Ich bin nicht überzeugt dass es die Demokratie ist!
(No aniversário de São Paulo)
No finzinho do texto “A razão do mais forte (há Estados párias?)”, Derrida se concentra na análise que gira, faz entorno, torna, volta, arruína sobre a relação democracia/salvação, democracia/saudação e, em última instância, democracia e saúde (pública), a partir da noção de técnica em Heidegger e, ao mesmo tempo, dessa sentença enigmática. Estou preparando um curso de poesia e não pude não me lembrar dessa figura estranha que forma a democracia: uma roda livre. Roda-gigante que não tenha um só ponto de sustentação, mas a volta de uma revolução ou que se entorna e, logo, também se tortura. Derrida é claro quando diz que há um estrutura axiomática da democracia (a de Tocqueville) que pensa “a volta, o retorno a si do círculo e da esfera, logo, a ipseidade do Um, o autos da autonomia, a simetria, o homogêneo, o mesmo, o semelhante e, ainda, Deus”, mas na mesma linha dessa revolta sobre e pelo si há “o que permanece incompatível, o que nem mesmo combina com ela, com uma outra verdade do democrático, a verdade do outro, do heterogêneo, do heteronômico, do dissimétrico, da multiplicidade disseminal, do ‘qualquer um’ anônimo, do ‘não importa quem’, de ‘cada um’ indeterminado”. Esses dois pontos, a fazer rodar a roda da democracia – uma roda que, como ele tenta mostrar, está carcomida pelo imune, pelo indene, por tentar se salvar (de si). É toda a dissonância do si e do outro que se coloca em questão aqui. Quais os espaços essa violência convive e destrói a vida. O discurso da poesia também se constrói nesse campo de disjunções e retenções. Autoria e anonimato, intersubjetividade, quebra da esfera. A poesia casa com a democracia, mas nunca essa que parecemos, nos movimentos partidários, no discurso meio frouxo da “militância” internética, conhecer e saber o que dizemos quando dizemos que ela está ameaçada. Nós também esquecemos a parte que não combina, que não dá match, que esconjura – num só exemplo: basta pensar na expressão que massacra toda a história brasileira: “democracia racial”. Bem, para o curso, vou entrar em outros lugares geométricos. Não há dúvida que uma democracia ou um poema não se lê com uma figura tão estável quanto o círculo (e, olha, que ele nem era uma figura de estabilidade). Precisamos de figuras de mais de dois centros, figuras que não se tocam, figuras que tendem forças opostas.
A sentença que coloquei no começo desse texto foi dita por Heidegger num entrevista, que Derrida retoma em seu texto. A frase diz: “Não estou convencido [überzeugt] de que seja a democracia”. Sim, podemos imaginar que ele – filósofo nazitendencioso – não pense que a democracia seja a solução. Mas essa é uma afirmação muito simplista ao que Heidegger pode querer dizer aqui. Sua argumentação vem da ideia de que seria preciso um sistema de “meio-medida”, um sistema portanto que lide com a sua húbris, a desmedida e o calculável. Essa dimensão heideggeriana parece, esse é um dos argumentos de Derrida, levar em conta (logo, é uma economia) a marca imponderável do outro. Talvez precisássemos de tentar traduzir – no sentido morfológico alemão do termo, uma sentença sobre outra sentença, uma sobre-sentença, um sobre-dito – o que “seja a democracia”. O convencimento compõe-se também dessa sobredeterminação. O verbo de Heidegger é justamente “überzeugen”, logo, algo como um sobre-testemunho, um supratestemunho, talvez o único que possa conter uma verdade? Celan responderia com um Ninguém pelo testemunho, nada pode conter essa metafísica de que haja algo a mais do que um testemunho, e que esse testemunho já se foi, já morreu, ninguém mais virá aqui. Como pensar em democracia enquanto temos centenas de milhares de mortos que dão e são impedidos de dar seus testemunhos. A Unidade de Tratamento Intensivo sem ninguém que dê confira uma identidade, apenas o “corpo médico” (que, ele também, já perdeu seu corpo), as máquinas de respiração e a falta de oxigênio. Extermínio e responsabilização: talvez entre essas duas palavras haja uma tradução para democracia.
Hoje é aniversário de São Paulo. Tanta coisa vem de São Paulo. Eu, hoje, queria citar só dois poemas. Um verso é do Caetano, no “Haiti”. Quando ele aponta a conivência dos cidadãos paulistas com o massacre do Carandiru: “O silêncio sorridente de São Paulo”. Não posso esquecer que o sorriso de Doria é esse mesmo sorriso. Pobre São Paulo! Rica São Paulo! O segundo, do Mário de Andrade: “Porque os donos da vida não me escutam? / Eu só sei que eu não sei por mim! sabem por mim as fontes / Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas. / Meu baile é solto como a dor que range, meu / Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados?”. Talvez exista um convite para que pensemos outra palavra para que nossa diferença seja!
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(PS: tenho tatuado no braço as formas arlequinais. É uma mistura de Ponge, Homero e Mário de Andrade. Essas coisas que andam com a gente…)
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