Acabo de ler a entrevista de Judith Butler em que ela afirma ser o neofascismo uma “reação e não uma regressão”. Ao apontar o modo de instabilidade produzido e explorado pelas formas de governança neofascista, ela se depara com um duplo problema: o que ela chama de “precariedade econômica radical” e os “avanços feitos pelos movimentos sociais para estabelecer a igualdade de gênero e a despatologização (e descriminalização) da sexualidade gay, bissexual ou lésbica ou das vidas das pessoas trans”. Sua tese é em si boa, do meu ponto de vista, é mesmo correta em olhar para a questão como reação e não regressão. No entanto, os motivos me parecem distorcidos.
Não há dúvida quanto ao papel central dos avanços sociais garantidos pelos movimentos de minorias no levante reacionário. Acho mesmo que aí entra toda a questão, bem como seus problemas mais primários. A questão que leva ao falseamento da disputa quando ela atribui essa reação à precariedade econômica. Ela diz, claramente, que as condições sociais (trabalho, moradia e saúde) “nem sempre são garantidos”. Ora, a questão aqui se faz num triplo erro de argumentação. Primeiro, Butler se ancora na generalidade da implementação super-estrutural do sistema capitalista americano. Esse desenvolvimento do sistema é pressuposto pela filósofa como globalizado e globalizante e que, portanto, valeria para qualquer outro sistema capitalista mundial. É uma falácia que desconsidera a história e a geopolítica específicas de países que não estão nem perto da disputa do “livre-mercado” e de outros delírios do neoliberalismo do norte. Nessa super-estrutura, todos os cidadãos e todas as cidadãs teriam condições sociais relativamente equânimes para disputar a garantia (ou não) do acesso aos benefícios sociais. Esse ponto leva ao segundo problema, uma espécie de culpabilização dos mais pobres, ou melhor, leva a colocar panos quentes na acumulação de riquezas que representa justamente o acesso a essas condições mínimas de vida. Quem não tem acesso é quem vive a precariedade, num país em que a desigualdade social é alarmante e violenta os efeitos dessa insuficiência nos recursos à saúde, moradia e emprego são também distribuídos de forma desigual. E, como terceiro ponto, ela chama atenção à “precariedade econômica radical”. O duplo qualificativo para a escassez esquece-se da própria ideia de radicalidade, como foi discutido por Marx no que se costuma chamar “crítica radical”, que vai até a raiz dos problemas sócio-políticos. Viver a radicalidade econômica da precariedade deve casar-se com as políticas de austeridade implementadas (ou em demanda de implementação) por uma economia de vertente neoliberal. É a austeridade que produz a vivência precária, em que nenhum investimento em áreas essenciais à manutenção da vida é visto como positivo, antes são gastos e precisam ser cortados, contingenciados, reprimidos.
Essa argumentação pressupõe que o levante neofascista venha de comunidades mais atingidas por essas sanções. Ou seja, pressupõe que os elevados números de votantes – porque estamos ainda falando de uma implementação totalitária no cerne das democracias globais, onde o problema de fato deveriam ser discutidos! – são fruto de sua própria condição de subsistência e de “não acesso” à informação. Ora, o que vivenciamos no contexto brasileiro (e também norte-americano) é que justamente a comunicação e o fluxo de informação foram os principais responsáveis pela produção da ideia de um líder que poderia produzir essa reação. Evidentemente, isso implica as promessas por mais segurança, emprego e saúde; na criação de maiores e melhores condições sociais para esses eleitores. Mas, de fato, são eles que matam ou continuam a matar as minorias? São eles que produziram os mecanismos de distorção das pautas da alteridade?
Uma das razões possíveis, e que está no cerne da construção do estado liberal, é a falência da biopolítica. Ou ainda, na vivência fracassada da biopolítica enquanto forma de preservação da vida de seus cidadãos. A precariedade aqui não é meramente econômica, há uma precariedade da vida e da manutenção da vida. E isso sim, vem de um sistema macropolítico importante: a biopolítica convertida em necropolítica institucional e estatal. A ordem para matar vinda das esferas de poder que se autoproclamaram como soberanas diante das formas ditas “precárias” de vida (minorias sexuais, refugiados, imigrantes, minorias raciais). O bio da política tem claramente um sentido não apenas de ordenamento generalizado, como o via Foucault. O bio da política é o de adequação à ordem instituída pela moral que instaura um mundo preconcebido dentro das ficções científicas (não nos enganemos ao imaginar que eles estão distantes dessa esfera), das ficções biológicas e do poder discursivo da força para a manutenção da lei, e não da justiça.
Butler continua “somos acusados de desestabilizar seu mundo, mas a desestabilização que eles sentem é induzida pelo sistema econômico que abraçam e pela ascensão do autoritarismo neofascista”. Há certa tautologia nessa argumentação. A ascensão do autoritarismo neofascista não se dava por essa desestabilidade e pelo sistema econômico? Quero dizer, não há explicação aqui. Há um ritornelo que não encontra a razão da reação, antes favorece o argumento de “regressão”. Para valorizar seu argumento, ela poderia ter a radical coragem de assumir a posição dos movimentos sociais. São esses movimentos que desestabilizam o mundo do capital tal qual ele foi moldado. E, nesse sentido, teríamos que lidar com alguns aspectos que podem incomodar o voo dialético da compreensão dos fatos.
Quando o Black Panther Party se deu conta de que a luta por igualdade de direitos deveria passar por certa compreensão da liberdade, o que eles acabaram por fazer senão uma assunção radical das pautas para a sobrevivência da população negra dos EUA? A base da revolução social não está nas universidades ou nos livros de filosofia, está no movimento social que se organiza a partir de urgências e utopias, agilizadas ao mesmo tempo. E se digo isso não é para desvalorizar o trabalho que precisa ser feito dentro das instituições de ensino – trabalho sobretudo para desinstitucionalizar o saber – mas para tentarmos outra via, que precisa realizar uma crítica profunda. O que chama atenção nesse sistema de “desestabilização”? Evidentemente que são os avanços sociais, como Butler mesma afirma. Mas aí entra a questão espinhosa. Costumamos atribuir essas distensões do poder e esses ganhos mínimos de representatividade a uma política identitária, ou ainda mais complicado, a um pensamento identitário. Essa é uma dimensão conceitual que acabou se alastrando dentro do tecido das lutas sociais, não tenho dúvida. No entanto, o que desestabiliza não é a identidade ou a assunção de uma identidade representativa. O motor que sempre desestabilizou a história do Ocidente foi a diferença. É no feixe diferencial que tudo pode ruir e se refazer. É na demanda radical pela diferença que o incômodo acontece. Neofascistas adoram processos identitários, eles compreendem bem seu funcionamento. O que eles não são capazes de tolerar é a total diferença que existe quando se está diante do outro. E nesse ponto não há pink money que consiga sustentar a vida dos LGBTs diante da ameaça homolesbotransfóbica.
O que quero dizer com isso é que, hoje, nisso que veio como reação, o combate se faz no corpo. Não são marcas identitárias, são marcas de imaginário construídas no corpo e nas heteronomias que esses corpos são capazes. Não temos aqui o “Ser” da ipseidade reclamando a existência porque pensa, porque se serve da razão. São corpos que se movimentam no espaço público e que tomam as ruas como possibilidade de experienciar suas diferenças de modo radical. Estamos diante não do júbilo da razão europeia que procura compreender e descrever os mínimos movimentos do próprio pensamento, numa autotelia irreversível; antes estamos diante do que quer dizer o desejo e de como o desejo pode subsumir o verbo “querer” e como ele deve ser conjugado pela diferença. Trata-se de uma ética com efeitos políticos imediatos.
À diferença dessa postura acadêmica, lembro do poema “All they want is my money my pussy my blood” [Tudo o que eles querem é meu dinheiro minha boceta meu sangue], da Morgan Parker. Ela joga com todas as marcas imputadas como identitárias (mulher negra na América) e produz o que está em jogo: o que quer um protoneofascista (ou ainda um homem, em geral branco, heterossexual). O poema começa com “I am free with the following conditions” [Sou livre nas seguintes condições], para já no segundo verso dizer que é preciso que “desista, me dá, me dá”. O que pode essa vida? O que suporta esse corpo que não suporta mais nada? Dizer “ok, então sou uma negra na América, né, e ando até o bar”. Ali ela pode beijar, Só Se Vive Uma Vez, não… ela tem a consciência de ser a caça. E nessa caça a única coisa que interessa é sua boceta, a boceta de uma mulher quebrada, faminta, moribunda, simplesmente por ser uma mulher. E toda a gente que imagina que ela vai morrer porque eles querem que ela morra, como animal de abate. The present is not so different. Viver no mundo contemporâneo, a arte negra, o movimento negro, o pensamento negro, como se eles ainda fossem escravizados por brancos. E onde está aí a reação, se they do not understand that they exist [eles não entendem que eles existem]? O que confere existência a esse existente? Já não cabem rostos, protótipos de identidade, máculas da filosofia. There is no indictment [Não há nenhuma acusação], em beijar um homem branco. E as poupanças miúdas, quase zero, como a liberdade sob condições. A condição de que apenas eles podem estar para fora do cunho do liberalismo, porque eles são o sangue quente e úmido que o fascista quer beber. Em caso de haver qualquer problema, temos que andar certinhos. Cada passo disso que se forja como uma existência tende a ser configurado porque quem quer (estar no topo). E como se a referência não tivesse ficado no passado, os frutos estranhos pendurados nas árvores do sul dos Estados Unidos, chega o tempo da colheita estranha e amarga, naquela voz da Billie Holiday, naquelas fotos de corpos negros pendendo. Morgan Parker diz não ser apenas frutos, mas “Eu sou uma árvore e alguns frutos são bons e outros, maus”. O corpo que não suporta, que não é senão carcaça (como são bonitos aqueles versos da Carla Diacov!), deseja e quer. E isso não passa apenas por uma dívida econômica do outro diante do si, ela se constitui na condição de possibilidade do si (dessa figura mortífera que se banhou durante muito tempo no sangue dos corpos outros). Se há algo que o fascista quer é o querer de quem quer. Eles querem destruir o nosso modo de querer, que tenhamos não apenas a identidade da árvore, antes sua diferença, sua total alteridade naquilo que é mais cotidiano: um qualquer querer.
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