Um dia aprendi que não acreditava em deus. E esse dia foi dos mais duros e graves da minha pequena existência. Aprendi, antes disso, com cada religião que tentei antes de não acreditar em nada, que não havia nada ali sorrindo para mim, dizendo que o mundo tinha uma ordem além do acaso. Eu tinha 12 anos. No dia em que aprendi que não acreditava mais em deus, eu comecei a escrever. O meu deus era católico e tinha quantas chagas fossem possíveis e quanto perdão coubesse no fim do mundo. Mas ele não existia mais para mim. Confessei isso primeiro a minha catequista, depois ao padre da igreja da quadra 8 de Sobradinho. Eles não eram dotados de algo que eu precisava para “seguir na fé”, como diziam as gentes da minha cidade. Deus foi perdendo espaço para a minha generosidade. Eu fui ficando mais e mais atencioso com as pessoas. Quando eu aprendi que deus não existia, eu aprendi a escutar os outros e a olhá-los. Fiz meditação, tentei acreditar em tudo, porque o mundo sem uma crença era horroroso demais pra mim, que via o sacrário como o corpo comunal de deus. Não foi possível, deus desapareceu da minha vida, como um raio furtivo. Então escrevi. Escrevi tanto que nunca mais pude parar. Escrevia escondido, até que as folhas foram formando caixas e já não era mais possível esconder. Quando saí de casa, e minha mãe estava arrumando as tralhas da minha infância, ela achou os papéis, os diários. Eu fui até a casa dela, reuni tudo e taquei fogo. Me senti muito bem naquele dia, os disquetes de computador queimando seu plástico e minhas primeiras palavras. Eu troquei a Bíblia por Alberto Caeiro. Ele me ensinou encontrar uma paz para escrever sem nenhuma outra pretensão. E a olhar o mundo justo, com seus minúsculos ruídos. Podem dizer que troquei de fé, e acredito na poesia? Essa conclusão é muito precipitada e tola. Nada disso faz sentido. A poesia é meu modo de existência. E falo com cada sílaba como outros pedem pão. Não há nada que exerça mais efeitos e afetos sobre meu corpo do que essa disjunção diante da linguagem, em poder dizer: “Mas eu fico triste como um pôr do Sol / Para a nossa imaginação, / Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite entrada / Como uma borboleta pela janela.” O que é estar triste como um pôr do sol para a imaginação? Eu posso passar a vida toda nesses versos e a única conclusão verdadeira deles é que eles existem e são o porquê da linguagem, da respiração, de continuar vivo. Caeiro diz ainda pouco mais à frente que é a poesia a sua maneira de estar sozinho. Sozinho e cheio de “comos”, de cômodos para colocar essa passagem do tempo (do sol à noite) num espaço (a planície, a janela). Qual o movimento da borboleta na janela? O que ele rumoreja? Como o raio solar refletido pela lua? Como a chegada silenciosa do crepúsculo, entrar a noite e ainda não deixar que a borboleta entre? Esse som inaudito, onde encontrar? Por certo não encontro em outro canto da realidade. A poesia é a própria realidade, já que ela tem não apenas materialidade, mas extensão de rastros num tempo que não é nunca o apenas presente. Quando Caeiro diz que a noite entra como uma borboleta pela janela, há de se levar a sério que uma borboleta (marcadamente indefinida) entrou pela janela (definida, vista pelo enunciador) e isso é a noite (marcadamente definida) que entra depois de sair o sol. Que noite é essa? Ora, a noite como argumento de uma predicação que só pode existir nesse verso e não em outro. Não é sabido desde sempre que a borboleta e a noite têm algo em comum, é Caeiro quem inventa essa mirabolante forma de viver. Não é uma mariposa qualquer, mas uma réstia de dia conservada na borboleta. É isso estar sozinho. Viver essa imagem, essa atribuição, como real. A tristeza crepuscular é então rebaixada, não é apenas o eu que “fica triste”, ele aprende a tristeza com o pôr do sol. E com a imaginação que guardamos dele. Imaginar é manter-se na antecâmara do entendimento. (Sim, antes de desistir dos deuses, fui kantiano por muitos anos). A poesia ensina que é preciso escrever. Não sei dizer isso de outro modo. Não sei quem precede quem. Sei que aos doze anos, uma criança pode ter uma experiência que pode ser determinante. E ela pode custar muito caro num mundo como o nosso. Eu ainda tenho inúmeros dilemas sobre se estou ou não existindo quando estou acompanhado da poesia. E mesmo que saiba (e ensine isso) que esse foi meu nó, minha forma de fazer mais um laço ali onde havia um erro na minha realidade, é difícil afirmar que sobreviverei.
Hoje visitei o cemitério Montparnasse. Passei silenciosamente entre diversos túmulos de gente que eu conheço muito. Pessoas que são minhas amigas mesmo que nunca tenhamos nos encontrado no que todo mundo acredita ser a realidade. Mas eu sou muito mais próximo de Baudelaire ou Duras do que quase todo mundo que eu conheço, podem acreditar! Quando fui passando diante daquelas tumbas, senti uma alfinetada no peito, um luto estranho, como essa tristeza do pôr do sol. Ver a oliveira sobre o túmulo de Castoriadis, as pedras sobre Sontag ou as inscrições sobre Axelos, a carta de tarô (o sol, diga-se) sobre Baudelaire, são agora estilhaços da minha experiência. Eu podia ouvir as vozes. Elas continuam ali e aqui. E isso nada tem a ver com uma transcendência mística. O dia em que deus deixou de viver pra mim foi há trinta anos! Essas vozes estavam ali escritas e continuam no meu corpo. Notei, quando saí do cemitério, que eu estava andando na ponta do pés, como faço à noite quando meu filho está dormindo. Notei, alguns passos depois, ao acender o último cigarro do meu maço, que a minha tristeza tinha se dissipado — e eu estava muito triste! Conversar com os mortos não era nem de perto algo que eu pensasse ser possível. Já conversei uma só vez antes, com meu pai, e não tinha surtido esse efeito. Mas entre essa gente que vi, ouvindo, me fez saber algo sobre a continuidade, sobre a linha que sustenta esse limite muito frágil. Algo sobrevive. Perto do metrô Raspail, que tomei pra voltar para casa, não tinha uma borboleta, mas pequenas ficárias amarelas, bem rentes ao chão. Nos olhamos como duas conhecidas (um dia antes as vi aos montes no Bois de Vincennes). E pensei em como são alegres as ficárias, quando o tempo quase esquenta no início da primavera.
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