Há muito tempo, fui jovem. Desde a morte de Gal Costa tenho pensado nisso com uma força mais aterradora. Embora essa afirmação do tempo possa parecer ter uma dimensão de lamúria, lamento e quase elegia, sua morte parece ter me apresentado um outro caminho para essa impressão não só de transitoriedade, mas, sobretudo de vida. Eu fui um jovem atípico dentro da tipicidade. Enquanto fazia de tudo para me adequar – ouvia grunge, me vestia com camisetas de bandas de rock, guardava em mim a arrogância da inteligência burra da juventude, criava paixões que nunca existiram, sentia a vontade de tocar um instrumento e cantar canções punks que nunca entrariam na minha voz – eu estava preso na minha atipia. Era impossível para mim falar com mais de duas pessoas ao mesmo tempo, impossível falar naturalmente com quem quer que fosse, impossível me desvencilhar do meu discman Sony D-141. Meu possível era apenas ficar lendo sozinho nas breguíssimas colunas greek-fake da minha escola de 2º Grau, minutos do intervalo e horas durante a tarde dispensada naquele ambiente que me fazia tão mal. Eu lia Álvares de Azevedo, Shakespeare, Goethe e Clarice Lispector. Meus colegas, tão variados quanto muito parecidos como todo jovem adequado, zombavam sempre que possível desse garoto desengonçado que fazia parte do time de basquete da escola, treinando à noite, mas não participava das festinhas, que eram o principal motivo sexual para estarmos fazendo tudo aquilo. Escrevia também, quase compulsivamente (não tão compulsivamente quanto veio a ser depois disso), aqueles textos que queimei assim que me mudei da casa dos meus pais, porque não eram nada senão um conjunto de estereótipos dessa vida adequada.
Houve, no entanto, um ano que isso tudo mudou de figura. Não mudando, na aparência, mas no interesse e naquilo que me falava mais de perto. Em casa, quando ia começar o domingo em que meu pai faria um churrasco na varanda, que chamávamos de área porque ela era do tamanho do apartamento, ele colocava as caixas de som para fora da sala e o dia iniciava com o disco Ao Vivo da Maria Bethânia, lançado em 1995. Aquela capa azul, ela de braços abertos e seu rosto escondido pelos cabelos num gesto de agradecimento. Ele a colocava para cantar muito cedo, e aquela voz entrava em mim feito uma ferida que eu não podia ainda nomear, que eu ainda, muito jovem não podia ter vivido. Não foram poucas as vezes que o vi chorar com esse disco. Eu não entendia porque ele se deixava tomar por aquelas lágrimas de paixão dolorida. Só depois. Mas isso para dizer que nesse momento, quase que se repetindo a história do surgimento desses baianos no cenário nacional, Bethânia foi a primeira a descer na casa do pai carioca – fluminense, como ele gostava de repetir, mostrando seu RG que ainda dizia “Estado da Guanabara”. Mais tarde apareceu o Caetano. Eu ficava ouvindo um vinil do Bob Dylan, o único que meu pai tinha, e, estava fascinado com aquele cara cantando poemas, dizendo histórias numa voz que para mim sempre foi estonteante. Daí caí sobre um CD do Caetano, “Sem lenço sem documento”, uma compilação do começo dos anos 90. Um acontecimento que me levaria a uma disputa com meu pai que me dizia sempre que eu podia ouvir Caetano quanto fosse, mas não Chico Buarque (que era então o meu prazer secreto, dada a interdição). Têm umas proibições que a gente só compreende depois. Foi nesse meio do caminho que me apareceu a Gal. Aquela capa branca de “Meu nome é Gal”. Batom vermelho. Lábios, olhos, nariz saltados nos tons de branco e cinza do seu nome que é em tudo um poema – como li depois no livro do Caetano. Eu me apaixono de verdade por vozes. Não é apenas gostar. Eu caio. Quando ouvi a Gal, tive a certeza que a vida estava em outro lugar. Eu já a tinha ouvido, sem ouvir, quando o país ficava extasiado com novelas e chocado com a sua performance com os seios de fora, dois anos antes, cantando “Brasil”. Lembro de Caetano partir em sua defesa e achar aquilo tudo um exagero da televisão. Quando ouvi o LP “Meu nome é Gal”, dois anos depois, fiquei de um outro jeito. Não tinha como procurar na internet. Nós não fomos uma família que estivéssemos na vanguarda ou que tivéssemos condições de ter aquela coisa de computador logo no início. Então me restava simplesmente ir até o quartinho que ficava na área de serviço onde meus pais alojavam tudo e nada, mas que era preciso à minha curiosidade, porque tinham ali todas as revistas que eles assinavam ano após ano. E dali fui resgatar essas reações intempestivas e ver a Gal como esse primeiro enamoramento e o mais duradouro por uma voz.
Eu não podia compartilhar essas experiências no meu grupo de colegas de escola porque ouvir música brasileira era uma afronta a seus gostos precários pelo mercado internacional de produção da indústria fonográfica. Hoje eu não posso deixar de tirar algumas conclusões sobre isso. Estávamos na implementação do Plano Real, numa guinada histórica do controle da inflação (que mesmo qualquer criança sentia como uma realidade brutal), mas às custas de uma imensa especulação da economia de mercado, da dinâmica financeira sobre todos os corpos e do assunto mais importante do momento, a globalização. Ser global sempre foi consumir os produtos dos EUA. Na escola, nos dividíamos em dois grupos antagônicos: os roqueiros e aqueles que ouviam axé. Nós, os roqueiros, achávamos, evidentemente, alienados os que curtiam axé. Talvez por inveja na alegria sem futuro deles, mas, hoje estou mais certo disso, talvez porque nós estivéssemos tão alienados pelo futuro global que fomos consumidos pelo produto oferecido. O fato era que sempre foi inconciliável o axé e o rock na adequação da escola. Chamávamos uns aos outros de “malas”, e não podíamos partilhar o mundo. Quando comecei a ouvir Caetano e Gal e Bethânia e Gil, a chavinha virou. Tudo podia. Eu podia amar a indústria cultural e o “Fausto”, pensar em poesia antiga e rebolar (o que só fui fazer muito depois), eu podia escrever e não acreditar no muito dito sério. Daí em 1997 o Caetano lança o livro “Verdade tropical” e Gal, o “Acústico MTV”. Eu demorei um ano para comprar o livro, que comprei quando ele lançou o álbum “Livro” em novembro. Já o Acústico, assisti na primeira transmissão de televisão. Gal ali na MTV, na “emetevê”, como insistia Caetano, era toda a legitimação que a juventude burra podia querer. Comprei o CD logo em seguida e ouvi até furar. Assistia a todas as suas aparições. E me assombrava como aquela mulher podia cantar tão perfeitamente a minha língua e ainda sorrir. Foi a minha descoberta do mundo que era meu mundo. Quando digo descoberta, é que pude tirar a coberta do que estava no nome de Gal.
Agora, tentando lidar com a sua morte, além de ouvi-la diariamente, eu fui pegar o meu volume do “Verdade tropical” – livro que li com uma devoção de tropicalista como todos deveriam ser ao menos por alguns anos na vida, ou pela vida toda. Queria reler o capítulo que fala do nome Gau trocado por Gal, da necessária verdade de seu nome, de sua poesia e certeza de que seria apenas uma cantora ou nada mais. Quando o abri, na primeira página está minha assinatura ainda muito incerta – demorei anos para aprender a colocar meu nome numa folha branca e que dali não se revelasse uma insegurança! –, com um nome por extenso, e completo, numa letra adolescente que ainda consigo sentir, seguido da data abreviada de 25 de dezembro de 1998, e uma possível assinatura que demorará cerca de uma década para se fixar como a minha assinatura.
Caetano conta essas histórias que são uma espécie de romance de formação de um coletivo. Ele individualiza alguns fatos, mas o grosso é justamente sobre essa “vereda” tornada “verdade” dos trópicos que é um modo de ser e existir. Tá aí na nossa história. A novela “Vereda tropical” foi transmitida justamente naquele momento de transição da ditadura à democracia. Tinha ali o Ney Matogrosso cantando a abertura. Numa letra em espanhol, algo como “el rumor de una canción”. Muitos anos depois, Caetano toma essa vereda e a torna verdade, como sempre levando ao limite ao pop, a cultura popular, a erudição, os afetos. Na trilha nacional da novela, só uma voz da tropicália: Gal (com Francis Hime). E o romance de formação coletivo vai se erguendo diante de tudo que se mantém e demora.
A Gal entra na minha vida assim e ela fica. Dos últimos concertos que assisti foi justamente o de Gal, no Festival CoMA. Foi um dos últimos concertos dela também. Foi uma noite muito emocionante em que estávamos diante de um acontecimento. Aquela impressão de que não seria possível registrar isso com as palavras corretas, com as técnicas corretas, com o que já fosse conhecido. Não fiz nenhum vídeo desse momento. Não segurei as lágrimas que eu não compreendia saídas do meu pai anos atrás. O rosto não é mesmo apenas nossa cara, ele é também para suportar as lágrimas. Ela ali fez tudo o que ela sempre foi: a diversidade mais pulsante do que pode uma voz. Talvez ali estivesse a verdade de seu nome, a sua Graça, que só tem um nome singular, monossilábico: Gal. O corpo dela ali acontecia, variando em cada vereda diante da verdade.
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