o pangolim e as escamas da política

desde o começo da pandemia
atribui-se uma relação direta
como foi já o lobo já a raposa
já o leão a cobra o leviatã entre
o animal e a peste entre ser
animal e ser governado pela
bestialidade esse supra-humano
traço de inscrever-se acima
mais acima do perecível
e a que desde o velho aristóteles
se chamou política dos homens
a pulsão de morte 💀 os cadáveres
se amontoando o jogo calmo
da repetição o elogio estupefato
do pensamento ou da ilógica
matéria dum ou outro fascista
tudo converge a eliminar omitir
a resposta que poderíamos
ter tido ou da promessa do capital
ter tudo ter a margem a mais
duma vida que explorei

no confinamento vivo entre
bichos de pelúcia 🧸 cão leão
ouriço mais um cão urso que na
verdade é um cão um totoro
um camundongo uma raposa
uma abelha que meu filho tenta
dar nomes porque pedimos mas
eles não são nem de perto
o que eles serão depois o temido
da raça o que não pode ser tocado
o que deve ser evitado e a cada
atributo que lhes serão atribuídos
sobrarão quase nada dessa memória
no confinamento também como
alguns deles o frango o boi o carneiro
e o peixe sobretudo o peixe
não sem alguma culpa não sem
antes assumir minha parte nesse
extermínio em massa nessa confecção
de abatedouros de antibióticos
de seres nascidos para o abate
não nasceram pra morrer e esse talvez
tenha sido o erro de heidegger
(que nem derrida viu por certo)
o dasein poderia ter nascido pro abate?
morrer perecer falecer findar são
verbos despolitizados tão ao gosto
do fascismo higienizado do dasein
heideggeriano há seres de abate
herr heidegger? o que pode vir ainda?

desde o começo da pandemia
um bichinho muito simpático
foi apontado como o transmissor
número um o responsável irracional
pela primeira vez desse contágio
o contato do pangolim exilado
extirpado para um solo chinês
para se colocar num mercado não
muito longe das casas em wuhan
nem muito longe do rio amarelo
a rota que atravessa mercadorias
numa travessa de agora crianças
com chapéu-helicóptero um metro
de distância e não tocar simplesmente
perder qualquer tato não viver ainda
uma vez a carne que é nossa a pele
que pode ser uma extensão
do que nos sempre foi frágil
e não importa o modo que eles
seguirão os políticos farão que elas
as crianças sejam afetadas por
um solo republicano por uma crença
de que ainda elas vivam em liberdade
a mais frágil das concepções se não
há corpo se não há espaço

o pangolim anda gracioso e consegue
se enrolar sobre si mesmo em suas
escamas com as garras que poderiam
escavar o mundo qualquer terra
a que ele se exponha no poente
dum outro país da outra ponta da terra
o pangolim deveria estar andando
por aí tentando subir mais alto
mas apenas em árvores apenas
como quem sobe pra se divertir
ou comer umas frutinhas no meio
do caminho ou à maneira do ouriço
que se fecha sobre si mesmo
expondo-se ao acidente da palavra
poesia ao contrário das outras
aquelas escamas do que se chamou
política que se acostumou chamar
política mas que de fato é apenas
um modo de manutenção de regime
de modo de poder do comando
e assim segue bloqueando aquilo
que poderíamos viver como desejo
aquilo que em algum momento se quis
como política e hoje impõe não o rastro
essa ausência insistente mas
o rastreamento geolocalizado que não
fizeram antes que omitiram no antes
onde tudo pôde ter começado então
seremos nós os geolocalizados
por portar ainda uma máquina mínima
à mão por guardar em segurança
nossas fotos a vida inteira que nada
tem de privada que não é nada senão
a privada do mundo onde seguiremos
como dado e número como cova
aberta em pleno sol por já não se grita
ou antes se gritou de não estarmos
contentes então resta a balada
do velho de terno e gravata tossindo
esperando que cheguemos a trinta mil
na celebração do maio que vai passar
de junho que vai passar de julho
agosto setembro talvez para mais uma
onda mais um momento em que não
faremos senão o trabalho senão voltar
à sala de aula contaminarmos contaminar
a todos ou ainda pior remotamente
falar para alguns que entre o choro
da fome e a conexão que não há
pois há só contágio e não conexão
somente uns poucos ouvirão um curso
somente uns poucos de novo ganharão
sua parte na luta contra o tédio
de esperar seu leito na próxima falha
de respiração ou no luto de um próximo
ou no tédio de nada ter o que fazer
como o pangolim que nada a não ser
viver faz nada a não ser cultivar
um desejo que sobre a vida se coloca
sem esperar nada sem aguardar
uma só das horas em que tudo
se perde –

ou como se diz por aí algo se vingou
e vinga e vige sobre corpos
que não eram mais


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