Lugar de fala em lugar de falo

I did not come to play with you hoes
I came to slay, bitch
I like cornbreads and collard greens, bitch
Oh, yes, you besta believe it

Beyoncé

Durante muito tempo me mantive alinhado ao pressuposto básico da ideia de uma “lugar de fala”. Digo assim, numa frase estranha, inquietante minimamente, porque, diferentemente de uma ação política de minha parte, duma ação portanto que pressuporia um planejamento, engajamento, conversa com pares e discordantes, sempre a deixei como uma espécie de fundamento contingente, temporalmente necessário, que lidava com questões urgentes que formam o contemporâneo e o viver contemporâneo para além da circunscrição da universidade, dos perigos da universidade e da comunidade e seus perigos. Toda a questão para mim, que venho duma tradição, que não escondo, que pensa desde a desconstrução, sempre foi a pretensa garantia de identidade, da, hoje, chamada “pauta identitária”.

A expressão sempre me pareceu que jogava desfavoravelmente e contra nós que a defendemos porque em si pressupõe que não seja uma pauta de diferenças. Ora, o erro básico na escolha dessa expressão está justamente na falha de leitura da história da filosofia, de história literária também, que tendo sempre se válido da contradição identidade/diferença se inventou e se escreveu logofalicacentricamente como A identidade, como a busca do si, como a afirmação do Um, do Único, na exclusão do outro. Essa é a tradição judaica, de Abraão negando Ismael pelo seu Único (filho). Esse é o problema de Platão, com seu horror ao outro, um horror farmacêutico, porque não o compreende, porque prefere mantê-lo como estrangeiridade absoluta. Essa é a negação de Descartes para formar o ser meditativo que é capaz de, dizendo eu, existir. Essa é a negação de um bom bocado da fenomenologia que, ao crer na voz silenciosa da antecipação identitária, compõe o objeto como marca diferencial do sujeito. Esse é também o erro de Foucault, ao compreender um espaço em que o sujeito poderia começar a ser pensado historicamente e que ele pudesse se compor, estetizar (no sentido que ele mesmo construiu) para ter uma existência enquanto afirmação singular. Esse me parece é também o erro de muitas das leituras que nos foram legadas como “cultural studies” ao proclamar e exigir as pautas identitárias como se elas devessem substituir algo que no fundo é o mesmo: ou seja, a luta pelo espaço do mesmo, da ipseidade.

Então de quando em quando me volto para aquele imenso poema de Mahmoud Darwich, “O mural”, para lembrar de como se faz uma pergunta pela identidade, para lembrar que ela não passa de uma ilusão dada pelo inimigo, para lembrar que talvez um dia possa ser quem eu quero ser, como ele repete e repete e repete durante o poema. Ou ainda a sua impossibilidade de ser ou cantar uma metáfora. A metáfora sendo toda a tradição do inimigo para esconder seu recalque de violência – e aqui lembro tanto da fala da Tatiana Pequeno sobre a necessidade das recentes vozes da poesia feminina em falar sem metaforizar! Mas ainda assim, ele é capaz de escrever:

E aceite a ode, se desejar. Eu não tenho nada além de você.
Pegue o seu “eu”, vou completar meu exílio com sua letra.
Você pode dar para as pombas enviarem.
Quem entre nós é “eu”? Pois “eu” será o seu fim.
Entre a escrita e a fala, uma estrela cairá.
A memória infla nossas reflexões.
Nascemos na época da espada e da flauta, entre figos e cactos.
A morte foi mais lenta e clara.
A morte era um tratado entre aqueles perto da foz do rio.
Mas agora, ela funciona sozinha na pressão de um botão.
A vítima não tem assassino como testemunha
e o mártir não recita seu próprio testemunho.

Que vento trouxe você aqui?
Diga-me o nome da sua ferida,
e conhecerei as estradas onde podemos nos perder duas vezes.
Cada batida dentro de você me atinge com dor, me levando de volta a um tempo mítico.
Meu próprio sangue me dói, o sal tanto quanto a veia.

Trata-se mesmo desse testemunho ou dessa necessidade do testemunho que assume o seu lugar, que assume uma topografia, uma nova espacialidade que questiona a imposição de um tempo, lido sempre como mais arcaico que a modernidade do sujeito, que técnica de poder ter se dito um sujeito por centrar quaisquer questões sobre a sua experiência particular como universal e válida.

Quando surgiu na semana passada a “questão” Beyoncé e o “caso” Lilia Schwarcz, minha primeira reação foi a de dizer claramente, em qualquer ambiente que pude intervir, que se tratava de uma “falsa polêmica”. E, como falsa, como todo o imperialismo do “falso”, não precisaríamos nos digladiar por uma assunção de verdade ou mesmo simplesmente dar bola. Vivemos de falsas polêmicas cotidianamente não por conta da hiper-democratização do espaço de fala nas redes sociais — de onde a maior parte dos problemas contemporâneos surgem hoje, de onde mesmo os anúncios políticos institucionais são realizados — mas porque eles andam esvaziados de produções de significação. Isso não implica dizer que o corpo dos membros universitários devesse cumprir um papel de curadoria ou de formação (palavra tão antiquada quanto o mundo) da camada socialmente menos “letrada”, ao contrário, muito desse corpo deveria estar aprendendo não apenas a linguagem dessa inovação tecnológica, como saber ouvir, de fato, movimentos sociais. Contudo, de ambas as partes o esvaziamento fica cada vez mais claro, é cada vez mais evidente, seja pela arrogância tão cara aos meus pares, seja pela cultura do cancelamento tão infantil do outro lado dessa falsa polêmica.

Daí surge uma série de questões: até que ponto deveríamos nos pautar — digo “nos” porque ao contrário do que seria esperado num campo democrático, de uma república, as pautas deveriam mobilizar políticas públicas, inventar modos de operação de cidadania, conduzir legislação e discussão da mesa de casa à mesa do bar, da caminhada na rua aos recursos de segurança etc. — por produtos de indústria de massa (nunca esquecendo que eles existem com objetivos claros de massificação e reificação da classe trabalhadora [seja ela Beyoncé ou não]; mas também não esquecendo que é esse o consumo de bens de cultura, que eles são na maior parte das vezes a “formação” de toda a população, que seus afetos e perceptos são atingidos e revolucionados nesse campo); até que ponto deveríamos nos pautar por um anseio conceitual que vem de uma universidade que sim está distante da sociedade, que sim faz o culto de sua própria instituição e obriga enquadres que não conseguem mais responder aos anseios dessa sociedade que consome mais rápido, responde mais imediatamente, aprendeu a não se calar diante do sistema. Essa aparente contradição é a base da falsa polêmica. Ambos querem o domínio da identidade. E a guerra leva a pontos como pedidos de retratação, retratações, mas nunca a compreender o que, dentro de um mesmo espectro político (da luta por justiça social, digamos), duas partes lutam como facções que não podem dialogar. Elas não podem porque não há diferença, há autoritarismo e glorificação do idêntico.

Daí veio o artigo da Ivana Bentes, publicado no dia 12 de agosto, ontem, na Revista CULT. Não vou resenhá-lo aqui pra vocês, óbvio, porque ele merece ser lido na íntegra e que reflitamos sobre o que ela diz ali, de modo bastante apurado principalmente sobre a questão da reserva de mercado. Evidentemente não concordo com algumas das questões no tocante ao uso paródico que ela faz do que ela chama de “filosofia da diferença”, mas se trata de um texto que diz de modo explícito o que a maior parte dos “intelectuais” não querem ouvir, por mais “engajados” que sejam. E ele é preciso justamente porque mostra como toda uma nova massa de textualidade tem se criado para fora — e essa é talvez a sua cegueira — da pauta identitária. Essa textualidade se compõe como ela mesma diz por coletividades e não por afirmações neutras de identidades que sempre tiveram o direito de tudo dizer. Essa coletividade é que acaba por mostrar o caminho que, hoje, é muito diverso daquela leitura tão anos 2000 dos produtos culturais. É esse texto que me impulsionou a escrever uma breve resposta à falsa polêmica, porque ele mostra quão falsa é essa polêmica já que ela não chega a ser polêmica no campo da diferença, mas apenas para a intelectualidade privilegiada.

A ressignificação da cultura pop, a reorientação das problemáticas universalistas, a assunção dum lado, tudo isso aparece nesse momento preciso em que a grande mídia acaba por generalizar e precarizar o uso da palavra “desconstrução”. Da esquerda à direita (e me parece que o texto da Ivana Bentes também vê o sintoma das suas atitudes de convivência e de conivência) todos de repente aprenderam o que é desconstruir — desmantelar pra uns, destruir e revolucionar pra outros; em que cada um a sua maneira está enganado. Eu gostaria aqui de chamar atenção justamente na minha discordância do texto, porque os dois filósofos citados por ela são de tradição que vem dos desdobramentos da desconstrução como uma estratégia que nunca foi europeia ou mesmo branca. Mbembe e Preciado não só pensam e escrevem desconstruções, como se valem todo o tempo desse vocabulário, desse idioma, e operam dentro desse espectro que abriu uma possibilidade — que foi e é preciso se agarrar como talvez uma das últimas saídas — de que se tornasse possível a singularidade da diferença e daquilo que não se pode controlar.

Em diversos momentos, Jacques Derrida, meu filósofo meio-judeu-árabe favorito pra colocar nos termos que ela demanda, foi obrigado a improvisar uma definição para a desconstrução. São inúmeras, das mais práticas às mais contundentemente políticas. Eu gosto daquela que ele repetia sem parar nos seus últimos anos de vida: “a desconstrução é o que acontece, o que chega, o impossível, como aquilo que eu não posso prever”. É por isso que tanta gente tem falado em desconstrução, ela tem se tornado evidente — e não como uma metodologia de trabalho que a academia impôs, mas como de fato aquilo que acontece diante de nossos olhos, como o ato mais imprevisto frente à fragilidade da institucionalidade do discurso acerca da modernidade (e, logo, do sujeito). Modificando o foco da Desconstrução por uma desconstrução, ou seja, da disciplina e de seus pressupostos para algo que acontece com tudo no mundo (do texto à culinária etc.), temos que algo acontece apenas quando isso começa a se desconstruir. É nesse ponto que algo passa a ser algo como uma impossibilidade, passa a se dar como impossibilidade, porque ele se oferece como uma espécie de genealogia de todas as condicionantes que formaram a identidade daquele algo e, por isso, expõe-se à desconstrução, expõe-se a sua própria aporia. A linguagem vai ficando abstrata pra falar disso, mas tomemos o caso da falsa polêmica frente a ideia de “lugar de fala”.

O assombro (ou a “comoção”), como tão bem pontua Ivana Bentes, da intelectualidade agora com a potencialidade do linchamento de seus pares a partir de um conceito e de uma ação como o “lugar de fala” se faz justamente por seus pressupostos. O lugar de fala impede que aqueles que não pertencem a ele possa assumir a responsabilidade desse discurso, possam querer falar sobre ele, possam querer generalizá-lo e, logo, enquadrá-lo num esquema que não é potencialmente político. Assim, o lugar de fala assume não apenas o caráter constativo de uma dada verdade propositiva sobre um determinado grupo social ou conceito, mas também e sobretudo se vale do performativo como espaço necessário para que seu dizer seja já o seu fazer. Nesse sentido, nenhum constativo ali é puro, mas também nenhum performativo se assume apenas nesse lugar da promessa da primeira pessoa em ação ao dizer. Trata-se mesmo do uso político da linguagem. A dissimetria ou a “desvantagem” do discurso acadêmico tem chegado ao ponto em que a efetividade do lugar de fala vem cobrar seu quinhão: tendo nascido dum processo de ausentificação proposital, duma anulação, do protocancelamento de toda a tradição acadêmica, o lugar de fala (que preferiria no meu sonho quase infantil que se chamasse, por tudo o que implica isso, de lugar de escrita, para uma real dimensão dos rastros e das diferenças) se coloca não como uma validação da presença, mas como uma exigência desse espaço que por séculos somente tem sido ocupado pela presença; o lugar de fala exige uma posição — e, sim, elas serão posições simbólicas; sim, elas serão posições de prestígio, de remuneração, de possibilidade de vida dentro do sistema econômico — em que não apenas essas “vozes” serão ouvidas e estarão presentes, mas o próprio esburacamento do tecido social da camada de privilegiados que deverão, sim, ceder e ceder ainda muito mais do que uma simples retratação. E isso não implica apenas se calar sobre os assuntos que não concernem seus lugares de fala (ou seja, o da branquitude), mas de optar por não mercantilizar seu próprio saber sobre outros saberes. É por isso que, se eu fosse ousar no calor da hora uma definição particular de desconstrução para o momento, diria que a desconstrução é o lugar de fala porque ele é o que chega, o impossível ele se desconstrói a si mesmo, mostrando tudo o que ele precisa lançar mão e promover uma luta. O lugar de fala é justamente o que desconstrói seu par, o lugar de falo, ali onde todas as formas de soberania e imposição da significação se estabeleceram. Então, entre um lugar e outro, teremos de decidir, mas realmente decidir.

Pra mim, Beyoncé significava muito pouco. Na minha “formação”, ela nunca esteve. Antes dessa polêmica, tinha ouvido apenas uma de suas canções para dançar numa festa. Um amigo me alertou em direct pra polêmica. Eu dei atenção porque ele gosta da Beyoncé e então conversamos. Esperei uns dias, tudo se alastrou pelas redes sociais. O que eu fiz? Assisti todo o outro álbum visual da Beyoncé, Lemonade, por indicação da minha companheira (que não cansa de dizer que o dia da prestação de contas dos intelectuais está mais próximo do que eu penso)… não consegui até agora ver o álbum objeto da polêmica, mas o Lemonade, pelas argumentações poderia servir pra tudo isso. Bem, eu a ouvi há uma semana. E ontem li a Ivana Bentes. E no meu programa de música streaming sabe o que ando ouvindo?

Piero Eyben
13 de ago. de 20


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