Negando a morte do outro

Luce Irigaray publicou esse breve texto em 1967, na revista “Langages”, que tinha por tema de dossiê “Patologia da linguagem”. Ela mostra por uma análise gramatical, bem fundamentada no sentido de cuidado com cada termo e função discursiva, as diferenças entre a enunciação histérica e a obsessiva. Cada vez mais frequentemente a leio com cuidado, com o cuidado que ela pede. Próximo ao fim do texto, ela resume dizendo algo que parece fundamental:

“se o histérico se dá como faltante de uma experiência própria do mundo, o obsessivo vive a sua sobre um modo tão elaborado por sua imageria própria que ela não pode diretamente ser ouvida. Isso não quer dizer que voltamos então a uma total confusão do ‘eu’ e do ‘tu’, hipótese que pode se sustentar para levar em conta algumas linguagens psicóticas”.

Basicamente, o texto de Irigaray estabelece diferenças fundamentais entre esses discursos, e o suporte entre emissor e receptor, no nível:

HISTÉRICO – eu <- você me ama? -> você

OBSESSIVO – eu <- eu me digo que eu sou amado -> você ; ou na dupla negação: eu <- eu não me digo que eu não sou amado -> você

No entanto, nessa conclusão, algo me fez pensar em como esses discursos se contaminam, como o mundo contemporâneo hipercontrolado, hipermidiatizado, hiperegóico, hiperliberalizado, vive numa passagem talvez muito falseada entre o histérico, o obsessivo e “algumas linguagens psicóticas”. Vemos isso nos discursos de amigos, nos discursos de políticos, nos discursos de rede social, nos discursos que entabulamos como algoritmos e outras formas de inteligência produzida por mecanismos digitais, nos discursos até mesmo de serviços de streaming. A mudança de pergunta apelativa do histérico à afirmação do eu obsessivo ou a fusão talvez dos psicóticos parece, numa primeira abordagem, responder a uma espécie de covardia generalizada em assumir o mundo e seus objetos de troca, partilha e pertencimento. Nunca foi tão fundamental assumir a responsabilidade pela frase quiasmática de nossas pequenas histerias, ou pelas introjeções de nossos “eus” na plissagem com o interlocutor. Nunca foi tão fundamental não nos deixarmos cooptar por um discurso de “é preciso ser feliz”, mesmo sabendo da morte de milhões de pessoas por um vírus e que, ainda, têm, constantemente, suas mortes negadas, refutadas, colocadas em questão, seja pelo presidente fanático e aloprado, seja pelos estúpidos anti-vacinas, seja pelo desejo pessoal de cada um de nós por festas etc. A negação dessas mortes é o que move essa forma de não assumir o mundo e, portanto, de enamoramento da destruição. A negação dessas mortes está no espectro da distância para muitos e por isso parece possível e não culpabilizada. Mas é essa negação que vai nos negar os mínimos gestos em muito pouco tempo. Mínimos, cotidianos.


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