Acabei de ler o ”relatório” de Preciado diante da Escola da Causa Freudiana, diante de 3500 psicanalistas no Grand Palais. Não tem como questionar a importância dessa intervenção diante da sociedade psicanalítica, sobretudo a parisiense. A base do seu argumento é não haver espaço para uma psicanálise sem a noção de diferença sexual, que Preciado refuta, primeiro com o ânimo de militância característico, somando questões pessoais, depois por dados históricos da construção epistêmica da diferenciação sexual, da construção identitária. Preciado convoca os analistas a se juntarem a revolução que está se formando (para 10 ou 20 anos ele alerta) em que deixaremos o binarismo definitivamente. Tudo isso é louvável em seu texto. Um momento de lucidez diante da improvável aceitação institucional — que não cessa de vaiar. No entanto, duas coisas me incomodam muito no texto:
(1) a própria ideia de monstro, e isso por dois aspectos: não acredito que pessoas trans queiram se ver todos os dias no espelho e se dizer “vamo pra batalha, monstro”. O monstro coloca num estado de dissidência (que Preciado quer ressaltar e valorizar, usando mesmo o Frankstein pra isso), mas também de anulação de situações ordinárias, do cotidiano, da luta administrativa. Ainda nesse quesito, há um outro grande problema: o monstro pra ele é como o macaco de Kafka no “Relatório para uma academia”, de onde Preciado toma seu mote em tentar desconstruir (de modo ingênuo muitas vezes) os psicanalistas. Não acho que continuar a chamar de monstro os animais possa ter alguma consequência ética e política interessante. Descartar os animais dessa “revolução” é continuar no caminho das grandes extinções do planeta. E Preciado parece não perceber isso em nenhum momento.
(2) Segundo ponto que me decepcionou no texto, sobretudo o seu final “propositivo”. Preciado parece, e isso tens e tornado constante em seus últimos textos, sempre querer ser o primeiro em tudo (inclusive o primeiro filósofo infectado pelo coronavírus), que todo o passado deva ser esquecido (essa é uma palavra que ele usa!), a ponto de não mais lermos Freud ou Lacan (porque fazem parte de um regime patriarcal-colonial), que tudo que for novo começa com Preciado. Não poupando esforços para mostrar esse imperativo “revolucionário”, Preciado quer na verdade ser o último leitor de Freud e Lacan, garantindo a ele o domínio (e sinto muito há muito apaixonamento pelo poder nesse texto) textual de muitos pensadores que ele evita citar…
Preciado parece colocar um preço que pra ele não será difícil pagar, tanto que já tem pago há muito. E isso diz muito contra o que ele poderia estar de fato contribuindo para uma revolução coletiva, por vozes de insubmissão real (e aí todos os trânsfugas de classe, da virilidade, da nacionalidade, da violência). Preciado tem um papel sem dúvida significativo para nos ensinar um modo outro de pensar as reuniões de grupos sociais. Que o preço de seu apreço não seja apenas para aqueles que o acompanham na espetacularização, mas para todos que vivem radicalmente o cotidiano. O monstro chega ao fim, mostrando sua finalidade.
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