o sol dessa manhã domingo
3 de maio queima os pés
terei em alguns dias uma marca
daquelas que em poucos dias
virarão uma pele morta
e descascando já não sentirei
a ardência desse mesmo sol
que parece emitir uma radiação
estranha porque já o observo
há dias procurando um outro
modo de viver o cotidiano
das coisas o cotidiano das mesmas
coisas nos mesmos lugares
o pó se juntando entre os quadros
teias de aranha fazem a marca
de um dia a mais na vida das
aranhas tão pequenas aqui e tão
grandes sobre as árvores ou entre
as placas de trânsito ali embaixo
pelo estacionamento vazio
da universidade
o sol desta manhã domingo 3
de maio de 2020 queima as pernas
a cintura faz da roupa um desconforto
e penso em como continuar a
escrever um ensaio trabalhoso
algo que pertencendo a um passado
chega hoje com outro vocabulário
o medo das superfícies desconhecidas
ter de lavar cada novo mantimento
estocar evitar cruzar as pessoas
ninguém fica a menos de um metro
todo mundo toca em tudo
apenas eu e mais dois de luvas
dá pra sentir o ridículo da cena
essas luvas de cirurgião soltam
um micro pó e nunca na vida
pensei em como a quantidade
de plástico inútil a gente acumula
joga direto na lata de lixo antes
eles eram o que revestia o lixo
sim reutilização não consciente
o traço de tudo o que vive
como no dia em que tentei
fazer um pão e errei feio no
fermento geladeira pra rearranjar
a massa para rearranjar o erro
e no dia seguinte ela era uma
massa de matéria colante e viva
com boca e tudo cheia de bolhas
que falava e sobretudo fedia
o sol dessa manhã domingo 3 de maio
de dois mil e vinte queima o ventre
a marca na camiseta roxa delineia
o suor da gordura acumulada
uma linha expressa de suor e cansaço
abro abas e abas em lojas de camisas
camisetas ecológicas meu celular
ouvindo e registrando cada frase
que diz eu quero e depois sem nenhuma
aleatoriedade links patrocinados
me oferecem o mundo que tende a
terminar não não tende nada ele
insiste em continuar talvez mais
vivo e ainda nada mais será privado
a mercadoria entrando na sua casa
e os precários continuando a não
poder estar em suas casas porque só
eles não podem sentir a angústia
por cada superfície em que tocam
tudo isso embora a sintam embora
a vejam diretamente a cada novo lar
que devem chegar tocar o interfone
falar com o porteiro esperar embaixo
do prédio trocar algumas palavras
com o consumidor e partir para mais
uma entrega mais uma engrenagem
que não terminará nunca terminará
nenhuma superfície conseguiu eliminar
o mal com o mal e nada é tão plástico
assim nada parece seguir esse novo
arranjo neural que destrói a desconstrução
ela tem razão? o medo da superfície
cria uma série de acidentes eu sei mas
com elas uma outra guerra surgirá
enquanto bebemos nosso café enquanto
aguardamos a mais nova notícia
e as coisas acumulando o pó de um outro
domingo de um outro desenho que não
chegou até aqui daquele micro buraco negro
que dizem estar na ponta do sistema solar
o sol deste domingo três de maio de 2020
queima o peito e estou perto de sair
de deixá-lo pra trás entrar ir em busca
de uma sombra onde o calor não é tão
intenso ou tão mais aterrador nesse
céu sem nuvem nessa massa de calor
que se forma no horizonte como uma
névoa que não deixa distinguir as outras
formas na linha do horizonte vejo aquela
torre que deveria ser uma flor ratée
e vejo de relance que a editora springer
liberou livros de ciência para download
passo o cursor descendente e caio
no fundamental astrology sexta edição
passo os olhos no índice e decido lê-lo
lerei calmamente lerei como quem não
pretende nada mas o capítulo 21 astrobiology
é o que começo minha porta de entrada
para talvez só depois ir aos cálculos aos
instrumentos ao que excede meu parco
conhecimento de amador das coisas
do espaço sideral ali um parágrafo
que poderia ser o parágrafo que comecei
meu seminário esse ano antes de interrompê-lo
pelo contágio perigoso das superfícies
eu tinha começado para falar do suicídio
com a discussão de canguilhem sobre
o que é a vida agora nesse compêndio
de ciência astrológica a pergunta não é menos
alarmante in fact, what is life? it seems
that life is an elusive concept difficult to
define in terms of just a few properties
nenhum medo de se colocar essa pergunta
o cientista que olha o céu não tem nenhum
medo de se colocar essa pergunta como
quem pergunta algo num bar mas que
responde como quem não pode deixar
de temer o conceito de conceito a dedução
o seu significado potencialmente calculável
pois a cada fim de capítulo há exercícios
para se fazer para compreender como
isso tudo foi pensado numa outra linguagem
como por exemplo é possível detectar a vida
e eles dizem que is based on spectroscopic
observations that can reveal some signatures
of life que elas estão in the infrared part of the
spectrum thus requiring observations made
outside the atmosphere nenhum espectro
que não seja ele mesmo uma marca da diferença
esse rastro que coloca o tempo em disjunção
como observar cotidianamente o pó
que se amontoa sobre as superfícies e quase
pode abafar a camada de gordura que devemos
tentar limpar a cada saída a cada chegada
enquanto esqueço com frequência o que
de fato é a vida nessa manhã de domingo
três de maio de dois mil e vinte quando
o sol já não é mais um problema
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PS ou post-áudio: horas depois de publicar o site, recebi do Lucas Lyra uma leitura desse poema… escuta aqui:
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