não eu não li antes os detetives selvagens de roberto bolaño
não mesmo que pareça estranho mesmo que soe bizarro
o simples fato de um professor de literatura bastante
preocupado com a questão da escrita e de como a escrita
pensa a escrita ou como a escrita se faz escrita ou por escrito
eu não li antes os detetives selvagens não li esse personagem
obsessivo em busca de sua obsessão ou seja não li o que
era toda a história da literatura contada como sempre
foi contada ou somente foi contada a partir de barthes
quando ele descreveu as obsessões de flaubert pelas dobras
as obsessões das descrições os mil e um guardanapos
sobre as mesas e como isso não passava de um artesanato
de escrita (a expressão é do próprio barthes hein)
eu não li antes os detetives selvagens e agora começo a lê-lo
e escrevo esse poema talvez para datar esse evento
porque não há mais muitas obras ditas clássicas que posso
hoje me dar o luxo de não ter lido antes e que agora que
me aproximo do último ano para sair dos trinta poderei
ter essa íntima impressão estranhada de olhar com os olhos
intocados aquelas palavras com que bolaño revestiu
a busca de seu personagem pela história ou pela geração
e começo um dia depois de ter assistido a dois filmes
words of love leonard and marianne e double blind
o primeiro a história de leonard cohen e marianne ihlen
aquela das inúmeras mesmas melodias do poeta
que deveria ser uma história de amor das mais belas
histórias de amor daquele amor que não se esquece
do outro mas que terminou por ser apenas mais uma
vez a mesma do old man que para viver seus mais supérfluos
anseios acaba por destruir tudo o que toca o filme
não tem esse tom o filme quer dizer que a história
é bonita que eles estiveram juntos até o fim mas deixa
escapar essa mentira deixa entrever que algo se produziu
na ilha de hydra e que dali saiu o cantor o poeta a celebridade
mas ao mesmo tempo essa mulher que foi calada
o segundo filme é assinado por sophie calle
e co-directed by greg shepard eles se entrefilmam
numa viagem pelos estados unidos numa espécie
de filme íntimo diário e fotomontagem à maneira
de marker mas com o sotaque francês dificultando
o inglês o inglês do alabama dificultando o inglês
ela repete noite após noite no sex last night
e mesmo assim acaba por se casar com ele em las vegas
a ideia era que víssemos filmes de amor e no fundo
são os dois filmes de muito desamor ou de amor
se considerarmos que isso é impossível que isso
não tem outro nome possível a não ser uma ação
sem fórmulas porque elas são de certo modo o
dark side de quando falamos tão claramente tão
diretamente sobre as coisas do dia a dia quando
colocamos uma câmera diante de outra câmera
para dizer o que não diríamos sem essa mídia
entre os olhares de duas pessoas e é aí que ela
sophie calle pega a mais central das cenas
a figura paspalhona de greg que se apaixona
por seu carro e diz que dormiu com outras mulheres
nas noites no sex durante os sonhos sophie apenas
o filma cortando o topo da sua cabeça e pega
sua língua se movendo escandalosamente obscena
e estúpida e então mesmo que o filme termine
com a voz de greg dizendo exatamente o desamor
que cada homem tem por cada mulher e como não
li antes os detetives selvagens mas sei uma passagens
que todo mundo fala todo mundo cita sei que há
uma procura obsessiva e que talvez não possa ser
senão isso uma procura obsessiva mas que não
tenha apenas o eu que não seja apenas a partir
do eu como aquelas pessoas que dizendo estar
pensando no outro te lançam mil culpas porque
no fundo só entendem duas coisas: o egoísmo delas
em só pensar nelas ou o que os cristãos acreditaram
o que era pensar no outro isto é pensar em si
e não no outro duas faces da mesma moeda
como os dois filmes duas faces que formam
um só signo o império do eu que não pode
assumir que seu desejo é da ordem do negativo
destrutivo aniquilante aquele mesmo dum
knight from some old-fashioned book uma cena
que foi cortada apagada para que o eu pudesse
vir
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