Os tênis de Derrida

Quando alguém do Sul global que escreve vai em direção ao norte, há sempre algo de incômodo, desarranjado, fora do lugar. Não sem motivos, a colonialidade está sempre ali, e não latente, mas formalmente efetiva, inscrita na realidade. Não preciso aqui desenvolver isso teoricamente, rendendo-me a essa atividade que parece ser das mais “ocidentais”. São ressentimentos, abalos comovidos, sensações. Talvez isso fique muito evidente em quem escreve numa língua que será sempre a do sul global, que mesmo vinda de um contexto europeu, nunca chegará a esse lugar que é o do domínio imperialista. Talvez isso aconteça porque nos deslizamos entre o francês e o português no cotidiano, mas agora englobados pelos hábitos, na rua, daquela língua. Talvez porque haja sempre um modo de nos colocarmos entre as identidades que nos são impostas. A mim, por exemplo, coube a de professor e pai. Não que eu não as seja, sou. Mas não só e sobretudo não principalmente. Eu escrevo mais do que sou esses dois Ps. Aliás, escrevo um outro P, para poesia. E exerço um outro P, que é também um modo de existir, a psicanálise. Como fugir então dessa história que é a “ocidental”, a da Grécia, em que um nome fazia equivaler a um destino. O meu destino estava nas pedras, para quem desconhece a etimologia do meu nome; mas principalmente a ser um pastor de musas minorado, mas também o primeiro a escrever um louvor a elas, Πίερος, que faz ali seu reino macedônico. É toda uma história portar esse nome. De um lado, no Brasil, eu fui durante anos importunado na escola com todos os nomes que terminassem em -eiro (chuveiro, caminhoneiro, lixeiro, dinheiro, pinheiro), depois na vida adulta, sempre tendo que soletrar. Por outro, quando estou por aqui, sou o indiferentemente “Pierrot”, como o personagem italiano, muito lunar e desajeitado. De todo modo, parece que há uma continuidade quase psicotizada na minha história com os Ps do meu nome naquilo que faço da vida. 

Cheguei há pouco na França. É a terceira vez que morarei aqui por um tempo mais longo. Nas outras duas vezes, habitei o 13ème Arrondissement de Paris. Um bairro entre as aspirações boêmias e a comunidade de vila, onde se pode conhecer o padeiro e todo mundo se cumprimenta. Meu primeiro endereço foi quase um clichê de poeta que vem para Paris: 8 Place Paul Verlaine. Depois descendo um pouco mais no bairro, fui morar na encruzilhada do lado chinês, no 7 rue Aumont. Dessa vez, moramos no 20ème arrondissement. É uma outra Paris. Muito mais movimentada, popular e multilíngue. Nunca morei tão perto de um metrô ou mesmo de todas as redes de supermercado que existem nesse país. Semana passada comecei a ler “Regarde les lumières mon amour”, de Annie Ernaux. Encontrei o livro usado por 3,80€. Nele, a autora faz um diário de suas idas ao Auchan, hipermercado que ela frequenta num shopping center de sua periferia. Não por acaso, terminei de escrever há alguns meses um livro que diz respeito a hipermercados. Não por acaso, há um Auchan perto de casa. Não por acaso, sonhei ontem mesmo com essa ideia que é escrever desde o mais ordinário. Numa quinta-feira, dia 14 de março, ela escreve: “Acabo de ser colocada em meu lugar por não ter pensado no dela”. A situação é a da caixa do supermercado que deve controlar se todos os artigos foram colocados na esteira para ser escaneados. Ernaux tem uma edição de jornal no carrinho, que comprou em outro lugar, a caixa diz que ela deveria ter colocado artigos comprados em outros lugares num saco plástico, porque caso haja um controle, quem será responsabilizada será a caixa. Essa frase tão simples, e mesmo impossível de ser citada (mesmo que o faça aqui), corresponde à perfeição essa sensação que sinto quando chego aqui.

É importante pensar nesses momentos de embate linguístico-cultural não apenas para a nossa mal-fadada “consciência crítica”. Essa língua, que não é a minha, é no entanto também a língua em que amo. Como não pensá-la? Se o francês me precede na família de imigrantes belgas chegados ao Brasil depois dos pesados impostos para reconstrução daquele país depois da guerra, ele foi ganhando um espaço imenso na minha maneira de estar do mundo e de escrever. Com Mallarmé e Derrida, sobretudo, mas não só. Quando era jovem, estranho dizer isso no passado, lia muito Baudelaire e Rimbaud, até o limite da minha vó paterna corrigir minha pronúncia do “I-M”, que dizia /ã/ e ela me corrigia para /e˜/, mais adequado ao seu modo walon de dizer. Mas a língua francesa me era uma língua de idioma inventado e, não à toa Mallarmé e Derrida são idiomas particulares do francês. Edward Baring, em suas pesquisas de arquivo para escrever “Young Derrida and French Philosophy (1945-1968)”, descobriu uma fotografia de Derrida aos 19 anos, posando com muitos outros estudantes e professores de sua formação. Na fotografia, um detalhe muito particular: ele está, mesmo que vestido como um típico estudante parisiense, de All-star Converse. Isso não significaria nada se não fosse o contexto, o lugar, a história. Mas ali, entre o sobretudo, o foulard e a seriedade dos meninos, o tênis modula algo. Há um fotografia mais divulgada de Derrida no Lycée Louis-le-Grand. Ele está recostado no gradeado do prédio da escola e com um grande sorriso que chega a fechar seus olhos. Baring tem uma tese que considero controversa: Derrida como pensador do centro da Europa, destituindo-o de seu passado em país colonizado. Seu argumento? Ele ter estudado nos principais centros de saber da França. Ora, argumento fraco. Como demanda Achille Mbembe, em “Sair da grande noite”, seu direito de ler Heidegger ou ainda de sempre, vindo dessa nação que nascia com ele, o Camarões, que eles sempre seria um homem de “passagem” pela França, “passagem” que lembra o eufemismo de sua mãe para a morte. Do crânio morto daquele que vem sem liberdade, algo modula. Por que Baring não consegue, em suas lentes inglesas, ler as roupas de Derrida como algo que está “out of joint”, descompassado, desarranjado? Porque, aliás, ele lê o tênis converse como “estiloso”? Por que ele seria incapaz de ler a costura muito larga do sobretudo que o jovem Derrida porta? Ele precisa ser colocado no lugar, como fez a caixa de Auchan a Ernaux.

Ernaux fala quase todo o tempo, e para além da sua escrita que parte sempre do íntimo-social, é disso que me vejo mais ligado a ela, de “transfuge de classe”; de autores.as contemporâneos.as que vêm dessa designação social. Desconheço uma tradução adequada para esse termo na minha língua. Seria a pessoa que viveu uma mudança de classe social durante a vida (sobretudo por travessias valorizadas social e simbolicamente). Numa tradução mais literal: um desertor da classe. Gosto da ideia, mas ela é muito problemática também. Desertar implicaria uma ação intencional, um abandono mais completo, uma ausência sobre uma imposição. Em geral, o “transfuge” não faz sua mudança ou vive sua mobilidade social porque quer ser de outra classe, mas simplesmente segue a estrutura social que lhe é oferecida (falsamente) pela classe dominante. Ele a vive sem nunca deixar pra trás sua marca de vida anterior. Tenho uma amiga que, assim como eu, vem de uma classe que não é a nossa agora, e com quem partilho sempre as mesmas inquietações diante do “glamour” da vida acadêmica. Nelas, o principal: nunca seremos dessa classe. As portas se abrem, sim, mas sempre com uma mão que a mantém entreaberta, um pé que a segura para não se escancarar, um dizer que mostra que viveremos as pequenas migalhas dessa ascensão aos gostos e ao feitio da burguesia. Trata-se de uma ascensão sem acesso. O que me interessa nisso tudo é como, independentemente se você é capaz de se virar em seis idiomas, publicar imensamente, elaborar teorias, pensar, exercer suas funções públicas, escrever etc., você sempre será o que “quase” chegou lá. Esse quase é fundamental. Derrida falava muito do “peut-être”, do “talvez” que implicava toda indecidibilidade — ali, por exemplo, onde eu possa proferir “eu te amo”, há sempre um “talvez” que torna essa decisão hiperbólica em dizê-lo algo como um acontecimento. O quase também opera nessa diferença. E talvez isso seja a nossa força. Salve, desconstrução! A pessoa trânsfuga de classe — mais uma tradução hiper-literal — não passa para o lado do inimigo. Às vezes, se fascina com ele, mas sabe que não é parte dele. Trata-se, antes, nesse quase, de abandonar a designação e entrar de modo incômodo nas estruturas de poder — como o tênis de Derrida que converte o Lycée Louis-le-Grand num lugar em que ele poderia estar (à revelia das inúmeras notas baixas e reprovações que ele possa ter sofrido ali). 

Quando chego aqui, como agora e a cada vez, eu preciso de um tempo para me recompor, para rearticular o corpo. Não é nada fácil. Saber-se não pertencente e ainda assim ter de cruzar os portões da administração, da universidade, da biblioteca, do prédio em que moro. E isso tudo contando que é talvez mais fácil para mim, não só por ser um homem branco na sua quarentena, mas porque o francês é minha língua doméstica, com a qual eu falo com a pessoa que amo e, logo, que digo minha intimidade, ou melhor, algum P que ainda não nomeei, mas que possivelmente seja meu nome próprio, sem outros atributos.


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