ALICE CAYMMI COM LACAN: O DESEJO, O POP, O DIVàCONTINGENTE

Ano passado, Alice Caymmi lançou um álbum ao vivo que celebra seus 10 anos de carreira. Trata-se de um disco e de uma performance ativam a potência de um mundo que estavam em degeneração por conta dos anos tenebrosos que vivemos e que nomearíamos facilmente como as consequências mais últimas da necroeconomia, da ascensão do neofascismo e de um conservadorismo insuportável diante dos dispositivos mais interessantes em termos de produção desejante que não víamos há muitos anos – e me refiro aqui, pois é importante que isso tenha um nome, às lutas antirracistas, às vitórias dos movimentos sociais, ao desenvolvimento das práticas micropolíticas começadas pelo feminismo e estendidas aos demais corpos não-virilizados, à estética aliada a uma ética que não teme a violência.

Desde sua apresentação num festival em Brasília, tenho ouvido esse álbum com muita frequência. Às vezes apenas como som dentro do carro, às vezes num esquenta para um fim de semana, mas muitas vezes reouvindo o que já conhecia dela como uma cantora que me chama atenção desde seu primeiro álbum – naquela canção que “abre a roda e dança”, que não sai da cabeça. Essa semana ouvi duas vezes o tal álbum ao vivo, agora com ouvidos mais analíticos.

Para quem a ouve displicentemente, o álbum parece ser sobre essa coisa do fim de uma relação, da colocação do sujeito numa dada posição esperada, do desamor, por fim. No entanto, penso que ela não fala exatamente (ou somente) sobre isso. O álbum inteiro é sobre o abandono do outro. Essa expressão pode conter tudo o que se espera daquela leitura – talvez mais facilitada pela cultura pop – mas não é somente isso. Trata-se de uma dupla injunção: o abandono que o outro promove sobre o eu, e o abandono que o eu faz do outro. Mesmo nessa dupla paradoxal, ainda isso não é tão simples quanto parece. Basta que questionemos suas demandas em: quem é esse eu que canta? quem, esse outro?

Na facílima ordem da teoria comunicativa, um eu dirige-se a outro – emissor e receptor. Mas penso que é preciso subverter essa lógica. E, do meu ponto de vista, são as guitarras mais presentes nessa performance ao vivo que fazem isso surgir. Não ouço Alice Caymmi implorando por um desamor, por um abandono. Ouço o eu que sabe essa posição de outro em si e desde o exterior. Trata-se de uma luta interna com o desejo. Não há mensagem, há um deslizamento de posições que não são meras apreensões narcísicas, nem moras dissonâncias da violência do outro. Tudo ali é rastro e uma dinâmica afetiva.

A psicanálise, quando tomada por uma instituição, é um dos discursos que terminam (e começam em certo sentido) por tomar a estrutura social a partir das divisões perceptivas, constantes, que diferem, assim de uma mecânica do desejo. Muitas vezes ela é tomada, por uma camada clara (branca, por assim dizer) da população, como sendo a base afetiva do mundo, como se ela fosse a grande codificadora das estruturas desejantes. Ela não é isso. E sua radicalidade não reside nesse lugar. Afinal, quem deseja ainda como um neurótico vienense do começo do século passado? Ou mais: quem deseja como desejam os ricos? Imposições e imposturas que têm um objetivo evidente: a manutenção da financeirização dos afetos.

Evidentemente a cultura de massa contribui para isso, a música em primeiro lugar talvez. Mas o que é preciso notar é que ela não é inteiramente isso. Ela reconhece, e talvez muito distante (e muito antes) de um divã enriquecido pela exploração do trabalho alheio, que os afetos não são financeirizáveis de todo. Os afetos tocam o corpo e ultrapassam a linguagem. E é nesse lugar que a psicanálise ainda é dos mais importantes discursos, já que promove uma saída pelo afeto da planificação reativa da nossa produção subjetiva. E é nesse lugar que a música também pode ser um poderoso discurso dessa mesma produção.

Falo aqui de uma produção que não se encerre num sujeito identificado com suas permanências impositivas, mas daquele que excede suas próprias estruturas, para além das amarras personalistas que individualizam o movimento desejante mais atravessante.

Bem, dizia que escutava o álbum com uma escuta mais analítica. Tenho revisado os esquemas iniciais de Lacan (os famosos esquemas L, I e R), isto é, relendo com calma o “Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise” e o escrito “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. Há uma imensa complexidade nesses textos, que não retomava desde 2008. No entanto, Lacan está falando a língua (ou a fala, como queiram) de seus analisandos. Uma língua que não é a da formalização da psicanálise, mas é que a contém. E esse analisandos (da década de 50, no caso) não estão com um mundo efusivo de referências clássicas, de multiplicidades referenciais. São pacientes que saem há muito pouco do imenso luto europeu de sua Segunda Guerra. A elaboração dos esquemas de “De uma questão preliminar…” recebe inclusive outras elaborações (do seminário ao escrito), com vistas a essa formalização. São quase dez anos de formalização em um esquema.

Esses esquemas são bases sólidas importantes para o conhecimento das estruturas clínicas como as compreende Lacan, porque elas dão uma explicação e uma tentativa de compreensão do que se passa nos distúrbios psíquicos e naquilo que representa a saúde mental, muitas vezes meramente diagnóstica e serva da indústria farmacológica.

Ao ouvir novamente o álbum de Alice Caymmi, me pareceu hoje que ela, passo a passo, faz aquele sujeito passar em cada uma das posições desses esquemas. Foi quase uma confirmação da estrutura móvel que propõe Lacan. É evidente que a artista não tem nenhum compromisso (e mesmo nem se engaja nessa direção da transmissão do discurso da psicanálise), mas, exatamente se vê ali como a produção neurotizada ou psicotizada se estabelece nessas direções. Deu até vontade de fazer todo um curso apenas com os três esquemas e cada uma das canções do álbum, seguindo a ordem do show, para mostrar que uma peça da contracultura pode apresentar algo como o desenvolvimento desejante num divã contingente. Para além da divisão de classes que implica muitas vezes o tratamento psicanalítico, a música está ali mostrando a banda da realidade sofrendo (e sofrente) alterações significativas, a mãe desejante encontra-se com Iansã, o eu manda recado para si, para o outro que assume essa posição, os objetos fálicos são capturados e ou devolvidos ao buraco no campo do outro ou anulados numa infinitização, o só só sozinha é par (e é mesmo sem outro do outro). A articulação aqui é mesmo da reversão em Moebius da realidade, da inscrição dos triângulos imaginário e simbólico, das assíntotas impermeáveis.

Disso me resvala uma possível hipótese (que já me incomodava em 2005, quando me debruçava sobre Joyce): a publicação, a publicidade, o direcionamento ao outro como elo, não necessariamente garantem uma inscrição neurótica. A arte – seja ela a pop ou não, se é que existe essa distinção – tem de lidar com esse limiar, com esse limite muito fino diante do que pode se confundir na enunciação.

Alice Caymmi repete num dos refrões emblemáticos: “bem que eu tentei, que eu tentei, que eu tentei, que eu tentei (…) me iludir”… para onde vai essa repetição? Não é na construção do sentido, do campo das representações fixadas. Ela bate no corpo, de propósito ou fora do propósito. Há sim um peso do pensamento, mas há sobretudo um peso do impensado. Basta saber se a psicanálise está topando esse espaço, porque temos aí num espetáculo a sua sobrevivência.


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