Toda a memória do mundo – 1956: que ano!

Certa vez, a Elizabeth Hazin, enquanto ainda era seu aluno, propunha a possibilidade de se fazer um curso só sobre romances publicados em 1956 e seus arredores. Acabei não sabendo se ela o ofertou um dia, mas tudo vinha das pesquisas que ela levava sobre o “Grande sertão: veredas”. Como minha onda sempre foi a poesia, algumas vezes me chegada esse ano como uma espécie de espírito obsessor. O ano aparecia em diversas circunstâncias quando estava lendo poemas, que quase nunca me preocupei em conhecer suas datas, seus eventos de lançamentos. Pra mim, evidentemente, tudo começaria pelo fim do ano, mais precisamente dia 04 de dezembro, quando é inaugurada a Exposição Nacional de Arte Concreta, no MASP, e o lançamento do “Manifesto da Poesia Concreta”. Até aí, algo da minha formação como poeta, do meu contato com o que havia ali de uma poesia para além do verso. No entanto, a cada vez que me distribuía por outros livros, via a força desse ano. É nesse ano que são publicados: “Howl”, de Allen Ginsberg, a versão definitiva de “Cahier d’un retour au pays natal”, de Aimé Césaire, ou ainda “Le roman inachevé”, Louis Aragon, ou o genial “If you”, de Robert Creeley e ainda naquela capa vermelha com dois grandes Ms, quase cursivos, de “Like a Bulwark”, da Marianne Moore. Em 1956 ainda é publicado “O arco e a lira”, do Octavio Paz! Esse é um ano poético, já devem estar convencidos, não?

É também o ano da estreia como poeta Zbigniew Herbert. Poeta que uma vez definiu o poeta com os versos que desdiziam o Platão do “Íon”:

o poeta cobre os olhos

com sua mão emplumada

não sonha mais em voar

sonhos de queda

que como um raio desenha

o perfil do infinito

Também é o ano da morte de Gottfried Benn. Ou ainda desse fato que fará a poesia anglófona chegar a uma espécie de impasse complicado: Ted Hughes e Sylvia Plath se conhecem em fevereiro e se casam em junho.

Não tenho como não lembrar que “Toute la mémoire du monde”, o filme-documentário de Alain Resnais tentava organizar cinematograficamente a organização da Biblioteca Nacional da França. Um filme ousado, radical sobre como é possível arquivar tudo de porões até as janelas, claraboias, luzes artificias.

Bem, em 1956, minha mãe fazia 5 anos. Talvez ela já pudesse vislumbrar algumas letras. É aquela idade que nos aproximamos da poesia com os olhos e com os sons. Idade em que tudo pode mudar para essas linhas falhadas, onde podemos ver o fim de tudo, ou o começo.


Descubra mais sobre pierœyben

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário