Quando o Brasil vai se reencontrar com seu Torquato?

página do diário de Torquato Neto no Engenho de Dentro

Torquato Neto foi daqueles autores que entraram na vida sem se anunciar, sem impor autoria pra ninguém. Digo, ele entrou na minha vida ou na vida de muita gente que não estava interessada nessa conversinha pra boi dormir de falsa educação, de processo intelectual (saber os nomes de todas as coisas, listá-las numa biblioteca de enciclopédia, conseguir dizer o nome de todas as capitais e dos vencedores de todas as histórias). Ele entrou pela rádio, pelos LPs, na voz do Gil, da Gal, da Nara, do Jards. Hoje, mesmo ele tendo se tornado um autor com livros (póstumos), ele continua pra muitxs entrando por aí. Ele entrava pela canção, evidentemente. Por esse produto de exportação brasílico dos mais potentes, daquilo que faz a poesia acontecer nesse país num outro registro. E então, quando eu era adolescente, foi que descobri aquela capa de Tropicália ou Panis et circenses (aviso aos navegantes mais jovens: não está disponível na maior rede de streaming de música do mundo!!!). Reconhecia, claro, a Gal, o Gil, o Caetano, os Mutantes, e até o Tom Zé ali… mas tinha esse homem ali sentado, boina na cabeça, meio europeizado mas com uma cara inconfundivelmente pindorama. A capa era projetada pelo Rubens Gerchman, que soube construir uma história para a tropicália e me fez querer ter uma vida tropicalista durante muitos e muitos anos. O Torquato ali era o cara! Mesmo que o Gil ocupasse essa posição central de Oswald-de-Andrade-do-movimento, i.é., como o inventor dos ritmos todos, o Torquato estava ali, em pleno 68, falando a voz de todos, dizendo o que significa ser poeta e oferecer sua voz aos que têm voz de canto. Foi assim que Torquato entrou, sem que eu soubesse que era ele quem entrava.

Depois eu cresci, essa coisa de se tornar mais informado num mundo que não era o meu – o mundo para quem o acesso é difícil (tentem comprar ou escutar música em Brasília na década de 80 e mesmo começo dos 90 pra ver só… eu tinha que ficar rodando o Conic o tempo todo só pra achar algum troço que tocasse ao ouvido). Aí comecei a ler o Torquato mesmo, com todos os estereótipos que colocaram na vida dele, com o ímpeto da contracultura mas também com o ímpeto daquele diálogo lindo com o Haroldo de Campos (atenção, velharia, nunca houve essa cisão papagaiada entre concretos e arte popular… bora esquecer isso e começar um mundo novo). E eu fui lendo, mas nunca como um autor que chegaria a figurar no que era o meu trabalho pós-menino-que-escreve. Daí, de uns cinco anos pra cá, ele, junto com a Pizarnik, a Sexton, a Ana Cristina e essa turminha, se tornaram as coisas mais importantes pra compreender o que não se pode compreender. Leio e releio seus textos, escuto e reescuto suas canções, como se não tivessem fim, para compreender isso o que ele sempre chamou de fim. Nesse fim de semana, peguei o “Essencial”, organizado pelo Moriconi. Peguei só pra ver como ele organizava a obra que nunca a chegou a ser obra. Qual era a sua desculpa? Porque até então a melhor desculpa pra mim tinha sido aquela do Sergio Cohn pra coleção Postal. É impressionante como reler um poeta numa outra disposição o reconfigura de um modo estranho. (Já leram a antologia bouleversante do Edimilson de Almeida Pereira? É disso que tô falando!). Me afastei um tanto da leitura que eu deveria fazer, pra seguir com meu trabalho (com aquele que paga as minhas contas, ao menos). E fiquei só impressionado como a gente se tornou uma sociedade CARETA. Como o Brasil, tendo vivido o Torquato, pôde virar um país em que é possível essa corja de caretas e essa gente que vive de momices, a cara feia de quem tá sempre infeliz mas não descontente. A gente virou uma sociedade de quadrados, de CARETAS e isso é mais grave do que dizer que somos conservadores. Um CARETA é mais perigoso do que um conservador. Aí tá nossa periculosidade nociva, uma destruição do que seria uma vivência da liberdade, um “exercício de liberdade”, como Torquato dizia na única gravação da sua voz conhecida. Pra gente reviver isso, me parece que precisamos urgentemente nos reencontrar com o Torquato e não apenas nesse reencontro fortuito que pensamos ser um encontro apenas com a MPB (essa sigla que só serve pra tornar careta o fazimento de música no Brasil em seu amplo espectro, já que só ouve MPB a elite que acha que ouvir MPB é só pra eles, que “entendem” as sutilezas dum Chico ou Caetano). Um encontro real, reler e reeditar tudo, mesmo todo o material lindamente disponibilizado pelo site do Arquivo Torquato (www.torquatoneto.com.br). Fazer edições de ampla circulação, redizê-lo pelas noites, reouvi-lo com nossa própria voz enquanto o lemos no confinamento.

Eu estava ali lendo o Torquato, e me vem uma pequena nota que ele publicou na sua coluna “Geleia Geral”, do “Última hora”. Era uma terça-feira, 21 de setembro de 1971. Ele falando da “palavra subterrânea”, a genealogia dessa palavra na sua vida e nas etiquetas que o metem: “a palavra subterrânea debaixo da pele do uniforme de colégio que me vestem”. Aí ele explica a tradução pra underground “para o brasileiro curtido de nossos dias (…) onde melhor se vive esta língua”. É isso curtir a língua, melhor vivê-la. Dar a ela seu lugar no subterrâneo, nas margens que não são tocadas por esse sol de CARETAS. A gente vai precisar não só destituir o presidente, mas destituir essa língua de matéria previamente feita (e nem é um ready-made ultracômico) pra instituir o autoritarismo por aqui (e só vou lembrar dos chavões com que começam frases de “opinião” ou mesmo as nossas frases de militância cibernética que nada sabe de linguagem de computador pra invasão e real ação política). A gente vai precisar criar novas transas, como dizia o Torquato. Bora criar uma linguagem de conversa fiada, é tudo mais ou menos por aí… precisamos rever a conversa fiada porque a séria está comprometida demais com a bobagem do protofascismo desejante-e-delirante. (E atenção aos camaradas de escrita, não é um poeta dos 90 quem inventou essa modo de operar não… tava lá no Torquato, só que o mundo cultural preferiu só se reapropriar dele, do discurso dele sem dá-lo espaço; tipo como fizeram os tropicalistas, de velhas transas).

Então só pra rumar rumo ao fim, vou contar pra vocês um fragmento de uma “conversa fiada” que li também na mesma coluna do “Última hora”. Ela data de 2 de novembro do mesmo ano. Ele diz muita coisa, mas quero só colocar a solução que ele apresenta já no início do texto para a vida pós-cataclisma, pós-pandêmica e que nada tem a ver com o blá-blá-blá filosófico-caretinha. Tá lá:

“1 – E agora? Eu não conheço uma resposta melhor do que esta: vamos continuar. E a primeira providência continua sendo a mesma de sempre: conquistar espaço, ocupar espaço. Inventar os filmes, fornecer argumentos para os senhores historiadores que ainda vão pintar, mais tarde, depois que a vida não se extinga. Aqui como em toda parte: agora.

2 – Thiago, meu filho, continua crescendo e reparando. E agora? Continuemos, parar é que não é possível. Apocalipse só se for agora, eu só quero saber do que pode dar certo e não é perto nem está no fim. Faz um ano que eu me dizia, no hospício: isso aqui não pode ser um refúgio e foi assim que eu saí por aí, foi por isso. Abaixo os meus refúgios, chega.”

Eu vou dizer uma coisa pra vocês. Eu decidi escrever esse texto não só porque estou meio cabreiro com a situação toda que estamos vivendo e com as soluções que vão se apresentando – todas elas mais caretas do que os mais caretas. Eu decidi escrever porque ontem gravei o meu filho (até postei por aí nos stories de redes) diante do livro “Poeminha em língua de brincar”, do Manoel de Barros, nessa edição da Companhia. Ele vê o desenho no centro da capa e diz: “parece um vírus”. Explica o porquê e depois olha pra mim, olha pra câmera, com o olhar mais desolado que já vi dele. Ele sabe que já não pode tocar em nada do mundo de fora, ele sabe que, quando saímos pra que ele possa tomar sol e andar um pouco pra além do apartamento, não pode tirar a máscara, não pode mais rolar no chão. Ele sabe que quando temos compras de supermercado novas, ele não pode tocar, ele precisa esperar desinfetarmos tudo. Ele entende o vírus como um ser vivo que tá atrapalhando a vida dele e ele “continua crescendo e reparando”. Precisamos nos reencontrar com Torquato pra tacar fogo em tudo o que for refúgio, temos que continuar, mas sem os caretas, que eles não estão nesse barco com a gente. E a gente pode ser muita gente! Viva Torquato Neto!


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