Quando proponho um curso, um seminário novo, sempre tenho em mira certo contexto. Não acredito em escrita que seja desvinculada de uma demanda, de um endereçamento claro, de uma inquietação que nasça na tensão do lugar e do tempo em que nos dirigimos aos outros. A escrita que é apresentada durante um curso necessariamente se dirige e tenta colocar pontos de sutura e abrir outros que pareciam demasiadamente afixados pelo transcurso das acomodações dum pensamento ou de uma instituição. Este semestre, propus algo, como tenho feito há mais de vinte anos — sim, dou aula de poesia há muito muito tempo —, nessa direção, mas de modo mais sistemático.
Eram pra ser dois cursos de prática e análise de poesia; com o aporte da desconstrução, na tentativa de dizer um ou dois nomes da poesia. Surgiu, no entanto, uma situação durante a última aula: a constatação, que é contextual da Universidade em que trabalho, de que o trabalho com a poesia pareceu vir escasso, à margem, recalcado, deixado na penumbra, dentro da formação dos alunos. Nisso não vai uma crítica rasa acerca dos interesses de pesquisa que rodeiam um Departamento, mas apenas a constatação de que estamos, eu e mais talvez dois colegas que se dedicam a esse tipo textual, num espaço mais conturbado do que podemos imaginar. Digo espaço conturbado porque ele impede uma fala mais despojada, em que os interlocutores estão ali pré-dispostos e autorizando a fala. Vi-me na situação de ter de tomar posição dessa formação. É preciso fazê-lo, diria sem temores. E isso se torna, logo, um imperativo. Isso se torna algo que antecede o que imaginei querer dizer a eles durante o semestre. Minha intenção inicial, que tem sido recorrente nos últimos três anos, é a de uma didática da desconstrução, com intuito de formar pesquisadores nessa área, de fornecer um caminho que possa desenvolver conceitual e hermeneuticamente um eixo de interesses que possa pôr em questão alguns cânones da interpretação literária (e das Ciências Humanas). Desenvolvi um largo material para que isso se tornasse possível em nível de graduação e pós-graduação, na extensão e na pesquisa. E posso dizer, a despeito do que muitos acreditam impossível fazer (mesmo com preconceitos que acabam com a vida acadêmica de muitos potenciais colegas, posso garantir que já vi acontecer esse desastre) porque desacreditam do potencial de apreensão e engajamento dos alunos, que a desconstrução é ensinável nos mais variados níveis de educação. No entanto, falava do que aconteceu nessa última aula. A assunção da culpabilidade por parte de alguns alunos de seus “fracassos” diante da leitura do poema. Tive de interromper esse fluxo culposo por ali mesmo, já que a responsabilidade da relação ensino-aprendizagem nunca pode ser lançada sobre os sujeitos que estão no processo institucional de aprendizagem. Para dar um fim a esse delírio de culpa, obviamente é preciso assumir a responsabilidade do lado de cá, entre os que compõem o Departamento. O recalque não está lá, mas aqui. O esquecimento da poesia é o indício mais evidente do que se abandona quando se quer destruir um espaço livre como a universidade, um espaço em que essa textualidade ainda pode sobreviver. Na minha proposta inicial estava, por exemplo, a necessidade de demonstrar teoricamente como não se desconstrói nada sem uma genealogia, sem uma larga pesquisa no campo da análise e do comentário, que é preciso saber bem operar essas dimensões antes de quaisquer aventuras que coloquem a lógica da suplementaridade como indicativa das imposições metafísicas. Pensei em construir, inicialmente, isso enquanto pudesse falar da aventura estruturalista e na leitura de uns poetas contemporâneos ao mesmo tempo — o que é, por si, um movimento de desconstrução. MAS a realidade bate à porta e esse caminho da genealogia do comentário precisa ser rearticulado minuciosamente.
Por que digo isso? Intentei uma análise do poema “tensão”, de Augusto de Campos, com um claro objetivo de mostrar que aquela famosa carta difamatória contra o título de Doutor Honoris Causa que a Universidade de Cambridge conferiria a Derrida continha em seus muitos erros e muitas perversidades, à revelia dos tolos que a assinaram, um dado muito correto e significativo que, sim, poderia descrever o pensamento da desconstrução. Ali, eles assinam a ignorância de dizer que Derrida não faz senão os mesmos truques e artimanhas da tradução, da poesia concreta e dos dadaístas. Em princípio, isso serve como um modo de descreditar a obra filosófica. O que fiz? Mostrei como pensa o poema do Augusto, e como ele pensa demasiado, e como ele desarticula o que nenhum daqueles “filósofos” difamadores seria capaz de imaginar. Os olhares dos alunos eram entre a descoberta e a indignação. Ainda não compreendi amplamente. E contra o quê?Muitos acompanhavam o que para muitos outros parecia delírio analítico, extrapolação — por mais que me detivesse estritamente naquilo que está escrito, no conjunto de elementos que estão presentes no texto.
Então, tinha preparado minha próxima aula, que versaria sobre Marília Garcia e Uljana Wolf, mais o magnífico texto de Deleuze sobre o estruturalismo e um parágrafo da Butler sobre o eu na materialidade dos corpos, com essa disposição de manter a tensão indignada e esquecer, talvez mas uma vez, a responsabilidade pelo recalque do ensino de poesia. Agora me vejo aqui retomando textos que me formaram, muitas vezes também à revelia do que dizem, como analista de texto e leitor obsessivo de poesia, para mostrar onde as coisas vão, precisam ir e, depois, como elas não devem ir por ali. Estou remontando toda a lógica do comentário de poesia a partir de Iuri Lotman, Roman Jakobson, Yuri Tynianov, Julia Kristeva, Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Antonio Candido. Sempre impressionante a didática desses textos em dizer como fazer, o que observar, como olhar e escutar um poema. E, o que me veio dessa última aula é que ao invés de dizer de modo abstrato como devem operar o comentário que antecede a desconstrução, deveria também mostrar esses caminhos (o chão sulcado da crítica de poesia), e desconstruí-los diante dos alunos. Há inúmeros parágrafos magníficos em “Estudo analítico do poema” que precisam ser desconstruídos, repensados e reativados para além da lógica do próprio pensamento de Candido. Isso também vale pra “Configuração verbal subliminar da poesia”, pra “O texto e sua ciência”, pra “A estrutura artística do texto” etc. O dispêndio é enorme, mas a parte irrestrita é sempre maldita mesmo.
Assim, o que ensinar quer dizer? O que ensinar quer dizer num Departamento de Teoria Literária e Literaturas duma universidade pública, gratuita e de qualidade? Em nada essa pergunta pode se encerrar na má vontade ou no bico retorcido da maioria contra a desconstrução, como se houvesse alguma arrogância em colocar textos para lidar com seus sistemas. Ao contrário, ensinar pressupõe esse compromisso — em que prometemos conjuntamente — de ir à mata, abrir picadas, criar ruídos e responder ao que se paga por afirmar-se enquanto sujeito. E não há educação sem que possamos imaginar essa afirmação que vai nos dois sentidos: dos alunos aos professores e vice-versa. Afirmar e por certo se autodeterminar para além de qualquer determinação anterior. Dar um passo que vai junto, e depois só, e depois retorna na partilha. Educar, e isso só aprendi como aluno de poesia, precisa de algo a mais que a paga do mês — sem nunca esquecer essa condição assalariada, claro — porque ela pressupõe ter de lidar com cada um dos valores de uma economia que cala poemas, cala poder dizer de outro modo o que pensar pode querer dizer.
Isso ocorre no mesmo momento em que, nas analogias que passam pelo olho, dois círculos marcam dois poemas no “Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade”: “amor” e “crônica”. São mundos em circunvolução. Com dedicatórias a dois Renés diferentes, um condensa o amor ao humor; o outro, a história do mundo como a estória do conto: “era uma vez / o mundo”. O sujeito no tempo das suas responsabilidades, a necessidade de dizer alguns nomes, de traçar o fio de cada um desses textos numa autobiografia, que se partilha em curso.
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