muito antes de ler a língua de baudelaire
tive de conviver com aquela edição já
bilíngue a capa branca com retângulo
róseo uma senhora esboçada com traços
a cada linha mais fortes e pendendo
à esquerda como decaída traduzida por
um quase poeta preocupado com rima
e forma acima da renúncia em traduzir
e isso foi mesmo antes de guilherme
de almeida ter surgido com umas tantas
flores esparsas pelo visor dos meus
óculos sempre sujos de dedos e pó
baudelaire mesmo muito antes já era
meu poeta guardado na mochila da escola
eu não tinha professores que indicassem
como ler o que ler como fazer o que ver
como compreender o que devia saber
antes de tocar um livro assim um livro
que tinha um mundo como às vezes os livros
conseguem conter em umas tantas
páginas de papel branco e tinta impressa
então baudelaire vinha grudado com uns tantos
livros a lira dos vinte anos esse que devo ter
lido umas trinta vezes em um mesmo ano
eu tinha uns quinze e esperava poder ler
byron ginsberg keats blake era o que me chegava
na minha compulsão em ler o manual
de literatura antes de começar o ano escolar
não para saber mais do que meus colegas
mas para que eu pudesse sobreviver aos dias
que cada palavra faltasse e ela sempre faltava
na língua que eu tinha inadequada à cidade
à cidade de baudelaire também que pra mim
era como se fosse a de shakespeare entre os
trinta sonetos traduzidos que comecei a ler
pra depois pegar os outros cada um dos outros
durante um largo longo tempo breve aqueles
jogos do poeta inglês que para mim ressoavam
sem nada ter a ver sem nada colar coisa com
coisa com o sou como o rei sombrio de um país chuvoso
baudelaire nunca escreveu esse adjetivo ao rei
bastava-lhe dizer que era como um rei dum país chuvoso
e eu li muitas e muitas vezes enquanto as paixões
adolescentes nunca pudessem responder
à abóbada noturna que o poeta amava como se
elas sempre foram não irreais as paixões
mas eram menores mais rasteiras a cada rasteira
que algum amor do distante outro século
então nenhum perfume mesmo os mais doces
entre aqueles que são doces demais para o sol
– ele que arroja seus punhais nos pardieiros –
chegava a tocar um gosto meu que depois aprendi
em modo e jeito
e se eu partisse ainda um dia de julho ou dezembro
ao rio de janeiro pra chegar à casa da minha avó
ela me perguntava o que eu lia se dezembro já
rimbaud que ela sempre implacável corrigia
a pronúncia não havendo nenhum /rã-bô/ mas
um /ren-bô/ no sotaque da sua bélgica natal
que ela dizia tão macabro quanto o outro
tão odiento quanto o outro – e só mais tarde
foi que descobri seu fascínio por hugo e musset
naquelas suas muitas páginas despedaçadas
ou em notas e notas de um livro sem fim
de citações anotadas – e ela trazia o livro dela
uma edição de 1961 garnier com a capa
em tecido vermelho e uma gravura colada
de félicien rops para a edição belga de 1866
de épaves ela a batia sobre a mesa e a deixava
ali repousando um largo tempo para que eu
tivesse a curiosidade de entrar na língua dela
na língua dele e eu abria a edição com a foto
de nadar com um baudelaire lânguido deixado
de lado e ali as inúmeras e intermináveis notas
de professor da sorbonne etc. antes me cansavam
e me diziam que talvez ela o achasse macabro
porque esse senhor antoine adam também o pensasse
assim macabro e cruel bestial talvez como seria
qualquer um que não pudesse dizer algo
nas ondas de uma natureza ritualizada
mas o importante era mesmo como ela batia
no livro e depois o deixava na mesa indo buscar
o maeterlinck que segundo ela era quem eu
deveria ler que me faria bem para o bom uso
do verso para que eu parasse de escrever
como quem mistura corpos e sensos como quem
não muito bem tenha pensado antes de colocar
a palavra ou o som da palavra ela dizia que
baudelaire ou esse outro rimbaud – leia-se
com um sotaque belga acentuado de quem
tenha nascido na segunda década do outro
século – só me fariam infeliz como quem diz
imperfeito como se ela sem nunca dizer palavra
tivesse já imaginado pra ela o que eu deveria ser
mas o livro ficava ali sobre sua mesa depois de
muito bater sobre a capa depois de muito
dizer que ele era macabro e que seus olhos
diziam que talvez não devesse lê-lo tão novo
– novo pra ela – imagens de corpos soprando
o hálito ressequido das ruelas de prostituição
dos odores de cada recanto mendigo ou dos
pedintes ou das chaminés que fazem artificiais
as nuvens sobre a cidade e o livro ficava ali
por que ela vigiasse? por que ela quisesse que eu
o pegasse treinasse o francês infringisse alguma
norma?
quando ela morreu quase um ano após a sua morte
fui até seu apartamento vazio cheio de pó
as coisas ainda por lá sem luz alguma para se guiar
o livro de baudelaire ficava em seu quarto
numa estante com maeterlinck e musset como se
eles estivessem ali esperando por mim
o maeterlinck estava todo corroído por dentro
com vermes e cupins a olhos nus ainda fazendo
seu trabalho de degradação de nutrição compulsória
a tornar as matérias em outra matéria orgânica
ao musset alguns furos já começados e ao baudelaire
intacto por já ter demasiada vida entre cada verso
como se ele se vingasse vinte anos depois
daquela cena
hoje quase não abro a minha primeira edição
do baudelaire poetas de todos os tempos
ela fica ali parada no tempo entre os muitos
baudelaires que já chegaram e que ainda virão
e mesmo que me lembre do que era lê-la
há quase 25 anos hoje baudelaire tem sotaque
valão pra mim um sotaque que me faz preferir
a edição degastada e sobrevivente aos cupins
do que as outras muitas que já convivi até hoje
mantenho o marca página em tecido amarelo
sobre a mesma página a dobra entre a 132 e 133
e me pergunto qual dos versos a fez parar ali
qual poema ou acaso la terreur qui me mime
ela espera um dia talvez ser demovida do que sabe
a memória duma senhora mil vezes escondida
ao ler sozinha essas coisas entre os dedos
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