecia). Lembro de uma infância um tanto gloriosa anterior aos 8 anos. Eu era extremamente extrovertido, odiava roupas, vivia de fazer piadas e fui uma peste. Depois disso, um imenso buraco. Um furo na existência, que tornou-se uma marca da minha eterna melancolia. Salto alguns anos. E Proust aparece. Estou no primeiro ano de Letras. Meu pai vem do Rio com a edição Quarto da Recherche. Eu fui lendo aquilo lentamente, e vendo desfilar tudo o que seria também eu. Algo ali me foi irremediável e é ainda hoje. Outro dia, numa sessão de análise, estava me lembrando daquela sentença de “Le Côté de Guermantes” em que o narrador diz: “La vie en se retirant venait d’emporter les désillusions de la vie” [A vida se retirando acabava de carregar as desilusões da vida]. É isso, a vida em dois polos de diferença, a vida sem desilusão, aquela que se retira. Salto mais alguns anos, crise depressiva: fico sem trabalhar um ano, tento me matar, não consigo mais escrever para a academia, apago todos os meus arquivos, tenho pavores de entrar em casa, sou super-medicado. A vida, aquela que se retira. A forma que encontrei para tentar esse outro nó? Escrevi sem pensar em nada mais além de escrever. Mas essa escrita já não era mais a anterior, cheia das mil técnicas para que eu pudesse permanecer na escuridão. É uma escrita que usa toda a técnica para tentar sobreviver. Estendo os versos, largo as pontuações, estudo incansavelmente o verso dramático, reduzo ao máximo a metafísica, uma pluralidade de vozes aparece (muitas das quais nem sem de onde brotaram, mas que sempre estiveram aqui), reduzo o foco dos meus olhos míopes na medida do que eles podem ver, ou seja, escrevo sobre o que está muito próximo de mim. São textos sobre viver depois [de uma depressão], ou [de uma perda]. Não os escrevo para ser sincero, para que haja neles alguma genuína marca de sofrimento, para me confessar, nem muito menos para me derramar nos lirismos. Antes eles são um modo de sustentar, portar e rir. São também o elo que fazia falta, uma política de paisagem. É muito difícil saber o que virá depois desse “depois”. A vida que se retira. Ela é sempre menos iludida. Há uma vida sem desilusão. Nem toda desilusão dá uma dança, como sugeriu uma vez Paulinho da Viola. Se usarmos um tanto de lógica semântica, uma vida sem desilusão é uma vida com ilusão. Resta saber qual a ilusão que sustenta essa vida que se retira? Em mim, isso aprendi com muito trabalho, a vida sempre quer se retirar. Basta saber qual o modo desse retraimento, dessa separação, desse recolhimento, dessa supressão. Pode ser que numa noite eu me salve lendo um romance. No meio da tarde, escrevendo um texto. Durante uma manhã, caminhando 11 km sem olhar pra trás. Pode ser que uma pulsão mortal sobrevenha. Não há garantia. Quer dizer, tento pensar sempre em como será sobreviver depois disso. O fato é que sobrevivemos. E sobreviver implica que cada cena que vivi será colocada nessa outra cena (da escrita) como uma forma de compreender como uma vida se retira, como alguém retira a vida. Como alguém que foi desiludido por um médico, a literatura tem essa função de encerrar, com uma verdade demasiadamente flagrante, a ilusão da realidade e, de um lado, propor outros sistemas simbólicos, e de outro, confrontar a nossa experiência com sua indigência, com algo que não tem sequer palavra. Nem sempre a literatura salva. Se nos perguntamos a cada dia sobre viver depois de…, qual a resposta que seria a mais viável? Aprendi com isso não temer as contingências, de manter a vida em seu estado de imanência, para de novo pensar com Deleuze, e agora citando diretamente: “A vida de tal individualidade se apaga em favor da vida singular imanente a um homem que não tem mais nome, embora ele não se confunda com nenhum outro”. Chegar a esse ponto! A vida deve ser precisa, até que deixa de ser. Para que esse valor exista, e sim de certo modo a axiologia entra aqui, é preciso mais do que escrever, andar, ler. Então, o que significa viver depois de? Sobreviver depois de? Não uma vida depois da morte, porque esse é o puro contrassenso — da morte nenhuma vida pode vir, a morte é o limite último de si mesma. Começo a perceber que tem a ver com continuar e descontinuar, com nunca saber. Depois de uma situação traumática, o que quer dizer viver? Sobrevive-se. Ou como disse melhor Neige Sinno: fazemos parte dessa comunidade de seres irremediavelmente quebrados, fracassados, destroçados, partidos. Não há volta e, assim, não temos todas as escolhas diante de nós. Impossível tomar uma decisão que não vá na direção do outro. Priorizar a vida, depois de, é rearranjar-se não diante dos figos mais altos das árvores, mas naqueles que podem nutrir a todos, numa rede em que ninguém está excluído. Se a vida deve ser uma imanência, a individualidade deve apagar seu nome, por uma singular incorporação do vivível. Tento sempre ir nessa direção, tento acontecer ao outro. Quase nunca funciona, porque o outro é sempre marcado por uma violência. Poucos darão a você a fiabilidade necessária da entrega. Poucos permanecerão. A maior parte das vezes você não poderá ser o figo na escolha. E tudo bem? Não, não fica tudo bem, mas se aprende sobre a vida, sobre como ela se retira. Mas num determinado dia, o sol faz seu papel: marca o tempo, imprime o que ficará, de modo muito concreto. Sua pele volta a se queimar, tudo volta a queimar. Esquecemos que pode ser breve. Muito breve, como um Macbeth estúpido, louco de amor.
Descubra mais sobre pierœyben
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.