rasga a manhã pela janela
que dorme fechada e para
o olhar quando se abre
estendendo sobre si um outro
ar incômodo
rasga como quem rasga um
contrato e cai a máscara
de proteção
do presidente (sic)
o menino corre com um balão
vermelho o fundo do ar
de uma outra década
o café deixado na mesa
louças se acumulando
a carne que se mistura
ao coentro e cominho
a mão que não está só
guarda esse perfume
ela chega no meio da tempestade
máscaras e fronteiras fechando
o tempo o clima já não era inverno
e as trinta e duas horas de viagem
já não parecem longas para o longo
tempo que ficaremos sentados
ou faremos longas caminhadas
para não encontrar ninguém não topar
com ninguém que não seja nossas mãos
parece que ouvi dizer
que os golfinhos voltaram
aos canais daquela cidade suja
onde a pedra de murano
agora só faz número
de corpos insepultos
na tarde de inverno terminando
os macacos dispersos desesperam
a falta de restaurantes na fronteira
leste e por uma banana sitiam
a cidade pois
os coiotes chegaram em são francisco
e o lobo da corte que continua
descer numa trovoada
ouço música quase todo dia
quase em todas as horas
esperando a boca espuma
de ódio vulgo bene… e por aí vai
o corpo cai na cama
o peito estourando
máscara no rosto sigo
ao hospital o menino
num outro jardim
todas as infecções respiratórias
testadas e a não ser pelo
elevado número de linfócitos
tudo está normal
o corpo cai novamente
mas pousando numa mão
doce que diz cantando
ou num sussurro
uma piada sobre um bêbado
na biblioteca e é ainda mais
doce ouvi-la sorrir como se
o que estivesse lá fora não
pudesse entrar aqui
e ela me fala das formas da rede
que se formam sobre meu rosto
vindas da luz do poste enquanto
ficamos olhando o tempo passar
enquanto ficamos nos olhando
também porque é muito do que
fazemos nos olhar com os olhos
e as mãos tentando nos traduzir
numa e noutra língua enquanto
a rede de contenção para gatos
para crianças para suicidas fica ali
entre o mundo perdido em tão
pouco e o estar aqui dentro nesses
retângulos mil vezes conhecidos
e depois de alguns copos podemos
nos levantar para nos estirar sobre
os lençóis trocados a cada semana
como quem cuida de uma casa
para além de qualquer outra ação
e ali nada é conhecido nada é
como um retângulo que cobre
a face que cobre o chão a cobrar
a entrada mil vezes desinfetada
o garoto em mim diz
sem muito
perceber
eu sopro os pássaros
e com um passo que para
a cada passo percorrendo
os lobos que soam às 20h30
ele recolhe o que já não existe
bastões cajados folhas imensas
a folha do camarada totoro
de onde ele faz um buraco
e de lá vê o mundo numa moldura
será que a gente poderia tirar a nossa
casa daqui e ver a terra debaixo?
é tudo muito vermelho quando
os periquitos sobrevoam as copas
das árvores e nunca nos habituamos
ao barulho do vento nas árvores
infestadas de morcegos recheadas
de goiaba ou de teias de aranha
e um gigante que colhe nuvens
quando o menino em mim monta
sobre ele e inventa mais uma cantiga
misturando línguas misturando risos
para depois dizer que quando eu choro
depois eu fico refletindo ele tem três anos
e fico calminho o que quer dizer dormir
e no entanto nada dorme em mim
meus músculos me dizem sem anunciar
como se tivessem passado muitas horas
lendo uma poeta suicida ou outra
que não se matou mas que disseram que
e isso perturba meu sono o sono do menino
também porque ele já não quer dormir
às 20h já que percebeu que já não pode
tocar em nada que sabe como os vírus
avançam sobre suas mãos em suas narinas
para chegar mais perto da morte
ele me pergunta todo o tempo como se
eu me perguntasse também todo o tempo
morreu então está na terra?
a resposta não é tão difícil mas penso
na casa levantada e como estamos aterrados
sobre cemitérios sob esses rostos
do passado que retornam sem parar
no meu sonho vejo meu pai mais nítido
do que ele era e as frases são as dele
em mim
as frases são as que ele teria dito há muito
exceto que as cenas não são uma memória
eu tenho no braço minha tatuagem
que forma a mimosa sobre aqueles poucos
versos da ilíada e essa é minha única
última
garantia de que o pesadelo vai passar
que posso voltar aos olhos acordados
mesmo que me fira a cabeça abrir os olhos
mesmo que me doa ter de lidar com o que
voltou no sonho uma semana de pesadelos
e ainda agora ouvi aquele diretor de cinema
com seu enorme charuto dizer entre sorrisos
que o vírus é ça comunicação que ele comunica
sem máscaras enquanto o menino dizia
que teve um sonho estava chovendo
e vinha um fantasma molhado
que controlava o trovão ou que havia um
vulcão com uma árvore que a gente pode comer
entre hashtags de quem a memória
parece ter esquecido quem seja prefiro ouvir
uns poemas ler uns outros wordsworth
que li tão pouco antes eia haver miséria logo
nenhum amigo? era como uma pergunta
falhando como falhava a lua gigantesca
de ontem porque we ne’er shall learn to prize
the things worth living for era como dar
uma resposta amistosa ou como assinar
seu nome com a metade de si eu ouvia
aquele amigo lendo o arquíloco e seus
impossíveis enquanto ele escreve um
poema contínuo em que só existe
a catástrofe
catábase de ter de subir às avessas
pelas escadas de concreto cobertas
de calor ou a umidade numa cidade seca
por esses dias talvez há três dias
o menino começou a fazer rimas
segundo seu caderno de habilidades
na escola rimar é tão importante
quanto fazer cálculos calçar o tênis
lavar as mãos então enquanto ele come
faz voar seu dragão que vem das nuvens
que ele observa e diz que um dragão
assusta como um melão
ele me promete que vai dormir à tarde
uma hora e meia para sovar o pão
que aprendo a fazer como aprendi
a escrever pouco a pouco e com parcos
utensílios com parcas palavras e um
lápis em que carcomia a outra ponta
e o apontava demasiadamente para fugir
da palavra escrita ele não a teme ele
a encara num h ou num t ou num o
que ele reconhece dizendo é o meu nome
dizendo aqui está escrito heitor mesmo
que esteja escrito piero porque ele reconhece
as mesmas vogais o mesmo r faltando ao h
nada é tão claro agora quanto essa mínima
coisa a que chamamos amar ou ter amado
ou ser amado essa mínima coisa que se faz
entre as paredes da casa o medo do resultado
inesperado e o poder se desentender quando
trocamos de língua como antes trocamos
abraços saliva suor
tocando o som do corpo
heitor e piero eyben
16.03 a 08.04.2020
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post-áudio: com a leitura da Bárbara Gontijo:
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